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Capítulo 186: Raízes de Silício
A agonia era o compasso do meu avanço. O cheiro de charuto tentava se infiltrar pelas frestas da minha sanidade a cada passo que dávamos na estufa colossal. Cada vez que a névoa ácida do ambiente ou a podridão orgânica conspiravam para recriar o perfume fantasma do tabaco de Dante, eu apertava os pregos neurais cravados na junção da minha clavícula mutilada. A faísca elétrica e a dor muscular cortavam a fumaça ilusória. Era um preço barato para não enlouquecer.
— A densidade neural aumenta em quarenta e dois por cento neste quadrante, — a voz de Valéria soou oca, livre de inflexões, rompendo o silêncio lúgubre. Seus olhos sintéticos varriam as trepadeiras biomecânicas que pulsavam com um fulgor bioluminescente doentio. Ela caminhava com uma eficiência que me dava arrepios. O Modo de Segurança a transformara numa calculadora andando, desprovida de tudo o que a fazia ela. E, no fim das contas, era exatamente do que precisávamos.
O complexo não era apenas uma fazenda abandonada; era uma placa-mãe orgânica. Tubos de irrigação corroídos bombeavam um fluido espesso, mais parecido com sangue coagulado do que com água, alimentando raízes que se enredavam nos racks de servidores submersos no limo. Cadáveres empalados, outrora trabalhadores ou exploradores azarados do Distrito 4, pendiam como frutos podres, seus crânios perfurados por cabos de fibra ótica que drenavam sua energia bioelétrica. A praga do "Jardim" não estava apenas sobrevivendo. Ela estava processando dados.
— Eles estão calculando algo, — falei, minha voz áspera arranhando a garganta. O som de meus passos pesados, graças à prótese descalibrada e ao suporte das pernas mecânicas desgastadas, ecoava na galeria. — Não é só sobrevivência. É um maldito supercomputador de carne.
— Afirmativo. O padrão de transmissão sugere um ciclo de retroalimentação. Estão buscando uma saída lógica para a contenção térmica das superfícies superiores, — Valéria não olhou para mim. Ela parou diante de um aglomerado grotesco de cabos e tecido membranoso que bloqueava o acesso ao núcleo de dados primário do setor. Uma interface obsoleta, coberta de musgo metálico, piscava intermitentemente sob as raízes.
— Pode abrir isso? — perguntei, sentindo um espasmo no ombro direito. A fumaça mental tentou subir, um fantasma sufocante. Bati com força o punho de ferro fundido contra a parede de metal mais próxima. O estalo do choque me devolveu o ar.
— A criptografia é biológica. O firewall é composto de respostas de estresse do córtex cerebral das bio-baterias, — ela estendeu a mão, os dedos frios e precisos tocando a interface viva. — Posso emular os sinais de dor para forçar um bypass, mas precisarei de uma interrupção física do fluxo secundário de energia. O nó central.
Segui a linha luminosa que partia da porta selada até uma massa pulsante presa ao teto de vidro rachado. O nó era um coração de silício revestido por carne podre e trepadeiras farpadas.
— Deixa comigo. — Minha prótese pesada gemeu quando ajustei os servos de controle. Não havia sutileza no que precisava ser feito. Apenas força bruta e a brutalidade familiar da ferrugem contra a biologia.
Escalei as prateleiras de hidroponia morta, meus músculos gritando em protesto. A cada apoio que minha perna mecânica forçava, uma fagulha de dor espantava a fumaça de Dante. Alcancei o nó. A pulsação era quente, úmida, como tocar as entranhas de uma besta moribunda.
Sem hesitar, cravei os dedos irregulares da prótese na carne pálida do nó e fechei o punho. O som de ossos quebrando misturou-se com o estalo do silício estilhaçando sob pressão hidráulica. Um guincho de feedback agudo cortou o ar e a massa espasmou, derramando um líquido negro e viscoso que sibilou no chão.
— Bypass concluído, — Valéria relatou, impassível, enquanto a porta membranosa à sua frente se desfazia em cinzas biológicas. — O acesso ao log de destino está liberado. Eles não estão construindo apenas uma rede, Gabo. O algoritmo aponta para uma reativação do Arquivo Executivo.
Caí de pé no chão de ferro, o ombro latejando em pura agonia. Respirei fundo, o ar livre de charuto e repleto de ozônio. Sorri, um esgar cínico e sem humor. O inferno nunca acaba. Só muda de andar.