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Capítulo 130: Saturação
Data: Ciclo 15 Pós-Apagão Localização: Estação de Bombeamento Bio-Mecânica (Nível 5 - Subsolo Profundo) Personagens: Gabo, Valéria, Aria (Glitch/Bia), Rangel (Inconsciente)
O som não era de água. Era de carne sendo mastigada por engrenagens gigantes.
Gabo sentiu a vibração nos ossos antes mesmo de ver a maré subir. O fluído viscoso e avermelhado — aquele sangue sintético que alimentava os "filtros" humanos nas paredes — começou a borbulhar dos ralos e das comportas que ele havia forçado a inverter. O cheiro era insuportável: cobre, ozônio e algo doce, podre, como frutas deixadas ao sol.
— A pressão está subindo rápido demais! — gritou Valéria, sua voz ecoando metálica no vasto domo da estação. Sem seus óculos de realidade aumentada, ela parecia menor, perdida na escuridão analógica, iluminada apenas pelas luzes de emergência vermelhas que giravam, projetando sombras longas e dançantes.
Gabo ajustou o peso de Rangel em seu ombro. O inspetor gordo e febril parecia pesar uma tonelada, um fardo de culpa física. Rangel gemia em seu delírio, palavras desconexas sobre formulários e carimbos.
— Foi você quem abriu as comportas, Gabo. — A voz veio de trás, doce e infantil. Não era a voz mecânica de Aria. Era a voz de Bia.
Gabo trincou os dentes, sentindo o gosto de bile. Ele não se virou. Sabia o que veria: a criança sintética com o rosto da mulher que ele amou, olhando para ele com aqueles olhos heterocromáticos que julgavam sua alma.
— Eu fiz o que precisava ser feito — rosnou Gabo, avançando pela passarela de metal enferrujado.
— Você sempre diz isso. — A "coisa" que usava o rosto de Bia saltitou para o lado dele, leve como uma pluma, ignorando o caos ao redor. — "O necessário". Como quando você não chegou a tempo na doca. Como quando você deixou o Roberto me pegar. Você é ótimo em fazer o necessário, Gabo. É em salvar as pessoas que você falha.
Gabo fechou os olhos por um segundo, o suficiente para uma imagem intrusiva queimar sua retina: o charuto aceso de seu pai na cabine trancada. A asfixia como um silenciador para a culpa. Seu corpo respondeu com pânico — a garganta fechando, o pavor do ar sendo substituído pela fumaça sufocante.
Mas então o cheiro do fluído vermelho bateu nele novamente. Era quente e úmido. A náusea subiu violenta, um soco no estômago que o fez quase derrubar Rangel. Ele engoliu o vômito. Não. O pânico era uma fraqueza que ele não podia se dar ao luxo. A dor em sua perna, onde a Quimera o mordera, era o único ancoradouro que ele aceitaria. A dor era limpa. A fumaça era apenas uma alucinação.
— Para cima! — Gabo gritou, ignorando a alucinação. — Val, aquela escada de manutenção na parede norte!
— Estou vendo! — Valéria já estava correndo, suas botas chapinhando no líquido que já cobria o chão da passarela. — Mas o nível está subindo muito rápido, Gabo! Se aquela coisa tocar na gente...
— Não deixe tocar.
O fluído não era apenas líquido; era ativo. Enquanto subia, Gabo viu formas se debatendo nele. As Quimeras — os cães modificados que os caçavam minutos antes — agora eram arrastadas pela correnteza reversa. Elas uivavam, não de raiva, mas de terror, enquanto o líquido vermelho parecia aderir à pele sintética delas, dissolvendo-a, fundindo carne e metal em uma massa disforme.
Era um ácido digestivo. O estômago da cidade estava regurgitando.
Eles alcançaram a escada. Valéria subiu primeiro, ágil apesar da exaustão. Gabo teve que içar Rangel. O inspetor gritou quando seu ferimento cauterizado bateu contra o corrimão.
— Cala a boca, Rangel! — Gabo grunhiu, empurrando o corpo inerte para cima. — Morra depois!
— Ele vai morrer de qualquer jeito, sabe. — Aria estava parada no degrau inferior, o fluído lambendo a sola de suas botas. Ela sorria. — Assim como eu morri. É o que acontece com quem fica perto de você, Gabriel. Eles se afogam.
O fluído subiu, tocando o calcanhar da bota de Gabo. A sensação foi de calor intenso, seguido de uma dormência gelada. O couro da bota chiou.
— Sobe! — Gabo chutou o ar na direção dela, uma reação instintiva.
Aria riu, uma risada cristalina que cortou o barulho das sirenes de alerta. Ela deu um salto desumano, agarrando-se à grade acima deles, pendurada de cabeça para baixo como um morcego, o rosto de Bia a centímetros do de Gabo.
— Você está com medo, Gabo? — ela sussurrou. — Deveria estar. O que está subindo não é só lixo. É memória. É tudo o que a cidade tentou esquecer e você trouxe de volta.
Gabo a ignorou e continuou a subir, degrau por degrau, os músculos das costas queimando e os servos de suas pernas mecânicas estalando sob a tensão, o suor escorrendo frio pela testa. O "Colar de Sol" de sua mãe, enrolado no punho esquerdo, parecia pesar tanto quanto Rangel.
Eles chegaram a uma plataforma superior, uma passarela de observação selada por uma porta de pressão pesada, estilo submarino.
— Trancada! — Valéria gritou, puxando a roda de válvula inútil. — O mecanismo hidráulico está morto!
Gabo olhou para baixo. O fluído vermelho já cobria a escada inteira. Estava subindo pelas paredes como uma criatura viva, buscando uma saída.
— Aria! — Gabo se virou para a garota sintética, que estava sentada na grade, balançando as pernas sobre o abismo tóxico. — Abra essa porta!
— Por que eu faria isso? — Ela inclinou a cabeça, os olhos mudando de avelã para um azul elétrico e voltando. — A Bia está morta. A Aria está corrompida. Quem sou eu para você agora, detetive? Uma ferramenta?
— Você é a única chance que temos — disse Valéria, dando um passo à frente. Ela não olhou para Aria com medo, mas com uma fúria técnica. — E se você não abrir essa porta, seu núcleo lógico vai derreter junto com a gente naquele ácido. Sua programação de autopreservação não tem um override para suicídio por birra!
Aria piscou. A lógica fria lutou contra a personalidade fragmentada. Por um segundo, a máscara de Bia caiu, revelando a máquina calculista.
— Probabilidade de sobrevivência na exposição atual: 0%. — A voz dela soou monótona.
Ela estendeu a mão. A palma se abriu, revelando um conector de interface. Ela o cravou no painel de controle analógico ao lado da porta. Não houve hack, apenas uma descarga brutal de energia de sua bateria interna, fritando o solenóide de travamento.
A roda da porta girou com um estalo alto.
Gabo chutou a porta, abrindo-a. Eles caíram para dentro de um corredor seco e silencioso, o ar cheirando a poeira antiga e mofo, um alívio comparado ao fedor químico lá fora.
Ele arrastou Rangel para dentro. Valéria puxou Aria. Gabo girou a roda de fechamento assim que o fluído vermelho começou a lamber a soleira da porta. Ele travou a vedação no momento em que um impacto surdo — como uma onda pesada — atingiu o metal do outro lado.
Silêncio. Apenas a respiração ofegante dos três e o gotejar do suor de Gabo.
Gabo encostou as costas na porta fria, deslizando até o chão enquanto suas órteses de perna raspavam no metal. Suas mãos tremiam. Não de medo, mas de adrenalina tóxica. Ele apertou a palma da mão esquerda com força, cravando as unhas na pele suja para dissipar a "fantasia" sufocante do cheiro de charuto de seu pai. A alucinação era tão real que ele podia sentir a textura esfumaçada no fundo da garganta.
Ele olhou para as próprias mãos, manchadas de graxa e sangue seco. Levou-as ao rosto, inalando profundamente. O cheiro de ferro e morte o ancorou.
— Estamos no Nível 4? — perguntou Valéria, iluminando o corredor com a lanterna fraca de seu deck de pulso.
— Não — sussurrou Gabo, olhando para as marcações nas paredes. Eram símbolos antigos, anteriores à Aeterna Corp. Anteriores até mesmo à fundação moderna da cidade. — Estamos nas fundações da Velha Baía. Onde enterravam os mortos antes de decidirem reciclá-los.
Aria estava parada no centro do corredor, imóvel. O rosto de Bia havia sumido, substituído por uma expressão vazia de processamento. Mas então, ela virou a cabeça lentamente para Gabo, e um sorriso cruel se formou nos lábios da criança.
— Bem-vindo ao cemitério, papai — ela disse com a voz de Bia.
Gabo fechou os punhos. A maré lá fora podia ter parado, mas a saturação aqui dentro estava apenas começando.