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Capítulo 88: Sintomas de Abstinência

Bunker de Isolamento da Resistência (Subsolo do Hospital) - Noite

O quarto de isolamento era uma caixa branca estéril, sem janelas, sem rede, sem ruído. Era o único lugar onde o "Jardim" não conseguia ouvir — e onde a mente de Gabo não conseguia fugir.

Dra. Nise monitorava os sinais vitais de Gabo. Ele estava deitado e acordado, mas seus olhos às vezes pareciam olhar para algo que não estava ali.

— Como ele está? — perguntou Valéria, entrando na sala. Ela parecia cansada, sua pele marcada por erupções cutâneas causadas pela atmosfera carregada de esporos lá fora.

— Sofrendo — respondeu Nise. — Olhe isso.

O monitor exibia picos violentos de atividade neuroelétrica.

— O sistema nervoso dele está em choque — explicou Nise. — As limitações físicas, a dor constante nos tocos das pernas, o choque pós-traumático... E acima de tudo, o cérebro dele está tentando processar o luto pela irmã que ele descobriu tarde demais e perdeu. Aria deixou um vácuo brutal na mente dele.

De repente, a caixa de som do servidor crepitou.

Frio... — a voz de Aria era um sussurro de estática que saía dos alto-falantes, ecoando os espasmos de Gabo. — Tão... silencioso...

— Estamos aqui, Gabo — disse Nise, tocando o ombro tenso dele. Gabo retesou os músculos, usando a pontada de dor para focar no toque físico e não na alucinação auditiva.

Eles estão... cantando lá fora, Nise? As flores... elas cantam? — a voz de Gabo estava rouca e desconexa.

— Sim — mentiu Valéria. — Elas cantam.

Eu quero ouvir. Me deixa sair. Por favor... dói ser só silêncio. Eu quero sentir por inteiro.

— Não podemos — disse Nise, firme. — Se você sair agora, o delírio botânico vai te devorar. E você vai se perder de novo na simbiose.

Eu já não sei quem sou... — murmurou Gabo, cravando as unhas nas próprias palmas até quase sangrar, buscando a dor física para afastar o horror invisível. — Sou um fantasma dentro de uma carcaça quebrada. Deixe-me sair... Deixe-me lutar.

Gabo começou a tremer violentamente. A temperatura na sala pareceu cair.

— Ele está tentando levantar — alertou Valéria, verificando as amarras médicas. — Vai destruir o que sobrou dos ligamentos das pernas!

— Ele vai se destruir! — Nise correu para segurá-lo. — Gabo, pare! Aceite a dor real!

ABRA A PORTA! — o grito de Gabo foi seco, carregado da mais pura agonia.

As luzes do bunker piscaram e ameaçaram estourar. Na penumbra de emergência, apenas os LEDs de status do servidor brilhavam como olhos vermelhos.

Então, Gabo desabou novamente no leito, exausto e arquejante.

— Gabo? — chamou Nise, a respiração presa.

O zumbido do ambiente voltou ao normal.

A dor... — a voz de Gabo voltou, áspera, ancorada na realidade de suas fraturas e próteses. — A dor mantém a mente no lugar...

Valéria olhou para Nise.

— Não podemos mantê-lo aqui para sempre, Nise. Ele vai morrer por dentro, lutando contra o próprio corpo.

— Temos que encontrar uma solução para essa praga biológica lá fora — disse Nise, aplicando um sedativo muscular brando no detetive. — Antes que a teimosia dele seja a única coisa que nos resta, e ela não seja o suficiente.