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Capítulo 59: A Fundação
Subsolo do Distrito da Névoa
A dica de Isadora sobre a "reurbanização" tinha levado Gabo e Aria para o subsolo. Não os esgotos comuns, mas as antigas galerias de manutenção do metrô, lugares que nem os mapas oficiais mostravam.
O ar ali embaixo era quente. Anormalmente quente. O calor parecia irradiar nas dores fantasmas de suas pernas mutiladas, mas o som mecânico de suas pesadas órteses servia como âncora de realidade a cada passo arrastado.
— Estamos perto — sussurrou Gabo, limpando o suor da testa.
Aria parou de repente. Ela segurou a manga do casaco de Gabo e puxou.
— O que foi?
Ela apontou para o chão. A água lamacenta que cobria as botas deles vibrava. Um zumbido baixo, constante, reverberava pelas paredes de concreto.
Gabo se ajoelhou com dificuldade, os servos de suas órteses de perna protestando com um zumbido grave enquanto ele tocava o chão. A vibração era rítmica. Maquinário pesado.
Eles avançaram com cuidado até chegarem a uma grade de ventilação que dava para um enorme fosso subterrâneo. O que Gabo viu fez seu sangue gelar.
Não era uma fundação de prédio.
Onde antes havia favelas e túneis de drenagem, agora havia um vasto complexo de servidores. Torres negras de processamento de dados, com centenas de metros de altura, erguiam-se no escuro, iluminadas apenas por LEDs azuis pulsantes.
A água da enchente... ela não estava ali por acidente.
Enormes tubulações bombeavam a água imunda da cidade para dentro do complexo, usando-a para resfriar os supercomputadores. A "enchente" que destruiu as casas dos pobres estava sendo usada como sistema de refrigeração para o novo empreendimento de Marco Moretti.
— Meu Deus... — Gabo sussurrou. — Eles não estão construindo casas. Estão construindo uma fazenda de dados.
Aria se aproximou da grade. Seus olhos heterocromáticos — um azul elétrico e outro dourado — se arregalaram. Ela largou a mão de Gabo e pressionou as palmas contra o metal frio da grade.
— Eles... gritam... — Uma voz sussurrada ecoou na mente de Gabo. Não era som, era pensamento. Aria estava projetando.
— Quem grita, Aria?
A menina apontou para as torres de servidores.
— As pessoas.
Gabo usou o zoom de sua câmera tática. Ele focou nas luzes piscantes dos servidores. Cada luz tinha uma etiqueta digital minúscula. Ele aumentou a imagem até conseguir ler.
Não eram números de série. Eram nomes.
João Silva. Maria Santos. Pedro Alvarez...
Gabo recuou, sentindo náusea.
O "Consórcio Lázaro" não estava apenas vendendo imóveis. Eles estavam vendendo imortalidade digital. Mas para criar espaço nos servidores para os ricos pagantes, eles precisavam de infraestrutura. E a infraestrutura estava sendo construída sobre os cadáveres da cidade baixa.
Ou pior... será que os nomes nos servidores eram de pessoas que foram "uploadadas" contra a vontade?
— Temos que sair daqui — disse Gabo, puxando Aria. — Temos que contar isso para... para alguém.
Mas para quem? Vilar estava comprometido. A imprensa estava comprada. Elena estava longe.
Um som metálico atrás deles fez Gabo girar.
Três sombras emergiram da escuridão do túnel. Não eram robôs. Eram humanos. Mercenários usando armaduras táticas e óculos de visão noturna. No peito, o emblema de um crânio estilizado dentro de um chip.
— Inspetor Moretti — disse o líder, a voz distorcida por um modulador. — Você está invadindo propriedade privada corporativa. O contrato de rescisão da sua vida acaba de ser ativado.
Gabo empurrou Aria para trás dele e sacou a Glock.
— Eu não assinei nada — respondeu ele, e abriu fogo.
