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Capítulo 51: Mãos Limpas
A chuva ácida de Baía Cinzenta tem o hábito de lavar as evidências, mas aquele corpo estava estranhamente imaculado.
Gabo desceu do Cobalt, suas botas chapinhando na lama oleosa do beco atrás de uma clínica clandestina no Distrito da Névoa. Jonas Vilar já estava lá, segurando um guarda-chuva preto e fumando um cigarro que lutava para permanecer aceso.
— Você devia estar de repouso, Gabo — disse Vilar, sem olhar para ele. — Aquela queda na Torre quase te quebrou ao meio.
— Eu quebro, mas não envergo, Jonas. O que temos?
Vilar apontou para o corpo encostado na parede de tijolos. Era um homem bem vestido, terno de seda sintética, sapatos italianos. A única coisa fora do lugar era o pescoço, torcido em um ângulo impossível, e as mãos.
Gabo se agachou. As mãos do homem estavam esmagadas. Cada dedo quebrado metodicamente. E sobre o peito, uma única moeda de prata antiga.
— Quem é o sortudo? — perguntou Gabo.
— Marcos "O Farmacêutico" Viana. Controlava 60% do mercado negro de antibióticos e insulina da Zona Baixa. Um parasita de primeira.
Gabo sentiu um gosto amargo na boca. Insulina.
— Roubo?
— Carteira cheia, relógio de ouro no pulso. Não levaram nada. — Vilar tragou o cigarro. Gabo desviou o rosto, incomodado com a fumaça. — Exceto a vida. E a dignidade.
— Isso não é coisa de gangue — murmurou Gabo, examinando os hematomas no pescoço. — Marcas de dedos. Polegares na traqueia. Força bruta, mas aplicada com precisão cirúrgica. Quem fez isso sabia exatamente onde apertar para desligar o cérebro.
— Tem mais — disse Vilar, puxando um tablet holográfico. — As câmeras de segurança da rua pegaram um vulto. Val processou as imagens.
Ele entregou o tablet a Gabo. O vídeo granulado mostrava "O Farmacêutico" sendo erguido do chão como um boneco de pano por uma figura encapuzada. A figura usava uma capa de chuva pesada, militar. O movimento foi rápido, eficiente. Um golpe nas articulações, uma chave de braço, e o som audível de ossos estalando mesmo sem áudio.
— Hapkido — disse Gabo, sentindo um arrepio. — Esse movimento... é o "Quebra-Nozes". Golpe proibido em competições.
— Alguém que treinou onde você treinou? — perguntou Vilar.
— Meu mestre morreu há dez anos, Jonas. Só eu e... — Gabo parou. A memória de Roberto Miranda, seu ex-parceiro traidor, veio à mente, mas Miranda lutava sujo, com armas e implantes. Isso aqui era arte marcial pura. Disciplina.
Gabo olhou para a moeda de prata no peito da vítima. Havia uma inscrição em latim desgastada: Fiat Justitia.
"Faça-se justiça".
— O povo está chamando ele de "O Santo" — disse Vilar, jogando a bituca na poça. — Ou "O Penitente". Ele está limpando a sujeira que nós não conseguimos limpar, Gabo.
— Justiça sem lei é vingança, Jonas.
— Talvez. Mas com a cidade debaixo d'água e metade do meu departamento na folha de pagamento do crime organizado... talvez vingança seja tudo o que nos resta.
Gabo se levantou.
— Eu quero o dossiê desse "Farmacêutico". Quero saber quem ele extorquiu, quem ele matou indiretamente.
— Pra quê?
— Porque esse "Santo" não escolhe vítimas aleatórias. Ele tem uma lista. E se ele está seguindo uma lista, eu posso descobrir quem é o próximo.
Gabo voltou para o carro. A chuva parecia mais fria agora. Ele não conseguia tirar da cabeça a imagem das mãos quebradas. Eram as mãos de quem recebia dinheiro sujo. O assassino estava enviando uma mensagem.
Ele ligou o motor do Cobalt.
— Val — disse ele para o painel.
— Na escuta, Chefe.
— Rastreie as últimas transações do Marcos Viana. Quero saber quem ele negou atendimento na última semana.
— Isso é uma lista longa, Gabo. Com a falta de remédios, ele negou metade da cidade.
— Filtre por óbitos recentes. Pessoas que morreram logo após terem o pedido negado.
Houve uma pausa do outro lado da linha. O som de teclas sendo digitadas furiosamente.
— Gabo... — A voz de Val mudou. Ficou pequena.
— O que foi?
— Eu cruzei os dados. Tem três óbitos na área do Setor 7 nas últimas 24 horas ligados à recusa de fornecimento de insulina desse cara.
— Nomes, Val.
— Um velho, uma criança... e... Helena Moretti.
O mundo de Gabo parou. O som da chuva sumiu. O bater do limpador de para-brisa tornou-se um metrônomo marcando o tempo de um coração que acabara de falhar.
— Repita — ele sussurrou.
— Helena Moretti. Endereço registrado: Palafita 402, Beco da Sombra, Setor 7. Óbito registrado pelo Sindicato dos Barqueiros hoje de manhã. Motivo: Coma diabético não tratado.
Gabo socou o volante. A buzina gritou, um lamento mecânico que ecoou pela rua vazia. Ele não gritou. A dor era grande demais para som. Era um buraco negro que engolia tudo.
Sua mãe estava viva. Estava. E ele não sabia. E agora ela estava morta por causa de um parasita que ele deveria ter prendido meses atrás.
— E tem mais... — Val continuou, hesitante. — O registro de cremação foi pago por Clara Moretti.
Clara. Sua irmãzinha.
— Onde ela está, Val? — A voz de Gabo era gelo e metal.
— O pagamento foi feito via transferência de crédito de alto risco. A fonte é... "Empréstimos O Dourado". Gabo, isso é agiotagem pesada. Se ela pegou dinheiro com eles...
Gabo engatou a primeira marcha. Os pneus cantaram no asfalto molhado.
— Me dê a localização desse Dourado. Agora.
O "Santo" podia estar matando os pecadores, mas Gabo Moretti estava prestes a invadir o inferno.
