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Capítulo 75: Horizonte de Eventos

Uma semana depois.

O sol nasceu em Baía Cinzenta.

Era um sol fraco, filtrado por camadas de poluição residual, mas era sol. A chuva tinha parado.

Gabo estava sentado no parapeito do que restou do seu apartamento. A cidade estava em ruínas, mas estava viva. As pessoas estavam nas ruas, limpando os escombros. Não havia polícia corporativa. Não havia drones.

A Aeterna Corp tinha declarado falência e abandonado a cidade após a destruição de seus ativos globais. O "Consórcio Lázaro" estava sendo investigado por tribunais internacionais graças ao dossiê que Elena vazou.

— Café? — Val apareceu, segurando duas canecas amassadas.

— De verdade? — perguntou Gabo.

— Contrabandeado. Coisa fina.

Gabo aceitou a caneca. O cheiro era divino.

— Como está o sistema? — perguntou ele.

Val sorriu, olhando para o seu deck.

— Estável. A "Entidade" — ela não chamava mais de Dante ou Aria, mas de algo novo, uma fusão dos dois — está gerenciando a infraestrutura básica. Água, luz, hospitais. É uma utopia anarquista digital.

— Quanto tempo até tentarem tomar de volta?

— Anos. Eles têm medo de nós agora. Medo do que a Cidade pode fazer.

Gabo olhou para a rua. Viu crianças brincando em uma poça d'água. Viu um grafite novo na parede do prédio em frente: o rosto estilizado de uma menina com olhos brilhantes.

— E nós? — perguntou Val. — O que fazemos agora? Detetives desempregados?

Gabo tomou um gole do café. Ele sentiu o gosto da terra, da vida.

— A cidade ainda tem fantasmas, Val. Crimes antigos. Pessoas desaparecidas. Injustiças que o algoritmo não consegue resolver.

Ele olhou para o seu carro, o Cobalt, estacionado na rua abaixo. Estava amassado, sem para-choque, mas o motor tinha sido consertado — um trabalho meticuloso, provavelmente feito por drones noturnos.

— Alguém tem que cuidar dos casos esquecidos — disse Gabo.

Val sorriu e brindou com a caneca.

— Parceiros?

— Parceiros.

Gabo olhou para o alto, para onde a Torre Aeterna costumava arranhar o céu. Agora, era apenas um esqueleto de metal, um monumento à arrogância humana.

Mas no topo da antena mais alta, uma luz vermelha piscava.

Ponto. Traço. Ponto.

E-C-O-S.

Gabo sorriu. Ele tamborilou os dedos no coldre vazio.

O trabalho continuava. Mas pela primeira vez em muito tempo, ele não estava sozinho.

FIM