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Capítulo 38: A Ressaca

Amanheceu, mas o sol não apareceu. O "Smog" ainda cobria a cidade, agora mais denso porque os filtros de ar das torres corporativas estavam desligados. A luz era cinzenta, difusa, doente.

Gabo estava sentado nos degraus da entrada da delegacia, limpando a fuligem da escopeta. O cheiro de cordite e pneus queimados impregnava o ar.

Dentro da delegacia, a euforia da vitória tinha dado lugar a algo mais sombrio.

Gabo entrou no saguão. A cena era um hospital de campanha para almas. Policiais durões, que enfrentaram tiros sem piscar, agora estavam encolhidos em posição fetal. Um oficial arranhava o próprio antebraço onde ficava o plugin neural, a pele em carne viva. Outro gritava com uma tela desligada, implorando por uma atualização de feed que nunca viria. O silêncio digital não era paz; era tortura.

— O que há com eles? — perguntou Elena, que distribuía garrafas de água.

— Abstinência — disse Valéria, surgindo da sombra. Ela tinha olheiras profundas e parecia pálida. — O cérebro deles viciou na dopamina constante das notificações, dos feeds de dados, da conexão neural. Sem isso... é como tirar heroína de um viciado de longa data. Ansiedade, paranoia, tremores, náusea física.

— Você está bem? — perguntou Gabo.

— Eu sou analógica por necessidade, lembra? Fui cortada da Rede anos atrás. — Ela tocou o implante queimado no rosto. — Mas eles... eles estão perdidos. O silêncio dentro da cabeça deles é ensurdecedor.

Jonas Vilar se aproximou. Ele parecia ter envelhecido dez anos, mas não tremia. O medo real da morte na noite anterior parecia tê-lo curado temporariamente do vício digital. Ou talvez fosse apenas o instinto de sobrevivência.

— Sobrevivemos — disse Jonas, a voz rouca. — O Sindicato recuou para a Zona Industrial.

— Por enquanto — disse Gabo. — Eles vão voltar quando a fome apertar. Precisamos consolidar. Jonas, quero acesso aos arquivos físicos. Papel. Tudo o que vocês tiverem sobre o Projeto Lázaro e a Dra. Vance.

— A maioria foi digitalizada e apagada quando a Aeterna comprou o departamento — disse Jonas.

— Nem tudo — disse Gabo. — O arquivo morto no porão. Ninguém mexe lá há décadas. A burocracia antiga.

Ele foi até a escada que levava ao subsolo, mancando forte.

— Vamos cavar os fantasmas de papel. Se não podemos usar a internet para derrubar a Vance, vamos usar a verdade impressa.