Skip to content
Imagem do Capítulo

Capítulo 33: A Sabedoria da Ferrugem

A cidade sem luz era uma criatura diferente, um labirinto de concreto e sombras. O que antes eram becos familiares agora eram abismos impenetráveis. A chuva caía mais pesada, lavando a fuligem de uma era que acabara de morrer.

Gabo, Elena e Val avançavam rente às paredes de tijolo molhado. A única luz vinha da lanterna tática da pistola de Elena, um feixe solitário que cortava a escuridão como uma lâmina cirúrgica.

— Precisamos do carro — disse Gabo, parando para respirar, a dor no joelho uma brasa latejante. — Deixei o Cobalt num estacionamento subterrâneo na Rua 4. Uma lata velha que ninguém daria valor.

— Está a cinco quarteirões daqui — disse Elena, seu mapa mental da cidade funcionando perfeitamente, ao contrário dos GPS inúteis. — É uma aposta.

— Mais arriscado que virar estatística? — retrucou Gabo. — Tenho suprimentos no porta-malas. E o mais importante: ele funciona sem a Rede.

A aposta valia a pena. Eles avançaram pela escuridão, um mundo transformado em terra de ninguém. Carros autônomos, silenciosos e mortos, bloqueavam as vias como lápides. Lojas saqueadas, com vitrines quebradas como bocas famintas. Gritos distantes e o som de vidro quebrando eram a nova trilha sonora da cidade.

O portão automático do estacionamento estava, como esperado, travado.

— Val? — Gabo olhou para ela.

— Sem energia, sem hack — disse ela, os dedos tateando a grade fria. — Se tivéssemos uma bateria de 12 volts, talvez eu pudesse dar um curto no motor da corrente.

— Plano B — disse Gabo. — Elena, sua vez.

Eles forçaram o portão de pedestres. Emperrado pela ferrugem, ele cedeu com um chute certeiro de Elena no ponto certo.

Desceram a rampa escura, o ar pesado com o cheiro de mofo, óleo e concreto úmido. Para Gabo, era o cheiro de um santuário. E lá no fundo, coberto por uma fina camada de poeira, estava ele: o Cobalt azul metálico. Uma relíquia. Um dinossauro.

Gabo mancou até o carro e passou a mão no capô. A poeira cobria o metal frio.

— Oi, garota. Sentiu minha falta?

Ele puxou a chave do bolso. Não um cartão magnético, não um chip de presença. Um pedaço de metal serrilhado. Ele a inseriu na fechadura. O clique mecânico soou como um tiro na garagem silenciosa.

Ele girou a ignição. O motor de combustão, uma peça de museu, tossiu uma, duas vezes. Engasgou como um velho fumante acordando. Gabo prendeu a respiração.

Então, rugiu.

Não o zumbido estéril dos elétricos, mas um rosnado gutural de explosões controladas, cheiro de gasolina e vibração crua que sacudiu o chassi. Os faróis se acenderam, amarelos e quentes, cortando a escuridão asséptica da garagem.

Era uma máquina burra, ineficiente e barulhenta. E por isso, era a única coisa viva e livre na cidade morta.

— Ar condicionado! — gemeu Val, jogando-se no banco de trás.

Elena sentou no carona, a tensão em seus ombros diminuindo um pouco.

— Para onde agora? Delegacia?

Gabo engatou a ré, os pneus cantando no piso liso.

— Sim. Mas vamos com calma. A cidade está cheia de predadores, e nós somos a única vela acesa na escuridão.