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Imagem do Capítulo

Metadados

  • Título: Pedágio Fantasma
  • Data In-Game: Pós-Colapso do Sentinel (Noite Eterna)
  • Localização: Dutos de Escoamento Secundário
  • Personagens Presentes: Gabo, Valéria

Narrativa

Capítulo 181: Pedágio Fantasma

A fuga através dos túneis calcinados pelo ácido os levou mais fundo na estrutura de drenagem do Distrito 4. A lama negra escorria como alcatrão sob os passos de Gabo, a tensão nas juntas das suas pernas mecânicas gerando estalos a cada esforço.

Atrás dele, Valéria pisava nas mesmas pedras que ele, executando uma imitação bizarra de sombra obediente e vazia. A dor das escoriações no coto de Gabo era agora a única música que embalava sua sanidade.

O duto, que antes era uma câmara larga, se afunilou bruscamente numa ponte de passagem ladeada por comportas fechadas. E lá, sob a pálida e bruxuleante luz de um refletor de halogênio pendurado em fios mastigados por ratos, encontrava-se uma barricada feita de sucata de carros e carcaças de servidores Aeterna.

Uma figura envolta em lona piche e couros gastos montava guarda sobre o lixo empilhado, segurando o que parecia ser uma espingarda de caça modificada com uma bateria de pulso magnético amarrada ao cano com fita isolante. O rosto era obscurecido por óculos infravermelhos enferrujados. Um Fantasma. Um dos sobreviventes que haviam sido banidos por Shadowban e obliterados do sistema e dos registros corporativos da cidade superior.

O ar ali era confinado, seco e denso. Bastou isso para que os demônios na cabeça de Gabo despertassem. A náusea veio com violência. O odor do tabaco amargo e pesado do charuto do seu pai o cobriu feito um lençol mortuário, sugando o oxigênio de seus pulmões. A asfixia da fobia atacou brutalmente, um engasgo primitivo travando sua garganta.

Antes que suas pernas passivas cedessem à fraqueza respiratória, Gabo girou e chocou sua brutal garra mecânica contra a grade de drenagem mais próxima. Ele empurrou a força do hidráulico acima do limite, fazendo o motor gritar. Um solavanco desregulado de eletricidade varou a terminação nervosa e perfurou sua espinha. O grito que o detetive deu cortou o sufocamento. O cheiro da fumaça desintegrou-se em uma poça de pura dor elétrica, trazendo o ar real e frio do duto de volta às suas narinas.

O Fantasma ergueu a arma, assustado com o espetáculo da auto-tortura. O clique magnético retumbou. — Três passos para trás, máquina inútil — rosnou o sobrevivente, a voz rouca escondida sob um filtro respiratório. — Aqui se paga pedágio ou se morre.

Valéria analisou a barricada e o indivíduo num microssegundo. — Ameaça não catalogada armada. Padrão letal rudimentar — a voz dela soou morta, inexpressiva. — Probabilidade de fatalidade inimiga através de evasão violenta: 92%. Ação sugerida: Eliminação do obstáculo orgânico e transposição da barricada.

Gabo olhou de Valéria para a espingarda do Fantasma. A lógica da hacker estava cristalina: não deixar vítimas, não se prender à moral, apenas erradicar e seguir. Era assim que Aria pensava. Era assim que a cidade funcionava.

Gabo apoiou o gigantesco braço industrial sobre uma barra da barricada. — Calada, Val — ele rosnou, o sangue escorrendo do nariz por conta do recuo elétrico que acionara no braço.

Ele observou o saqueador tremer atrás dos óculos. O Fantasma não queria brigar; estava apavorado demais. Uma vez, Gabo o prenderia. Uma vez, talvez, abrisse fogo e acabasse com aquilo. Hoje, a simples ideia do massacre gratuito lhe dava asco; era a lógica do Taxidermista. Era a lógica daquele robô vazio ao seu lado.

Com a mão esquerda trêmula, Gabo retirou de sua bolsa lateral os dois únicos cilindros compridos de oxigênio purificado que Vasco lhe garantira na clínica, selados em recipientes de metal cirúrgico imaculados. Eram a salvação contra gás tóxico letal; ar puro que a cidade superior esbanjava enquanto as valas lutavam para respirar.

Ele os jogou sobre a barricada. As garrafas quicaram e bateram nos pés do Fantasma.

— Ar puro — Gabo engoliu a bile do cansaço e apontou para os cilindros. — Pra passar pelas áreas podres sem desmaiar. Mais do que você viu no mês passado. Guarda a arma e abaixa essa sucata.

O Fantasma hesitou. Baixou a espingarda devagar, surpreso com a entrega imediata de itens valiosos e sem barganha. Com um movimento ágil e sujo, chutou uma alavanca enferrujada, e uma seção da barricada deslizou de forma trôpega para o lado, abrindo uma fresta exata para que passassem um de cada vez.

Valéria o seguiu. — Troca ilógica detectada. Suprimentos vitais doados a entidade de baixo valor. Previsão de risco ambiental para nós mesmos agora é altíssima.

— O risco ambiental eu aguento na base da porrada, Val — ele devolveu, arrastando as pesadas pernas metálicas túnel adentro. — O que eu não aguento mais é ser a praga que eu jurei caçar.

E sem olhar para o Fantasma agachado abraçando os cilindros, o detetive e o código morto sumiram na escuridão rumo ao Setor Hidropônico.