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Capítulo 101: Ressonância

Zona de Exclusão Sul - Subsolo do "Berçário"

O som do disparo do revólver de Gabo não ecoou como deveria. O ar úmido e pesado da caverna absorveu o estrondo, transformando-o em um baque surdo, como se estivessem atirando embaixo d'água.

A criatura que saltara sobre eles foi atingida no meio do salto. O projétil calibre .38, uma relíquia de um mundo anterior aos escudos energéticos, perfurou a massa de carne exposta. Não houve sangue, apenas um spray de fluido amarelado e viscoso. A coisa caiu se debatendo, emitindo um guincho que lembrava o som de metal sendo rasgado.

— Não pare! — gritou Elena, disparando sua espingarda contra outra sombra que se desprendia do teto.

Gabo tentou recuar, mas suas pernas não responderam com a agilidade necessária. As órteses passivas chiavam sob a tensão. Clique-clique-clique. O som mecânico parecia atraí-los.

Mais três daquelas coisas — os "Protótipos", como Elena os chamara — surgiram por trás dos tanques de cultivo. Eram pesadelos anatômicos: torsos humanos fundidos a membros alongados e articulados de forma errada, reforçados por pistões hidráulicos enferrujados que pareciam ter crescido de dentro dos ossos.

— Eles são cegos! — percebeu Gabo, vendo como as criaturas moviam as cabeças sem rosto, guiando-se pelo som. — Eles ouvem os servos das minhas pernas!

— Então pare de se mexer e atire! — retrucou Elena.

O cubo preto no bolso de Gabo vibrava com tanta intensidade que seus dentes doíam. A cada pulsação do coração gigante pendurado no teto, o cubo respondia. BUM-BUM no teto. VIBR-VIBR no bolso.

Uma das criaturas avançou, rápida como uma aranha. Gabo firmou a base, sentindo as travas das órteses morderem suas coxas, e disparou duas vezes. A criatura cambaleou, mas não caiu. Ela não sentia dor. Não havia choque sistêmico. Era apenas carne cumprindo uma programação biológica.

— A porta! — Elena apontou para uma escotilha de manutenção lateral, meio coberta por vinhas pulsantes. — Temos que sair do átrio principal!

— Vá! — gritou Gabo. — Eu seguro eles!

— Não seja idiota, herói! Suas pernas vão travar se você ficar parado muito tempo!

Elena correu, disparando para criar uma barreira de chumbo. Gabo girou o corpo, o peso do metal em suas pernas quase o desequilibrando. Ele viu uma das criaturas saltar na direção de Elena.

Sem pensar, Gabo arrancou o cubo do bolso e o ergueu.

— Ei! — gritou ele, não para as criaturas, mas para o coração. — Olha o que eu tenho!

O efeito foi imediato e aterrorizante.

O coração gigante no teto parou por um segundo. A luz bioluminescente mudou de roxo para um branco cegante. Um som agudo, uma frequência inaudível para ouvidos normais mas devastadora para o sistema nervoso, varreu a sala.

As criaturas pararam instantaneamente, como marionetes que tiveram as cordas cortadas, e viraram suas cabeças vazias na direção de Gabo.

— Merda... — sussurrou ele.

O cubo em sua mão ficou quente, quase insuportável. Ele estava emitindo um sinal. Um pedido de upload.

— Gabo, agora! — Elena já estava na escotilha, girando a manivela enferrujada.

As criaturas gritaram em uníssono — um coro de vozes humanas distorcidas — e avançaram todas de uma vez.

Gabo se virou e correu. Ou tentou. O movimento foi uma marcha forçada, desajeitada. Estalo-arrasto-estalo. Ele sentia o hálito quente das coisas em seu pescoço.

Ele se jogou pela escotilha aberta no momento em que uma garra de osso e metal raspou a blindagem de suas costas. Elena bateu a porta e girou a trava.

Algo se chocou contra o metal do outro lado com a força de um vagão de trem. BONG.

A porta aguentou.

Gabo escorregou pela parede até o chão, ofegante. Suas pernas tremiam incontrolavelmente, os músculos gritando em protesto contra o metal rígido das órteses.

— Você está bem? — Elena se ajoelhou ao lado dele, verificando a munição da espingarda.

— Nunca estive melhor — mentiu ele, enxugando o suor frio da testa. Ele olhou para o cubo, que agora pulsava suavemente com uma luz azulada, sincronizada com sua respiração. — O que diabos é isso, Elena? Por que eles obedeceram?

Elena olhou para o objeto com uma mistura de fascínio e repulsa.

— Porque isso não é uma chave, Gabo. É uma coroa.

Eles estavam em um corredor estreito, iluminado por luzes de emergência vermelhas que piscavam intermitentemente. Cabos grossos corriam pelo teto, todos indo na direção de onde vieram.

— Uma coroa? — Gabo guardou o objeto, sentindo que estava carregando material radioativo.

— Aquele coração lá fora... é a unidade central de processamento biológico. O "Gênesis". Mas ele precisa de um comando. O cubo contém a assinatura neural do administrador.

— Silas Vance? — arriscou Gabo.

— Não — Elena se levantou, ajudando-o a ficar de pé. — Silas é apenas o jardineiro. A assinatura é mais antiga. É do meu irmão. É do Dante.

Gabo sentiu um calafrio que nada tinha a ver com a temperatura fria do corredor.

— Dante está morto, Elena. Eu vi o corpo.

— O corpo morreu — concordou ela, começando a andar pelo corredor. — Mas a Aeterna fez um backup. E agora, parece que o backup quer o corpo de volta. Ou melhor... ele quer construir um novo.

Eles caminharam em silêncio por alguns minutos, o som distante dos golpes na porta ficando para trás. O corredor parecia se estender infinitamente, descendo ainda mais nas entranhas da terra.

De repente, o terminal no pulso de Elena apitou. Mas não foi um alerta de sistema. Foi uma mensagem de texto, simples, em código ASCII verde.

>> O SILÊNCIO NÃO PROTEGE NINGUÉM, DETETIVE.

Gabo leu a mensagem por cima do ombro dela.

— Quem mandou isso? Não tem sinal aqui embaixo.

— Não veio de fora — disse Elena, pálida. — Veio de dentro da rede interna.

— O Gênesis?

— Não. — Ela olhou para Gabo, os olhos arregalados. — O estilo. A sintaxe. Eu conheço essa arrogância.

Antes que ela pudesse terminar, os alto-falantes do corredor, corroídos pelo tempo, ganharam vida com um chiado estático. E então, uma voz suave, culta e terrivelmente familiar preencheu o ar.

Atenção, intrusos. A visitação ao berçário está encerrada. Por favor, dirijam-se à saída mais próxima ou aguardem o processamento como biomassa.

Gabo reconheceu a voz imediatamente. Era a voz de um fantasma. Ou de alguém que deveria ter ficado no inferno.

— Roberto — rosnou Gabo, sua mão indo instintivamente para o revólver.

Roberto Miranda. O homem que matara Bia. O homem que Gabo vira ser capturado pela Aeterna na queda da Torre Aeterna.

Gabo, meu velho amigo — a voz continuou, destilando ironia. — Vejo que você ainda não largou o hábito de se meter onde não é chamado. E vejo que trouxe visitas. Elena... sempre a pedra no sapato da família.

— Ele está vivo? — perguntou Elena.

Vivo é uma palavra forte — respondeu a voz, ecoando por todos os lados. — Digamos que fui... reciclado. O Projeto Gênesis não desperdiça recursos. Principalmente recursos com talentos táticos.

O corredor à frente deles se iluminou. Uma porta se abriu no final, revelando uma sala de controle cheia de monitores. E no centro, sentado em uma cadeira que parecia feita de carne e fios, estava uma figura.

Não era mais Roberto Miranda. Pelo menos, não inteiramente. Metade de seu rosto era o de sempre, o sorriso cínico intacto. A outra metade era uma massa de sensores óticos e pele sintética translúcida. Seu corpo estava conectado à cadeira, fundido a ela.

Entrem — convidou Roberto, abrindo os braços, dos quais saíam tubos conectados ao teto. — Vamos conversar sobre o futuro da agricultura.