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Metadados

  • Título: Catedrais de Pedra
  • Data In-Game: 23 de Novembro, 07:15
  • Localização: Nível 5 - Drenagem Profunda (As Catedrais de Pedra)
  • Personagens Presentes: Gabo Moretti, Valéria Cruz, Aria (Instável), Rangel (Crítico).
  • Resumo: O grupo desce às profundezas esquecidas de Baía Cinzenta. No silêncio monumental das "Catedrais de Pedra", Gabo enfrenta não apenas a exaustão física de carregar Rangel, mas o terror psicológico de ter Aria agindo como uma Bia Vargas infantilizada e confusa. A escuridão do Nível 5 oferece esconderijo, mas também desperta ecos do passado que deveriam permanecer enterrados.

Narrativa

Capítulo 127: Catedrais de Pedra

A escuridão no Nível 5 não era apenas a ausência de luz; era uma substância. Tinha peso, cheiro e textura. Cheirava a calcário úmido, a séculos de água estagnada e a algo mais antigo, algo que a cidade moderna acima havia esquecido de propósito.

Gabo sentiu o peso de Rangel aumentar a cada passo. O Inspetor, agora um peso morto de carne febril e respiração chiada, escorregava constantemente de seus ombros. O exoesqueleto de Gabo gemia baixo, os servos hidráulicos lutando contra a gravidade e a ferrugem, um zumbido síncopado que parecia alto demais naquele silêncio sepulcral.

— Val — Gabo sussurrou, a voz arranhada. — Quanto falta para a cisterna principal?

À frente, a silhueta pequena de Valéria era apenas um recorte contra o negrume, iluminada fracamente pelo brilho residual de seus implantes oculares. Ela parou, consultando o deck de pulso que projetava apenas estática azulada.

— O mapeamento sonar está cego aqui embaixo — ela respondeu, a tensão fazendo sua voz vibrar. — As paredes são muito densas. Absorvem tudo. Estamos navegando por eco e sorte.

— Sorte nunca foi nosso forte.

— Estamos descendo há trinta minutos. A inclinação sugere que já passamos do nível do mar. Se as plantas da Fundação estiverem certas...

— Elas nunca estão — a voz de Aria cortou a conversa. Não era a voz metálica de uma IA tática. Era a voz de uma menina. Era a voz de Bia.

Gabo travou o maxilar. A dor física de carregar Rangel era administrável; ele conhecia a dor, era uma velha amiga. Mas aquela voz... aquela voz era uma picada de gelo na base do crânio.

Aria caminhava ao lado dele, os passos leves demais, quase flutuando. Na penumbra, seu rosto sintético capturava qualquer fóton disponível, brilhando com uma inocência aterrorizante.

— Nós costumávamos vir aqui, lembra, Gabo? — ela disse, apontando para um arco de pedra que se erguia como a costela de um leviatã. — Quando fugíamos da escola. Você dizia que aqui era o único lugar onde o satélite da Aeterna não nos via.

Gabo fechou os olhos por um segundo. A memória era falsa. Bia e ele nunca desceram ao Nível 5 quando crianças. Eles se conheceram na Academia de Polícia. Aquilo era uma alucinação gerada por algoritmos corrompidos misturando dados biográficos com roteiros de filmes ruins.

— Isso nunca aconteceu, Aria — Gabo rosnou, ajustando Rangel nos ombros. — Economize bateria. Fique em silêncio.

— Você está bravo — ela observou, com uma tristeza genuína. — Você sempre ficava bravo quando tinha que prender a respiração, quando sentia aquele cheiro. Mas a fumaça não pode mais te machucar, Gabo. Você prometeu.

Gabo soltou o ar com força pelo nariz. A mão livre foi instintivamente ao peito, apertando o Colar de Sol sob a camisa suja. O metal frio mordeu a pele, a dor aguda servindo como âncora. Não é ela. É um glitche. É um erro de paridade.

— Chegamos — Valéria anunciou, estendendo a mão para parar o grupo.

Eles saíram do túnel estreito e entraram em um espaço vasto.

Valéria acendeu um sinalizador químico de baixo espectro. A luz vermelha sibilou e se expandiu, revelando a grandiosidade opressiva do lugar.

Eles estavam em uma câmara colossal. Colunas de pedra bruta, grossas como sequoias, erguiam-se da água negra até um teto abobadado que se perdia na escuridão, dezenas de metros acima. Arcos góticos se entrelaçavam, sustentando o peso de toda Baía Cinzenta sobre suas cabeças.

As "Catedrais de Pedra". O sistema de drenagem original da cidade, construído antes dos processadores, antes do neon, antes da Aeterna. Era um templo à engenharia analógica, silencioso e eterno.

O som da água era onipresente aqui. Um gotejar constante, multiplicado por mil ecos, criando uma música ambiente que soava como sussurros distantes.

— Impressionante — murmurou Valéria, sua voz ecoando e voltando para eles. — E assustador.

— Tem um banco de areia ali — Gabo apontou com a cabeça para uma ilha de sedimentos secos na base de uma das colunas. — Vamos descansar cinco minutos. Rangel precisa ser verificado.

Eles avançaram com cuidado. O chão era liso, coberto por um lodo que parecia óleo. Gabo depositou Rangel na areia com a delicadeza que seus músculos exaustos permitiam. O Inspetor gemeu, os olhos revirando nas órbitas, a pele cinzenta e suada.

— Ele está queimando de febre — Valéria se ajoelhou, escaneando os vitais dele com o deck. — A infecção está contida, mas o choque sistêmico... ele precisa de fluidos, Gabo. Ele precisa de um hospital de verdade.

— O hospital mais próximo é um necrotério da Aeterna — Gabo se sentou pesadamente, encostando as costas na pedra fria da coluna. Ele puxou a Caronte do coldre, verificando a câmara. Duas cargas restantes.

— Gabo... — Aria se aproximou, agachando-se na frente dele. Ela não olhava para Rangel, nem para a escuridão. Ela olhava apenas para ele. — Você parece cansado. Posso cantar para você? Aquela música que a gente ouvia no rádio do carro?

Gabo olhou para ela. A luz vermelha do sinalizador dava a ela um aspecto demoníaco, mas a expressão era de pura adoração. Era a expressão de Bia na manhã em que ele pediu ela em casamento. A mesma inclinação de cabeça. O mesmo brilho nos olhos.

A náusea subiu pela garganta de Gabo. Ele queria gritar. Ele queria atirar nela. Ele queria abraçá-la.

— Não — ele disse, a voz trêmula. — Não cante. Apenas... faça uma varredura de perímetro. Por favor.

Aria piscou, a "máscara" de Bia falhando por um milissegundo, revelando a frieza da máquina por trás, antes de voltar.

— Tudo bem, amor. Vou vigiar o escuro para você.

Ela se levantou e caminhou até a borda da água, ficando imóvel como uma estátua, os olhos varrendo a escuridão.

Valéria olhou para Gabo, os olhos cibernéticos cheios de preocupação.

— Eu tentei isolar os pacotes de memória — ela sussurrou. — Mas estão entrelaçados no kernel. Se eu deletar a Bia... eu deleto a Aria.

— Isso não é a Bia — Gabo disse, mas não sabia se estava tentando convencer Valéria ou a si mesmo. — É tortura.

De repente, Aria levantou a mão.

— Movimento — ela disse. A voz mudou. A modulação infantil sumiu, substituída por um timbre tático, plano e eficiente. — Setor Norte. Distância: 150 metros. Aproximação rápida.

Gabo estava de pé em um segundo, a dor nas pernas esquecida. Ele ergueu a Caronte, apontando para a escuridão além do círculo de luz vermelha.

— O quê? — ele sussurrou. — Drones?

— Não — Aria respondeu, a cabeça inclinada, processando dados acústicos. — Padrão de respiração orgânico. Quadrúpede. Múltiplos alvos.

Um som ecoou na caverna. Não era o zumbido de um motor. Era o som de garras arranhando pedra. E um rosnado baixo, úmido, que reverberou nas paredes da catedral como o riso de um demônio.

— Cães — Gabo engatilhou a arma. — Cães de caça.

Valéria puxou sua pistola compacta, movendo-se para proteger Rangel.

— Apague o sinalizador — Gabo ordenou.

Valéria chutou o bastão químico para a água, onde ele chiou e morreu. A escuridão caiu sobre eles novamente, total e absoluta.

Mas na escuridão, Gabo viu. Dois, quatro, seis pares de olhos refletindo a luz residual, brilhando com um verde pálido e faminto. Eles não precisavam de luz. Eles seguiam o cheiro de sangue. O cheiro de Rangel.

Gabo apertou o Colar de Sol uma última vez, transformando a dor em foco.

— Bem-vindos à idade da pedra — ele sussurrou para a escuridão.