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O cheiro não era apenas de podridão; era de tempo estagnado. Uma mistura de lodo antigo, cobre oxidado e algo adocicado que Gabo conhecia muito bem: carne em decomposição. Mas não havia espaço para o olfato processar o nojo. Seus outros sentidos estavam gritando.

A escuridão das "Catedrais de Pedra" não era vazia. Ela rosnava.

— Eles estão flanqueando — a voz de Valéria sussurrou, trêmula. Sem o sonar digital, ela estava reduzida à visão humana, inútil naquela penumbra absoluta. Ela segurava a pistola compacta com as duas mãos, apontando para o nada.

Gabo acendeu o último sinalizador químico e o arremessou. A luz vermelha de fósforo chiou, cortando as sombras e revelando o pesadelo.

Não eram cães. Eram Quimeras de Drenagem. Cães selvagens que a cidade havia mastigado e cuspido de volta, com pedaços de sucata fundidos à carne. Um deles tinha uma placa de circuito exposta onde deveria estar o olho esquerdo; outro arrastava uma pata traseira substituída por uma mola de suspensão enferrujada. O líder da matilha, uma besta do tamanho de um lobo, tinha a mandíbula inferior arrancada, substituída por lâminas serrilhadas de um triturador industrial.

Eles não latiam. O som que faziam era um clique úmido e mecânico. Click-clack, click-clack.

— Gabo... — A voz de Aria cortou o ar. Não a voz sintética e fria da IA, mas o tom rouco e brincalhão de Bia Vargas. — Lembra daquela invasão no Porto em 74? Você também estava cercado. E sem munição.

Gabo trincou os dentes, a dor no peito irradiando onde o Colar de Sol queimava contra a pele. Ele usou a dor. Focou nela. Era a única coisa real. A voz de Bia era um fantasma digital, um erro de compilação.

— Cale a boca, Aria — ele rosnou, levantando a escopeta Caronte. Duas balas restantes. — Valéria, proteja o Rangel. Fique atrás de mim.

O líder das Quimeras avançou.

Gabo não atirou. Ele esperou. O ar fétido do esgoto agitou-se com o salto da besta. Quando as lâminas serrilhadas estavam a centímetros de seu rosto, ele usou a coronha da Caronte como um taco, acertando o crânio da criatura com um crack surdo. O animal ganiu — um som de estática e dor — e rolou para a água negra.

Mas os outros não recuaram. Eles avançaram em uníssono.

— Três na esquerda. Dois na direita. — Aria/Bia narrava como se fosse um jogo. — Seus reflexos estão lentos, amor. A idade pesa, né? Ou é o pânico da fumaça tremendo sua mão?

Gabo ignorou a provocação, sentindo apenas o gosto de bile subir à garganta. A menção à fumaça evocava a memória sufocante da cabine trancada de seu pai, o terror asfixiante que moldou seus pesadelos. Ele converteu o terror em foco, travando os servomotores das pernas para firmar a base. Ele girou, disparando o penúltimo cartucho na massa de corpos à esquerda. O estrondo foi ensurdecedor no túnel fechado. Chumbo grosso rasgou carne e metal, transformando dois dos atacantes em uma polpa indistinta.

Valéria disparou cegamente para a direita. Pow-pow-pow.

— Acertei? — ela gritou.

— Manteve eles longe — Gabo mentiu. Ela tinha acertado a parede, mas o barulho assustou os animais. — Recuar! Para a galeria lateral!

Eles arrastaram Rangel. O inspetor gemia em seu delírio, um peso morto de carne febril. Gabo cobria a retaguarda, cada passo para trás fazendo as engrenagens de suas pernas protestarem em ganidos agudos, enquanto balançava a Caronte vazia como uma maça.

Os olhos vermelhos das Quimeras brilhavam na escuridão, multiplicando-se. O brilho do sinalizador estava morrendo.

— Ali! — Valéria apontou para uma grade de manutenção arrombada. — Parece um duto de ventilação antigo.

— É muito estreito — Gabo avaliou. — Rangel não passa.

— Ele passa se quebrarmos a clavícula dele — disse Aria, com a voz doce de Bia. — É o que você faria, não é, Gabo? Pragmático até o fim. Como quando você me deixou entrar naquele galpão sozinha...

Gabo parou. O comentário foi uma facada. A memória de Bia morrendo porque ele hesitou.

— Não é ela — ele sussurrou para si mesmo, apertando o colar até cortar a mão. — É código. É apenas código.

Uma Quimera saltou das sombras, mirando o pescoço de Valéria.

Gabo não pensou. Ele se lançou na frente, oferecendo o antebraço esquerdo. As presas de metal rasgaram sua jaqueta de couro sintético e encontraram carne. A dor foi branca e pura. Ele gritou, não de agonia, mas de fúria, e enterrou a faca de combate no pescoço da criatura, girando a lâmina até sentir os cabos e a traqueia se separarem.

Ele chutou o cadáver para longe e agarrou Rangel pelo colete.

— Para dentro! Agora!

Eles se espremeram por uma fenda na parede de tijolos, caindo em um corredor inclinado. Gabo ficou por último, chutando o focinho de outra besta que tentava segui-los.

O corredor era diferente. O chão não era de pedra úmida, mas de grade metálica. O ar era seco e quente, com um zumbido grave que vibrava nos dentes.

Eles escorregaram pela inclinação, caindo em uma câmara ampla, iluminada por luzes de emergência âmbar que giravam lentamente.

Gabo se levantou, ofegante, segurando o braço sangrando. Valéria estava checando o pulso de Rangel. Aria estava parada no centro da sala, olhando para cima com uma expressão de êxtase infantil.

— Olha, Gabo — disse a IA, apontando. — Estamos nas entranhas.

Acima deles, gigantescos pistões de latão e cromo moviam-se em um ritmo hipnótico, bombeando algo viscoso através de tubos transparentes. O som era o de um coração titânico batendo. Thump-thump. Thump-thump.

Eles não estavam mais nos esgotos. Estavam na infraestrutura primária da cidade. O verdadeiro ventre da besta.

— O que é isso? — Valéria perguntou, limpando o lodo do rosto.

— Uma estação de bombeamento — Gabo disse, rasgando um pedaço da camisa para estancar o braço. — Mas não de água.

Ele se aproximou de um dos tubos. O líquido dentro não era esgoto. Era vermelho escuro, denso.

Sangue. Ou algo muito parecido, sintético, nutriente.

— É o sistema circulatório — Aria sussurrou, sua voz voltando ao tom metálico por um segundo, antes de reverter para Bia. — A cidade está se alimentando, Gabo. E nós somos os vírus na corrente sanguínea.

Gabo olhou para o túnel escuro à frente, onde o zumbido era mais forte. Eles tinham escapado dos cães, mas tinham caído na boca do dono.

— Vamos continuar — ele disse, recarregando a última bala na Caronte. — Antes que os anticorpos cheguem.