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Capítulo 225: O Charuto na Sala Limpa
Carregar quatro toneladas de papel leva dezenove horas quando você tem três pessoas, e uma não anda, e a outra está morrendo em pé.
Eu fiz o que pude. Empurrava caixa com o ombro bom, arrastava lata de fita com a garra, sentava quando o mundo escurecia nas bordas e levantava quando parava de escurecer. Elias fez o trabalho de dois homens e não reclamou uma vez sequer, o que, no caso dele, era um tipo de milagre. A Vance dirigia o carregamento da cadeira de aço, e ela conhecia aquele arquivo com uma intimidade obscena: sabia qual gaveta continha o quê, em que ordem empilhar, o que podia molhar e o que não podia.
Valéria carregou o resto. Sozinha. Sem pausa, sem ofegar, indo e voltando pelo corredor branco com trezentos quilos por vez, com aquele andar pendular perfeito, hora após hora após hora.
Na décima sétima hora eu a vi parar na antecâmara hexagonal, no escuro âmbar, sem carga nenhuma nos braços.
Ela estava lendo a placa fundida.
"A memória não apodrece."
Ficou lá uns dez segundos. Depois pegou a próxima caixa e continuou.
A serra foi na vigésima hora.
Não vou escrever sobre isso.
Vou escrever que Valéria trabalhou rápido, que ela não hesitou uma vez, e que quando terminou de cauterizar ela pousou a mão no meu peito e esperou eu respirar três vezes antes de tirar. Vou escrever que o Elias segurou a minha cabeça e ficou falando merda no meu ouvido a viagem inteira — sobre um cachorro que ele teve, sobre uma namorada em Setor 9, sobre nada — porque ele entendeu, sem que ninguém explicasse, que eu precisava de uma voz humana ali e que ele era a única disponível.
Vou escrever que a Dra. Elara Vance virou o rosto. Sessenta e um anos auditando o horror, e ela virou o rosto.
E vou escrever que doeu. Doeu de um jeito que não tem palavra em português, e eu estava consciente para tudo, porque o anestésico tinha quarenta e um anos e doze por cento de eficácia e eu tinha mandado guardar para quem precisasse.
Faltando quarenta minutos, eu fui até a comporta.
A prótese estava na bancada, desconectada de mim, com o toco do soquete ainda úmido. Uma cunha de metal cinza fosco cheia de cicatriz de solda. Do lado de fora do meu corpo, ela era menor do que eu imaginava. Uma peça de sucata. Nem parecia capaz de ter doído tanto.
Elias e Valéria a ergueram juntos e a encaixaram na abertura do came, punho em extensão máxima, exatamente como a Vance desenhou num guardanapo com a letra mais bonita que eu já vi.
Faltava travar o hidráulico.
E travar o hidráulico exigia um comando neural bruto, e comando neural bruto exigia um sistema nervoso.
O meu.
Sentei no chão frio ao lado da comporta. Valéria conectou os dois cabos que sobraram do meu soquete diretamente nos conectores da prótese. Um pedaço de mim de novo, pela última vez, pelo tempo de um pensamento.
— Quando você mandar, — ela disse, — vai queimar tudo de uma vez. Vai ser a pior dor que você já sentiu.
— Ótimo.
— Não é ótimo.
— Val. — Ela não me corrigiu. — É a última vez que essa coisa vai me fazer alguma coisa. Deixa eu ficar de mau humor.
Fechei os olhos.
E ele estava lá.
A sala limpa não tinha cheiro. Eu já falei isso. Sessenta e um anos de ar filtrado, pressão positiva, epóxi branco, zero partículas.
E, mesmo assim, a fumaça começou a subir pelo canto esquerdo da minha visão, azulada e densa, com aquele fundo doce e podre de charuto barato queimando devagar.
Meu pai estava sentado numa cadeira que não existia, do outro lado da comporta, com o chapéu no joelho e o sobretudo de couro pingando chuva num chão que estava seco.
— Chega, Gabriel.
Eu não abri os olhos. Não precisava.
— Olha o estado disso. — Ele deu uma tragada. A brasa iluminou o bigode. — Um braço. Um joelho. Sepse. Você já provou o que tinha para provar. Ninguém está contando ponto. Senta aqui.
E era essa a diferença, dessa vez.
Todas as outras vezes ele tinha vindo com desprezo. Com aquela apatia de porta de escritório trancada. Ele vinha para me lembrar de que eu era ruído de fundo, e eu batia a prótese no ferro para calar a boca dele, e a dor era mais verdadeira que a fumaça, e eu ganhava.
Agora ele estava me oferecendo descanso. E estava fazendo isso com carinho.
Era a versão mais perigosa que ele já tinha montado.
— Você não me deve nada, — a coisa com o rosto do meu pai disse, muito gentil. — Deixa a porta. Deixa o arquivo. Deixa a menina de metal, deixa o rapaz, deixa a velha do vidro. Você fez mais do que qualquer um. Descansa, filho.
E eu levei três segundos inteiros para responder, porque puta merda, eu queria.
— Você não é ele, — falei.
— Eu sou o que sobrou dele.
— Não. — Eu abri os olhos. A fumaça continuou lá; alucinação boa não desiste só porque você a encara. — Você é o que eu montei dele, com quinze anos de raiva e um cinzeiro cheio de memória de criança. Eu te construí. Eu te dei a voz, o charuto, o desprezo, tudo. Você é meu.
— Gabriel—
— O meu pai perguntou o nome da mulher que ia enterrar ele vivo. — Minha voz falhou e eu deixei falhar. — O meu pai gastou os últimos vinte segundos de fita avisando que ele tinha três filhos, e que um deles ia dar trabalho. O meu pai colaborou de propósito com a máquina para que ela saísse defeituosa o bastante para eu conseguir quebrar quinze anos depois.
Olhei bem para a coisa na cadeira.
— O meu pai passou a vida inteira trabalhando para mim numa sala onde eu não podia entrar. E você é só a fumaça que passava por baixo da porta.
Silêncio. A fumaça parou de subir.
— Eu não te odeio, — falei. — Era o que eu tinha dele. Eu agradeço. Mas eu já achei a pasta, e ela não está mais em aberto, e eu não preciso mais de você.
E, pela primeira vez em toda a minha vida adulta, o cheiro sumiu sozinho.
Sem dor. Sem eu bater em nada. Sem o Colar de Sol cortando a palma da minha mão.
Só sumiu, como fumaça faz quando alguém finalmente abre a janela.
— Agora, — eu disse.
E mandei o comando.
Foi tudo o que a Valéria prometeu e mais um pouco. Trezentos e quarenta quilogramas-força saíram de uma vez pelos meus nervos mortos, os servos gritaram num tom de metal esfolado, o came engatou com um estrondo geológico e a comporta de quatro metros travou aberta contra a mola.
A prótese do Vasco fundiu-se ali, para sempre, numa cunha de aço permanente.
Eu desmaiei. Sem elegância nenhuma.
Acordei com a Valéria me arrastando pela escotilha e o Elias gritando alguma coisa sobre pressão.
A cápsula era escura, apertada e cheirava a papel velho — quatro toneladas de nome, data e verdade empilhadas até o teto, amarradas com cinta de carga. A Dra. Vance estava presa numa das paredes com o cinto da própria cadeira. Elias segurou minha cabeça no colo. Valéria selou a escotilha com as duas mãos e girou o volante interno.
Do outro lado do aço, a Arca Zero começou a morrer.
Trinta e um quilômetros de tubo se abriram para uma instalação que passou sessenta e um anos hermética. O diferencial de pressão veio como um trovão contínuo. Em algum lugar lá atrás, o corredor branco perfeito, a galeria dos oitenta e três berços vazios, a mesa de couro rachado e a placa fundida que prometia que a memória não apodrece — tudo aquilo se enchia de vácuo e escuridão.
Nós tínhamos levado a memória embora. O caixão podia apodrecer sozinho.
A cápsula tremeu, engatou nos patins magnéticos e saltou.
A aceleração me esmagou contra o Elias e o Elias contra as caixas e alguém gritou — acho que fui eu.
E aí ficou liso.
Trinta e um quilômetros de escuridão em silêncio quase total, subindo numa inclinação suave, com quatro pessoas e sessenta e um anos de crime empilhados num projétil de aço.
Fiquei olhando para o teto da cápsula, respirando.
Foi quando eu vi, amarrado com cinta de carga na parede oposta, entre uma pilha de latas de fita e a caixa de microfilmes do ano trinta e nove:
O casco de aço acolchoado. O módulo de restauração da camada afetiva.
Ela tinha carregado aquilo. Nas dezenove horas, entre trezentos quilos de papel por viagem, ela tinha parado, ido até a enfermaria, desmontado o módulo da bancada e o trazido a bordo.
Olhei para ela.
Valéria estava sentada de frente para a escotilha traseira, com as mãos apoiadas nos joelhos, as lentes apagadas para poupar bateria. Impassível. Perfeita. Sem uma inflexão.
Ela não tinha usado o módulo.
Ela só tinha se recusado a deixá-lo para trás.
— Val, — falei.
Ela não corrigiu.
— Sim.
— Quando a gente chegar lá em cima. — Engoli. A garganta estava em carne viva. — Não precisa ser hoje. Não precisa ser esse ano.
Um tempo.
— Eu registrei o convite, — ela disse.
E foi o suficiente.
A cápsula parou vinte e dois minutos depois, com um chiado longo de pressão sendo equalizada, numa doca de recebimento que ninguém abria havia seis décadas.
Elias girou o volante da escotilha com as duas mãos e empurrou.
A porta cedeu.
E entrou luz.
Não neon. Não holograma. Não a luz doente e acobreada que a poluição deixa passar quando está de bom humor.
Luz do sol, baixa e horizontal, cor de latão velho, atravessando um galpão de tijolo arruinado na Velha Baía e batendo em quatro toneladas de papel empilhado dentro de um projétil de aço.
Elias saiu primeiro. Deu três passos no cascalho, levantou a cara para o céu e ficou lá parado, de olhos fechados, respirando um ar sujo, ácido, cheio de partícula e absolutamente livre.
Valéria desceu depois e começou imediatamente a inventariar as saídas.
Eu fiquei sentado na borda da escotilha por um tempo, com um braço só, olhando aquilo.
A Dra. Elara Vance parou a cadeira ao meu lado. Ela olhava para a luz com os olhos azul-gelo semicerrados, como quem confere um número que não batia havia muito tempo.
— E agora, inspetor? — ela perguntou. — O senhor tem sessenta e um anos de prova e nenhum tribunal onde apresentar.
Peguei o Colar de Sol do bolso com a única mão que me sobrou. O metal estava morno. As bordas do sol estilizado ainda tinham o meu sangue seco.
Enrolei a corrente no punho.
— Aí a gente constrói o tribunal, — falei.
E me levantei.