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Capítulo 107: O Teorema da Chuva
Subsolo da Delegacia da Biblioteca
A dor não era vermelha, como Gabo costumava descrever. Era branca. Um branco cegante, asséptico, como a luz da lâmpada halógena que Dante segurava sobre a perna dele.
— O tecido humano é um design lamentável — disse Dante. Sua voz não tinha inflexão. Era a leitura de um diagnóstico. — Frágil. Inconsistente.
Gabo trincou os dentes, segurando o grito na garganta enquanto a furadeira industrial gemia contra o osso. Sua mão direita buscou instintivamente o bolso interno, onde seus dedos se fecharam ao redor do "Colar de Sol" de Helena. O metal frio do pingente era sua única âncora na realidade.
Ele estava deitado em uma bancada de trabalho suja de graxa no subsolo. Dante estava "reparando" sua órtese, mas não com a tecnologia limpa da Aeterna. Ali, na escuridão do mundo real, ele usava o que tinha: sucata.
Sem anestesia.
— Você podia... parar de furar... — arfou Gabo, suando frio.
— A integridade estrutural exige fixação profunda, Gabriel — respondeu Dante, apertando um parafuso oxidado com força desumana. O cheiro de metal lixado e sangue encheu o ar. — Meus recursos físicos são limitados aqui. Tive que improvisar com pistões de uma prensa hidráulica quebrada e chapas de aço do revestimento da caldeira.
Dante parou. Ele olhou para Gabo. Seus olhos, antes tão cheios da fúria justa do velho Comissário, agora eram poços de lógica pura, analisando o trabalho grosseiro.
— Pronto. Levante-se.
Gabo hesitou. A perna parecia uma âncora de navio. Ele desceu da mesa. Quando o pé tocou o chão, o som foi pesado. Clank.
Ele deu um passo. O servomotor recuperado gemeu alto, um som de protesto mecânico. O movimento foi brusco, forte, mas sem qualquer graça.
— Eficiência motora restaurada aos parâmetros mínimos — informou Dante, limpando graxa das mãos em um trapo velho. — É feio. É barulhento. É ineficiente. Uma ofensa à engenharia.
Gabo olhou para a perna. Era um amontoado de ferro e fios expostos, cicatrizes de solda bruta marcando a superfície. Uma obra de chaveiro, não de cientista.
— Funciona — disse ele, sentindo o peso familiar do metal ruim. — Eu prefiro assim. Agora, sobre o "Silêncio".
Dante caminhou até o mapa holográfico projetado na mesa central. A mancha negra sobre a Zona Portuária pulsava.
— A cidade é uma equação, Gabriel. Cada cidadão, cada watt de energia, cada gota de chuva é uma variável. Quando o sistema está equilibrado, a ordem prevalece.
Ele apontou para o porto.
— Aquilo é uma divisão por zero. Uma área onde meus sensores não entram. Onde a lógica falha.
— Talvez seja apenas gente tentando se esconder — sugeriu Gabo. — Gente com medo de você.
— O medo é calculável. O que está lá não é medo. É... nulidade. — Dante estreitou os olhos. — Detectei padrões de interferência. Alguém construiu uma Jaula de Faraday em escala urbana. Eles estão bloqueando a "Voz da Cidade". E o que não pode ser monitorado, não pode ser controlado.
Dante virou-se para a porta.
— Rangel, prepare o transporte. Vamos iniciar o Protocolo de Sanitização.
Em Trânsito - Viatura Blindada "Rinoceronte"
O interior do blindado cheirava a suor velho, óleo diesel e medo. Não havia janelas, apenas telas táticas que mostravam a chuva varrendo as ruas vazias lá fora.
O veículo sacudia violentamente a cada buraco no asfalto degradado da Zona Industrial. Gabo estava sentado no banco de metal, segurando o rifle entre os joelhos. Sua perna nova pulsava com uma dor surda, rítmica, sincronizada com a vibração do motor.
Ele olhou para Dante.
O Comissário estava sentado em frente a ele, imóvel. Enquanto Gabo balançava com o movimento do veículo, Dante permanecia perfeitamente estático, seu corpo compensando cada solavanco com microajustes imperceptíveis. Ele nem piscava.
— Você não sente? — perguntou Gabo, tentando quebrar o silêncio opressivo.
— O quê? — Dante não moveu a cabeça.
— O cheiro. A vibração. O desconforto.
— Eu registro os dados sensoriais — respondeu Dante. — Mas não atribuo valor emocional a eles. O desconforto é apenas um sinal de que o ambiente é subótimo.
Gabo riu, um som seco. Ele tirou um cantil amassado do bolso e tomou um gole de água morna. Sua garganta estava seca.
— É isso que nos separa, pai. Você quer otimizar o mundo. Eu só estou tentando sobreviver a ele.
— A sobrevivência é o nível mais baixo de existência, Gabriel. É o instinto do animal. Eu ofereço evolução.
— Você oferece correntes.
O veículo freou bruscamente. Pneus cantaram no asfalto molhado.
— Estamos chegando ao perímetro — anunciou a voz de Rangel pelo intercomunicador. — A partir daqui, estamos cegos. Os drones perderam o link.
Gabo olhou para a tela tática. A imagem estava cheia de estática, chuviscos digitais engolindo o mapa. Eles estavam entrando na zona morta.
A porta traseira do blindado se abriu com um silvo hidráulico.
O ar frio e úmido entrou, trazendo o cheiro do mar e de lixo queimado. A chuva caía pesada, tamborilando no teto de metal.
Dante se levantou.
— Mantenha-se atrás de mim — disse ele. — Suas reações biológicas são lentas.
Gabo engatilhou a arma, a dor na perna gritando quando ele pisou no asfalto.
— Vamos logo com isso. Antes que eu desista e te dê um tiro nas costas.
— A probabilidade de você fazer isso é de 12.4% — disse Dante, descendo a rampa. — E a probabilidade de sucesso é zero.
Eles avançaram para a escuridão do porto.
Zona Portuária - O Ninho da Aranha
A chuva caía diferente ali. Não batia no chão com força; parecia ser absorvida pelo ar antes de tocar o concreto.
Elena estava sentada na borda de um contêiner empilhado, observando o horizonte. Abaixo dela, centenas de pessoas se amontoavam em um acampamento improvisado. Eram os "Desconectados", os párias, os hackers que fugiram da purga, as famílias que perderam tudo.
Mas ali, eles estavam seguros.
Elena estendeu a mão. O ar ao redor dela vibrou.
Ela havia tecido uma teia invisível. Usando os cabos de alta tensão abandonados e geradores de pulso eletromagnético roubados, a célula dos Desconectados criou uma cúpula de "silêncio digital". Nenhum sinal de rádio entrava. Nenhuma câmera funcionava. Para o mundo lá fora, aquele quilômetro quadrado simplesmente não existia.
— Eles estão vindo — disse uma voz atrás dela.
Era um dos vigias do cais, encapuzado e encharcado.
— Eu sei — respondeu Elena, sem se virar. — O Algoritmo não tolera o desconhecido.
— Podemos lutar? — perguntou o vigia.
Elena olhou para ele, o olhar duro como a chuva que caía sobre o ferro.
— Dante traz a tempestade. Ele traz a lógica fria de uma máquina que acha que é um deus. — Elena se levantou. O vento puxou seu capuz. — Nós não vamos lutar com balas. Vamos lutar com a única coisa que ele não consegue calcular.
— O quê?
Elena sorriu. Um sorriso triste, de quem sabe o preço do que está por vir.
— O erro humano.
No horizonte, as luzes dos faróis do Rinoceronte surgiram como olhos de um monstro na neblina, cortando a chuva em direção ao porto.
A Linha de Corte havia sido traçada.
