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Capítulo 5: A Capela dos Esquecidos
O cheiro era o primeiro aviso: ozônio queimado misturado com urina velha e cobre.
A Estação Central da Linha Vermelha havia morrido há uma década, afogada pelo grande alagamento do Setor 4. Agora, o esqueleto de concreto servia a um novo propósito. Eles a chamavam de "A Capela". Um santuário profano para os viciados digitais, os glitch-heads, que haviam desistido da realidade para viver no fluxo de dados brutos.
Gabriel desceu as escadas rolantes paralisadas, suas botas esmagando vidro e seringas hipodérmicas. Nas paredes, nichos haviam sido escavados no azulejo sujo. Dentro deles, corpos esqueléticos tremiam em espasmos rítmicos, cabos de fibra ótica grosseiramente soldados na base de seus crânios, roubando eletricidade e banda das caixas de força da cidade.
Eles não viram Gabriel. Para eles, o inspetor não passava de um erro de renderização.
No final da plataforma, iluminado apenas pelo brilho cancerígeno de um monitor CRT recuperado do lixo, estava Roberto Miranda.
O homem que matou Bia.
Gabriel sentiu o Colar de Sol queimar contra seu peito, reagindo ao aumento súbito de sua temperatura corporal. Sua mão direita foi para o coldre, os dedos tremendo com a vontade de resolver aquilo ali mesmo.
Miranda parecia um fantasma de si mesmo. O uniforme, antes impecável, era agora um trapo manchado de graxa e sangue seco. Ele digitava freneticamente em um terminal modificado, sussurrando para a tela como se rezasse.
— Você está atrasado — Miranda não se virou. Sua voz era um rasgo seco na garganta. — O tráfego de dados aumentou. Eles estão varrendo os nós.
Gabriel parou a três metros de distância, sacando a Glock. O cano da arma tremia levemente, alinhado com a nuca suja de Miranda.
— Me dê um motivo para não puxar o gatilho, Roberto. Um só.
Miranda parou de digitar. Ele girou na cadeira quebrada lentamente, as mãos levantadas em rendição. Seus olhos eram dois poços de pânico, as pupilas tão dilatadas que a íris castanha havia desaparecido. Ele tremia, abstinência e adrenalina lutando pelo controle de seu sistema nervoso.
— Porque eu tenho a chave, Gabo. A chave que abre o túmulo.
— Você abriu o túmulo da Bia quando a vendeu para o Sindicato. — Gabriel engatilhou a arma. O som metálico ecoou na estação vazia.
— Eu não tive escolha! — Miranda gritou, e o som fez alguns viciados gemerem em seus sonhos digitais. — Eles iam matar minha filha! A Aeterna... eles sabem de tudo. Eles compram nossas dívidas, nossos pecados. E agora eles querem me apagar.
— Você já está apagado para mim.
Gabriel apertou o dedo no gatilho. Seria fácil. Justiça. Vingança. Tudo em um pedaço de chumbo.
NÃO.
A palavra brilhou em vermelho no HUD do carro, projetada agora em sua mente pela falha no implante auditivo que ele nem sabia que tinha. A voz de Aria.
— Ele é um nó crítico, — a voz da menina sussurrou, cheia de estática. — Sem ele, a rede não cai.
Gabriel hesitou. A voz digital o fez baixar a arma um milímetro.
— O que você tem? — rosnou ele.
Miranda, alheio à voz na cabeça de Gabo, enfiou a mão no bolso trêmulo e tirou um chip de memória biológico. O invólucro estava sujo, mas o núcleo pulsava com uma luz vermelha fraca.
— O Santo Graal. A apólice de seguro do seu pai.
— Meu pai morreu num tiroteio de gangue.
— Mentira! — Miranda jogou o chip. Gabriel o pegou no ar com a mão esquerda, sem tirar a arma do alvo. — Dante não morreu. Eles o levaram. A Aeterna... eles não queriam matar o melhor tático da cidade. Eles queriam processá-lo.
Gabriel sentiu um frio no estômago que nada tinha a ver com a umidade da estação.
— Do que você está falando?
— O Projeto Lázaro. — Miranda se levantou, cambaleando. — Não é droga. É computação distribuída. Cada viciado conectado... é um processador. Uma rede neural feita de carne humana para rodar a IA de segurança deles. E o seu pai... o cérebro dele é o Sistema Operacional, Gabo. O Ghost na máquina.
De repente, o rádio no ombro de Gabriel chiou. A voz da Detetive Valéria Cruz, distorcida pela interferência subterrânea, cortou o ar.
— Gabo! Saia daí! Assinaturas térmicas múltiplas entrando pelos dutos de ventilação. Não são da polícia!
Um zumbido agudo, como o bater de asas de mil insetos gigantes, encheu a estação.
— Limpadores... — Miranda empalideceu, recuando. — Eles nos acharam.
Do teto escuro, três pontos de luz vermelha desceram. Drones de combate modelo Vespa, ágeis e silenciosos, exceto pelo zumbido de seus rotores.
— Corre! — gritou Gabriel, empurrando Miranda para trás de uma pilastra de concreto, o instinto de sobrevivência superando o ódio por um segundo.
O primeiro drone abriu fogo. As balas de 9mm trituraram o terminal de computador, fazendo chover faíscas e plástico derretido.
Gabriel saiu da cobertura, disparando duas vezes contra a máquina líder. O que aconteceu a seguir fez seu sangue gelar.
O drone não apenas desviou. Ele dançou.
A máquina realizou um movimento pendular perfeito, girando sobre o próprio eixo para deixar a bala passar a milímetros de sua fuselagem, e retornou à posição de tiro em uma fração de segundo.
— Impossível... — sussurrou Gabriel. Aquele movimento. Ele vira aquilo mil vezes no dojo da academia de polícia. Era a "Esquiva Pêndulo" de Dante Moretti.
— Eu te disse! — gritou Miranda, disparando sua arma velha cegamente para o alto. — É ele! É o reflexo dele!
— Val, bloqueie o sinal deles! — Gabriel gritou para o rádio, disparando contra os sensores do segundo drone.
— Estou tentando! A criptografia é insana! É... é como se o código antecipasse meus movimentos! — A voz de Val estava à beira do pânico.
Um tiro de raspão atingiu a coxa de Miranda, que gritou e caiu.
— Merda. — Gabriel olhou para o traidor sangrando no chão. Seria tão fácil deixá-lo ali. Deixar os drones terminarem o serviço.
Mas ele precisava da verdade. E a verdade estava na cabeça daquele verme.
Gabriel agarrou o ex-parceiro pelo colarinho, arrastando-o pelo chão sujo com uma violência desnecessária.
— Vamos para os túneis de drenagem. Agora!
— Me deixa! — Miranda gania, segurando a perna sangrando. — Eu sou peso morto!
— Você é minha testemunha, desgraçado. Você só morre quando eu deixar. E eu prometo que vai doer mais que isso.
Gabriel disparou contra uma tubulação de vapor na parede oposta. O jato de pressão explodiu com um silvo ensurdecedor, criando uma cortina de vapor denso e escaldante entre eles e as máquinas assassinas.
Eles mergulharam na escuridão do túnel de esgoto, deslizando na lama fétida, enquanto atrás deles, o zumbido mecânico das Vespas mudava de tom, ativando o modo de perseguição térmica.
A caçada havia começado, e Gabriel sabia que, pela primeira vez, ele estava jogando contra alguém que conhecia todos os seus truques. Alguém que ele amava.
