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Metadados
- Título: Vernissage
- Data In-Game: Pós-Colapso da Usina Prometeu (Noite Eterna)
- Localização: Necrópole (O Estúdio do Taxidermista)
- Personagens Presentes: Gabo, Valéria, Aria (Reboot), Rangel (Inconsciente), O Taxidermista (Antagonista)
- Resumo: O grupo adentra o "Estúdio", um santuário estéril no coração da Necrópole. O Taxidermista se revela não como um monstro, mas como uma figura de perfeição artificial. Ele apresenta sua "Obra-Prima" — uma rede neural viva feita de sofrimento humano refinado — e oferece a Gabo uma chance de "eternizar" sua dor. A recusa desencadeia a ativação das "Esculturas" de elite.
Narrativa
Capítulo 138: Vernissage
O contraste foi violento como um soco no estômago.
Um segundo atrás, eles estavam no corredor da Galeria, cercados pelo cheiro de carne podre e formol barato, com o chão pegajoso de sangue coagulado. Agora, ao cruzarem a porta hidráulica, o mundo se tornara branco.
Branco absoluto.
O chão era de um polímero liso e sem emendas, refletindo as luzes cirúrgicas que banhavam o ambiente com uma claridade fria, sem sombras. O ar era reciclado, filtrado à exaustão, cheirando a ozônio e antisséptico hospitalar. Aquele cheiro fez o estômago de Gabo revirar mais do que qualquer fedor de esgoto. Lembrava o hospital onde vira Bia pela última vez. Lembrava a esterilidade da morte burocrática.
Ele levou a mão ao peito, apertando o Colar de Sol através da camiseta suja. A dor das pontas de metal contra a pele foi a única coisa que o manteve focado. Isso é real. O resto é cenário.
— Temperatura ambiente: 18 graus Celsius — a voz de Aria cortou o silêncio. Ela varria o ambiente com os olhos, a íris brilhando em um azul elétrico que não piscava. — Umidade controlada em 45%. Níveis de patógenos: zero.
— É um laboratório — sussurrou Valéria, sua voz ecoando alto demais naquele espaço vazio. Ela ajeitou Rangel na maca flutuante improvisada, que deslizava suavemente sobre o piso perfeito. — Ou um centro cirúrgico.
— Não — corrigiu uma voz suave. — É um ateliê.
No centro do vasto salão branco, havia uma plataforma elevada. E sobre ela, um homem.
Ele estava de costas, trabalhando em uma mesa de aço escovado. Vestia um jaleco que parecia feito de seda sintética, imaculadamente branco. Quando se virou, Gabo sentiu um calafrio que não tinha nada a ver com a temperatura.
O Taxidermista não era o monstro deformado que Gabo esperava. Pelo contrário. Ele era perfeito.
Seu rosto tinha a simetria impossível de uma estátua grega polida por algoritmos. A pele era lisa demais, sem poros, com um brilho perolado que sugeria que não era orgânica, ou que havia sido cultivada em tanque. Seus olhos eram de um cinza líquido, calmos e terrivelmente vazios.
— Detetive Moretti — ele disse, abrindo os braços em um gesto de boas-vindas. Suas mãos eram obras de arte em si mesmas: dedos longos, articulados com precisão mecânica, terminando em pontas que poderiam ser bisturis ou pincéis. — E Srta. Cruz. Fico feliz que tenham aceitado meu convite. A crítica é parte essencial do processo criativo.
— Onde está o Dante? — Gabo rosnou, dando um passo à frente com o vergalhão em punho. A arma enferrujada parecia uma ofensa profana naquele templo de limpeza.
O Taxidermista sorriu, uma expressão que não alcançou os olhos.
— Dante é o mecenas. Ele fornece os recursos, a infraestrutura. Mas a visão... a visão é minha. Ele busca a ordem através do controle. Eu busco a ordem através da forma.
Ele desceu da plataforma, movendo-se com uma fluidez que desafiava a gravidade. Não havia som de passos.
— Vocês viram meus rascunhos lá fora. Os "Abortos". Tentativas grosseiras de fundir a resiliência do metal com a flexibilidade da carne. — Ele fez uma careta de desgosto ensaiado. — Falhas necessárias. Mas aqui... aqui é onde a verdadeira arte acontece.
Ele estalou os dedos.
O chão atrás dele se abriu, e um cilindro de vidro subiu lentamente do subsolo. Dentro, flutuando em um líquido dourado translúcido, não havia um corpo. Havia múltiplos.
Eram três figuras humanas — ou o que restava delas — fundidas pelas costas, suas colunas vertebrais entrelaçadas e substituídas por um complexo sistema de tubos de fibra ótica e veias sintéticas. Seus rostos estavam voltados para fora, olhos abertos e leitosos, bocas costuradas com fio de ouro.
Mas o mais perturbador não era a fusão. Era que, através do vidro, Gabo podia ouvir um som. Um zumbido baixo, rítmico.
— Eles estão... cantando? — Valéria recuou, horrorizada.
— Estão processando — corrigiu Aria, inclinando a cabeça levemente. — Detecto fluxo de dados massivo. Terabytes por segundo. As redes neurais deles estão em sincronia forçada.
— Exato — o Taxidermista aplaudiu, encantado. — O "Tríptico da Lamentação". Três mentes em agonia perpétua, filtrando o ruído da cidade, transformando o caos de dados brutos em informação pura e cristalina para a rede do Dante. A dor, meus caros, é o melhor condutor. Ela foca a mente. Elimina distrações.
Gabo sentiu a bile subir à garganta. A "beleza" daquilo era uma obscenidade.
— Você transformou pessoas em roteadores de carne — Gabo disse, a voz trêmula de ódio.
— Eu as elevei! — O Taxidermista parecia genuinamente ofendido. — Antes, eram viciados, "ratos de cais", desperdiçando suas vidas na sujeira. Agora? São eternos. São úteis. São belos.
Ele se virou para Rangel, deitado inerte na maca.
— E vejo que trouxeram material bruto. Esse aí... está quebrado. A sepse já começou a comprometer os tecidos. Mas a estrutura óssea é sólida. Eu poderia salvá-lo, Detetive. Poderia integrá-lo à próxima peça. "O Mártir Restaurado". O que me diz?
Aria deu um passo à frente, ficando entre o Taxidermista e a maca.
— Análise de ameaça: Crítica — ela declarou. — Indivíduo classificado como Hostil de Alta Complexidade. Probabilidade de negociação: 0%.
O Taxidermista olhou para Aria com fascínio clínico.
— E você... A peça que fugiu. Uma síntese interessante, mas... instável. Falta alma na sua execução, minha querida. Você é eficiente, mas não tem paixão. Eu posso consertar isso também.
Gabo levantou o vergalhão, apontando a extremidade irregular para o peito imaculado do artista.
— Ninguém vai ser "consertado" por você. Nós vamos sair daqui. E vamos levar esse lugar abaixo.
O Taxidermista suspirou, um som de decepção profunda.
— Tão previsível. Tão... humano. A recusa da transcendência é o maior pecado da sua espécie, Gabo. Vocês se agarram à podridão porque é a única coisa que conhecem.
Ele recuou para a plataforma, tocando a superfície da mesa de aço.
— Se não querem ser arte, serão material de estudo.
As paredes brancas do salão deslizaram silenciosamente, revelando nichos ocultos. De dentro deles, quatro figuras emergiram.
Eram diferentes dos monstros lá fora. Não eram massas de carne. Eram elegantes. Esbeltas. Feitas de cerâmica balística branca e músculo sintético exposto, vermelho vivo. Seus rostos eram lisos, sem olhos ou boca, apenas sensores táteis. Em vez de mãos, tinham lâminas vibratórias que zumbiam como insetos gigantes.
— Apresento as "Esculturas" — disse o Taxidermista, voltando ao seu trabalho na mesa, de costas para eles, como se a luta fosse indigna de sua atenção. — Por favor, não os danifiquem muito. O acabamento foi caríssimo.
— Aria — Gabo rosnou, firmando os pés. — Plano de ataque.
— Oponentes blindados — Aria respondeu, suas mãos se fechando em punhos. — Armas de concussão ineficazes contra a cerâmica. Recomendo desmembramento nas juntas articulares. Probabilidade de sobrevivência do grupo: 34%.
— Ótimo — Gabo cuspiu no chão imaculado, manchando o branco com sangue e saliva. — Melhores chances que tivemos a semana toda.
A primeira Escultura avançou.