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Capítulo 113: Carga Viva
SYSTEM LOG // CRITICAL ERROR
VEÍCULO: UNIDADE DE COLETA #899 [SANEAMENTO BAÍA CINZENTA]
CARGA: BIOMASSA NÃO PROCESSADA (CLASSE C)
STATUS: PROTOCOLO MANUAL ATIVADO (CHAVE MESTRA: DEP. POLÍCIA)
ALERTA: COMPACTADOR DESSINCRONIZADO
VEÍCULO: UNIDADE DE COLETA #899 [SANEAMENTO BAÍA CINZENTA]
CARGA: BIOMASSA NÃO PROCESSADA (CLASSE C)
STATUS: PROTOCOLO MANUAL ATIVADO (CHAVE MESTRA: DEP. POLÍCIA)
ALERTA: COMPACTADOR DESSINCRONIZADO
O Ventre da Besta
O interior do caminhão de lixo não cheirava a lixo. Cheirava a cobre, amônia e algo doce, nauseante, que Gabo reconheceu imediatamente dos dias em que limpava cenas de crime para pagar o aluguel.
Cheirava a morte recente.
— Segurem-se! — A voz de Rangel ecoou pelo sistema de intercomunicação interno, crepitando com estática. O caminhão deu um solavanco violento, as suspensões hidráulicas gemendo enquanto ele subia a calçada para contornar um bloqueio da Aeterna.
No compartimento de carga, a escuridão era cortada apenas pelas luzes de emergência vermelhas que piscavam no teto. Gabo estava sentado sobre uma pilha de sacos pretos reforçados, com a perna ruim esticada à sua frente. Valéria estava agachada perto do painel de controle do compactador, tentando conectar seu deck para impedir que a máquina decidisse esmagá-los.
Gabo viu Aria parada no centro, equilibrando-se com a facilidade de um giroscópio, olhando fixamente para um dos sacos que havia se rasgado com o movimento brusco.
— Não olhe, Aria — murmurou ele, sentindo o estômago revirar.
Valéria engasgou, parando de digitar por um segundo.
— Para com isso, Gabo — ela disse, sem olhar para ele. — Foca no painel. O cheiro já está ruim demais.
O braço pálido e tatuado pendia para fora do plástico rasgado. Gabo ouviu, como um eco dentro da própria cabeça: “Eles são pessoas.” Mas a voz não vinha de lugar nenhum.
Valéria apertou os dentes, os olhos brilhando na luz vermelha.
— “Drenados”. Viciados que o Marco Moretti varreu das ruas — ela cuspiu. — Eles viraram combustível.
Gabo fechou os olhos por um segundo. A “Nova Alvorada” não era apenas limpeza social. Era canibalismo industrializado.
Gabo fechou os olhos, a dor em sua perna latejando em sincronia com o motor do caminhão. A "Nova Alvorada" não era apenas limpeza social. Era canibalismo industrializado.
O caminhão freou bruscamente, jogando-os para frente. Gabo bateu o ombro contra a parede de metal frio.
— Rangel! — gritou Valéria no rádio.
— Checkpoint — a voz de Rangel veio tensa. — Estamos na entrada do Setor 4. Fiquem em silêncio absoluto. Se os sensores de batimento cardíaco pegarem vocês...
— Val — sussurrou Gabo. — O que você pode fazer?
Valéria tocou o painel lateral do caminhão. Os olhos dela refletiram o brilho do deck.
— Posso gerar um loop de feedback nos sensores externos. Fazer o caminhão parecer vazio para os scanners térmicos. Mas preciso de acesso direto à bateria do compactador.
— Vai ativar a prensa! — alertou Gabo.
— Apenas por três segundos — disse Valéria.
— Três segundos é o suficiente para transformar a gente em pasta! — Gabo retrucou.
— Eles estão escaneando — a voz de Rangel era um sussurro urgente. — Agora ou nunca.
Gabo olhou para Valéria. Ela engoliu em seco, olhou para o teto que começava a descer lentamente com um zumbido hidráulico ameaçador, e assentiu.
— Vai!
Valéria enfiou os cabos na porta de manutenção exposta. Faíscas azuis voaram. O teto de metal, uma chapa de aço de duas toneladas projetada para esmagar qualquer coisa em seu caminho, desceu com um rugido.
Gabo se encolheu, puxando as pernas. O teto parou a dez centímetros de sua cabeça, a pressão do ar estalando seus ouvidos. O som de metal rangendo era ensurdecedor.
Do lado de fora, uma voz amplificada soou abafada: "Leitura negativa. Carga inerte. Pode prosseguir, Unidade 899."
O teto subiu novamente, soltando um silvo de descompressão.
Valéria soltou o ar que prendia, tremendo. Gabo percebeu que estava segurando a mão dela com tanta força que seus dedos estavam brancos.
— Estamos dentro — disse Rangel pelo rádio, sua voz aliviada, mas sombria. — Bem-vindos ao inferno, crianças. A Usina Prometeu é logo à frente.
Gabo olhou ao redor, para os sacos pretos empilhados como lixo. Ele tocou o cabo da Caronte em seu coldre.
— Eles não vão ser esquecidos — ele murmurou, prometendo aos mortos silenciosos ao seu redor. — Hoje à noite, a gente cobra a conta.
O caminhão acelerou, levando-os para o coração da máquina que mantinha a cidade viva e seus cidadãos mortos.
