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Capítulo 48: Fantasma na Máquina
O bipe rítmico do monitor cardíaco era o único som orgânico na enfermaria improvisada montada no porão da delegacia. Era um som irritantemente constante, uma lembrança mecânica de que a vida ainda tentava persistir em meio ao caos.
Gabriel Moretti estava deitado em uma maca de campanha, o peito e o ombro enfaixados pesadamente. Uma bolsa de sangue sintético pendurada em um suporte de soro gotejava um líquido vermelho-rubi em sua veia, substituindo o que ele havia perdido na batalha do Ninho da Serpente. O ferimento era limpo, mas profundo; a Dra. Nise, que Vilar havia resgatado de um comboio médico emboscado, disse que ele teve sorte da bala não ter perfurado o pulmão.
Gabo não se sentia com sorte. Ele se sentia inútil.
— Eu deveria estar lá fora — rosnou ele, tentando se sentar. A dor correu pelo seu flanco como um choque elétrico, fazendo-o trincar os dentes.
— Fica quieto, seu Rambo de posto de gasolina — disse Valéria, sem tirar os olhos do caos holográfico que flutuava ao seu redor.
Ela estava sentada no chão frio de concreto, no centro da sala de servidores da delegacia, que agora servia de enfermaria e centro de comando. Meia dúzia de cabos de fibra óptica se espalhavam a partir de seu deck portátil, conectando-a diretamente à espinha dorsal da rede policial. O brilho azul das telas refletia em seus olhos prateados, que se moviam com velocidade REM, lendo linhas de código mais rápido do que qualquer humano normal poderia processar.
— Você não serve pra nada com um buraco no peito e metade do sangue no chão — continuou ela, os dedos voando sobre um teclado virtual projetado no ar. — Agora, a guerra é minha.
— O que você está vendo, Val? — perguntou Gabo, recostando-se e aceitando a derrota temporária.
— O hack. — A voz de Valéria estava tensa, sem o sarcasmo habitual. — Alguém está atacando a infraestrutura da cidade. Mas não é a Aeterna. A força bruta da IA corporativa nós já conhecemos; isso é diferente.
— Diferente como?
— É... cirúrgico. Artístico, até. — Ela expandiu um holograma que mostrava o mapa da rede de esgoto e energia da cidade. Luzes vermelhas piscavam em padrões complexos. — Olhe isso. Ele não está tentando derrubar o sistema. Ele está pastoreando ele. Ele redirecionou a energia dos bairros residenciais para a Zona Industrial, abriu as comportas da represa auxiliar para inundar os túneis de fuga do metrô...
Valéria parou, seus dedos congelando no ar.
— Merda. Ele está aqui.
— Quem?
— O Fantasma. — Valéria começou a digitar furiosamente. — Ele percebeu minha intrusão. Está tentando me rastrear.
— Corta a conexão! — gritou Gabo.
— Não! Se eu sair agora, ele bloqueia tudo. Eu tenho que lutar. — Suor começou a escorrer pela testa de Valéria. O brilho das telas refletia em seus olhos prateados, tingindo-os de vermelho alerta. — Ele está usando um algoritmo polimórfico. A cada segundo, o código de ataque muda. É como tentar segurar mercúrio com as mãos.
Na tela holográfica, Gabo viu uma batalha abstrata acontecendo. Linhas de código azul (Valéria) tentavam erguer barreiras, firewalls e desvios, mas uma massa de código negro e roxo (o Fantasma) corroía e contornava cada defesa, movendo-se como um vírus inteligente.
— Quem é ele, Val? Aeterna?
— Pior. — Valéria cerrou os dentes. — A assinatura... tem traços do código fonte original da cidade. Ele conhece os backdoors que foram instalados na fundação, cinquenta anos atrás. Ele está usando o sistema de ventilação dos semáforos para entrar na rede da delegacia!
— Arthur Vance — disse Gabo, o nome saindo com gosto de fel. — O Imperador. Ele não está apenas no comando da empresa. Ele é o arquiteto.
— Ele quer nos cegar — disse Valéria. — Ele está tentando apagar os registros criminais do Sindicato e, ao mesmo tempo, publicar nossa localização para todos os caçadores de recompensa da cidade.
Gabo tentou alcançar sua arma na mesa de cabeceira, instinto puro.
— Val, derruba a rede. Apaga tudo.
— Se eu fizer isso, o suporte de vida da cidade para. Os hospitais, os respiradores... tudo morre. — Valéria respirou fundo. — Eu não posso destruir. Tenho que conter.
Ela fechou os olhos. Quando os abriu, a íris prateada brilhava com intensidade máxima.
— O Leviatã disse que a maré ia subir. — Ela sorriu, um sorriso perigoso. — Eu vou construir uma barragem. Vou caçar esse fantasma e trancá-lo em uma garrafa de Klein digital.
Valéria conectou um segundo cabo diretamente na porta neural atrás de sua orelha. Seu corpo ficou rígido. Ela não estava mais digitando; ela estava dentro.
— O que você vai fazer? — perguntou Gabo, preocupado.
— Vou usar a própria arrogância dele contra ele. Ele acha que é o único predador no oceano. Ele esqueceu que eu nasci na sarjeta digital.
O monitor de Valéria começou a apitar alertas de superaquecimento. O ar na sala cheirava a ozônio.
— Vou atraí-lo para o servidor da delegacia — sussurrou ela, a voz distante. — Vou dar a ele o que ele quer: nossa localização.
— Val! — gritou Gabo.
— Espera... espera... — Ela tremia. No holograma, a mancha negra avançava vorazmente para o ponto azul que representava a delegacia. — Vem, gatinho. Vem pegar o leite.
No momento em que o código negro tocou o núcleo do servidor, Valéria gritou:
— AGORA!
Ela puxou o cabo físico com força, desconectando a delegacia da rede externa.
O silêncio caiu sobre a sala. As telas piscaram e apagaram. O zumbido dos servidores parou.
Valéria caiu para o lado, ofegante, o nariz sangrando um fio escuro.
Gabo arrancou o acesso venoso e se arrastou até ela, ignorando a dor.
— Val! Val!
Ela abriu os olhos. Estavam vermelhos, injetados de sangue, mas ela sorria. Ela levantou a mão e mostrou um pequeno drive isolado que ela havia plugado no deck no último segundo.
— Peguei ele — sussurrou ela, a voz rouca. — Ele tentou entrar, e eu cortei a ponte. Mas não antes de copiar a assinatura dele.
— Você isolou o ataque?
— Melhor. Eu capturei uma parte do fantasma. — Ela tossiu, rindo. — Temos o código fonte do Vance. Agora sabemos como ele pensa.
Gabo olhou para o pequeno drive preto na mão dela. Ali dentro estava um pedaço da alma do inimigo.
— Você é maluca — disse ele, com admiração.
— Sou — concordou ela, fechando os olhos. — E agora, preciso dormir por uns três dias. O Rambo... assume o turno.
Gabo a ajeitou no chão, cobrindo-a com um cobertor térmico. Ele olhou para o monitor cardíaco, para o sangue, para a tecnologia morta ao redor. A guerra mudara. Não era mais apenas balas e socos. Era mente contra mente. E, pela primeira vez, ele sentiu que tinham uma chance.
Ele pegou sua arma e se sentou de guarda. A general havia vencido a batalha. Cabia ao soldado garantir que ela sobrevivesse à noite.
