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Capítulo 111: Arquivos Mortos
SYSTEM LOG // OFFLINE STORAGE
LOCAL: "O FLIPERAMA" (CAIXA DE FARADAY)
STATUS: DESCONECTADO DA REDE GLOBAL
HARDWARE: SERVIDOR LEGADO (INTEL PENTIUM IV)
DADOS: CORROMPIDOS/CRIPTOGRAFADOS MANUALMENTE
LOCAL: "O FLIPERAMA" (CAIXA DE FARADAY)
STATUS: DESCONECTADO DA REDE GLOBAL
HARDWARE: SERVIDOR LEGADO (INTEL PENTIUM IV)
DADOS: CORROMPIDOS/CRIPTOGRAFADOS MANUALMENTE
O Santuário de Kiko Vibe
O silêncio dentro da gaiola de Faraday era diferente. Não era apenas a ausência de barulho; era a ausência de pressão. Lá fora, sob a chuva e os drones de Dante, o ar parecia vibrar com dados invisíveis, uma estática constante que arranhava a nuca de qualquer um com implantes. Ali dentro, o ar era parado, cheirando a poeira superaquecida e ozônio velho.
Gabo sentou-se em um caixote de madeira reforçada, esticando a perna machucada. O conserto que Dante fizera — parafusos industriais perfurando o osso para prender o suporte — latejava com uma dor fria e metálica. Ele ignorou, focando em limpar a graxa da Caronte com um pedaço de pano sujo.
— Isso é ridículo — resmungou Valéria. Ela estava debruçada sobre o teclado mecânico amarelado do servidor central, seus dedos pairando sobre as teclas sem saber exatamente o que fazer. — Não tem interface neural. Não tem porta de entrada ótica. É tudo... físico. Eu tenho que digitar os comandos?
— Bem-vinda aos anos 2000, garota — disse Rangel. O ex-inspetor caminhava pelas estantes de metal enferrujado que forravam as paredes laterais. Elas estavam entulhadas não com drives de cristal, mas com caixas de papelão. — Kiko não confiava na nuvem. E pelo visto, ele tinha razão.
Gabo ficou diante de uma parede de monitores CRT desligados, exceto pelo central, que exibia o prompt de comando piscante em verde fósforo. A luz verde refletiu no suor do rosto dele. A voz de Aria sussurrou na mente dele, suave, quase infantil.
— Ele sabia que isso ia acontecer — disse Gabo, repetindo o pensamento como se fosse dele. — Kiko viu os padrões. Ele viu o código do Dante antes mesmo do Dante nascer.
— Kiko era um streamer — Valéria bufou, finalmente arriscando teclar algo. O som das teclas mecânicas (Click-Clack) ecoou alto na sala. — Ele vendia energético e fazia unboxing de implantes.
— Essa era a máscara — corrigiu Gabo, sem levantar os olhos da arma. — Todo mundo precisa de uma. A dele era ser um idiota superficial. Ninguém vigia o bobo da corte.
Rangel puxou uma caixa da prateleira. A poeira subiu em uma nuvem cinza. Ele tossiu, abanando o ar, e olhou para o conteúdo.
— Papel — Rangel disse, incrédulo. Ele tirou uma pasta manila, as bordas comidas por traças. — Relatórios de polícia impressos. Cópias carbono. Isso aqui... isso aqui são os arquivos do caso "Gênesis" original. Aquele que o Silas Vance tentou enterrar trinta anos atrás.
Ele folheou as páginas, sentindo a textura áspera. Para Rangel, aquilo era conforto. Ele entendia papel. Ele entendia tinta. No mundo digital de Dante, ele era obsoleto. Mas ali, naquele mausoléu de burocracia, ele era o único que sabia ler a língua morta dos arquivos.
— Olha isso — Rangel caminhou até a mesa central, colocando o documento sob a luz de uma lâmpada halógena pendurada. — Kiko não apenas hackeou o sistema da polícia. Ele imprimiu tudo antes que eles pudessem alterar os registros.
Valéria parou de digitar. — O que você achou?
— A autópsia original do Dante — Rangel apontou para uma linha datilografada. — A de quinze anos atrás. Quando Krell o "matou" pela primeira vez.
Gabo levantou-se, mancando até a mesa. Ele olhou para o nome do pai no papel amarelado.
— Não houve corpo — Gabo disse. — O caixão estava vazio.
— Sim, mas houve uma análise biológica do sangue encontrado no local — Rangel ajustou os óculos que não usava mais, um hábito fantasma. — O legista da época notou algo. Uma anomalia celular. As células do Dante... elas rejeitavam a integração sintética.
— Como assim? — Valéria se aproximou. — O Dante atual é a fusão perfeita de mente e máquina. É o que o torna um "deus".
— Talvez não seja tão perfeita assim — disse Gabo, ainda olhando para o papel. — Dante impõe ordem. Mas a biologia é caótica. O corpo que ele usa agora... é um clone forçado, acelerado pelo Gênesis. Mas a consciência dele é um código viral agressivo.
Gabo tocou o monitor antigo. — A carne não aguenta o software. É muito processamento para um cérebro orgânico, mesmo um modificado. Kiko deixou uma nota aqui no servidor.
Valéria digitou um comando simples: RUN_LOG_01.EXE.
A tela piscou e texto rolou rapidamente:
>> ANÁLISE DE ESTABILIDADE: PROJETO LÁZARO
>> SUJEITO: ALPHA (D. MORETTI)
>> CONCLUSÃO: O hospedeiro entra em colapso térmico se o processamento exceder 90% por mais de 4 horas.
>> FALHA: O cérebro cozinha dentro do crânio.
>> SOLUÇÃO PALIATIVA: Resfriamento externo e... "Ciclo de Sono".— Ele precisa dormir — Gabo murmurou. — O deus da máquina precisa tirar sonecas.
— Não é sono — corrigiu Valéria, lendo os dados técnicos que surgiam. — É um reboot forçado. Ele precisa se desconectar da rede da cidade para resfriar o núcleo biológico. Durante esse tempo... ele fica vulnerável.
— Cego — completou Gabo. — Ele fica cego e surdo. A cidade continua rodando nos protocolos automáticos, mas a "Voz"... a consciência dele... apaga.
— De quanto tempo estamos falando? — perguntou Rangel, o instinto policial afiando sua voz.
— Quarenta minutos — disse Valéria. — A cada 24 horas.
Gabo olhou para o teto cheio de cabos, como se pudesse ver a cidade acima deles através do concreto e da terra.
— Quarenta minutos é tudo que a gente precisa — ele disse, embainhando a Caronte. — Mas onde ele dorme? Onde se esconde um deus?
— Ele não se esconde — disse Gabo. — Ele vai para a fonte. O único lugar com energia suficiente para manter o suporte de vida durante o resfriamento.
Gabo apontou para um mapa desbotado na parede, uma planta da cidade de antes da enchente. O dedo dele pousou sobre uma estrutura maciça no distrito industrial, agora submersa pela metade.
— A Usina Geotérmica "Prometeu" — leu Rangel. — Isso foi desativado depois do Dilúvio. É instável.
— É quente — disse Gabo. — E tem acesso direto ao manto. Energia infinita e calor... perfeito para esconder a assinatura térmica de um corpo superaquecido.
Um estrondo surdo fez a poeira cair do teto. O chão tremeu levemente.
— Eles estão varrendo os túneis — avisou Valéria, fechando o laptop. — Os Cães Mecânicos estão chegando perto.
Gabo pegou uma caixa de munição velha da prateleira de Kiko e jogou para Rangel. O inspetor a pegou no ar, surpreso com o peso.
— O que é isso? — Rangel perguntou.
— Balas de ponta oca. Analógicas. Não tem chip para hackear, não tem trava biométrica — Gabo sorriu, um sorriso de lobo cansado. — Você disse que era fugitivo, Rangel. Fugitivos correm. Rebeldes lutam. Qual dos dois você é hoje?
Rangel olhou para a caixa, depois para sua velha arma de serviço. Ele abriu o tambor do revólver, despejando as balas padrão da polícia, e começou a carregar as munições "burras" de Kiko.
Click. Click. Click.
— Eu não sou rebelde — Rangel fechou o tambor com um estalo seco. — Eu sou a Corregedoria. E o Prefeito Moretti está com o mandato vencido.
Gabo assentiu. Ele se virou para a porta de aço da caixa de Faraday.
— Vamos sair daqui. Temos quarenta minutos para cruzar a cidade, invadir uma usina instável e desligar o sistema operacional.
— E se falharmos? — perguntou Valéria, puxando o capuz sobre os fios de LED.
— Então a gente vira arquivo morto — disse Gabo, abrindo a porta para a escuridão do esgoto. — Igual a todo o resto.
