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Capítulo 224: O Preço do Ar

Trinta e uma horas parece muito quando alguém diz em voz alta.

Deixa de parecer no instante em que você calcula quanto papel cabe nas costas de três pessoas, sendo que uma delas está com um braço a menos e a outra não pode andar.

Fizemos a conta na mesa de leitura, com a lanterna de dínamo do Elias zumbindo entre nós porque ninguém confiava mais nas luzes âmbar.

— A instalação tem quatro toneladas e duzentos quilos de material físico, — Valéria informou. — Papel, microfilme e fita. O elevador de serviço suporta trezentos e cinquenta quilos por viagem, com quarenta minutos de subida e quarenta de descida.

— Doze viagens, — Elias disse.

— Trinta e sete, — ela corrigiu. — Sem contar carga e descarga. Aproximadamente cinquenta e uma horas de operação contínua, com um sistema que tem trinta e uma. E isso assumindo que o banco secundário alimenta o motor do elevador até o fim, o que ele não faz: o corte de carga acontece na décima nona hora.

Ninguém falou nada por um tempo.

— Então a gente escolhe, — falei. — A gente sobe com o que couber nas costas e deixa o resto apagar.

— Não. — A Dra. Vance disse aquilo do jeito que ela devia encerrar reuniões. — Vocês vão usar a doca.


A doca de carga não estava em planta nenhuma, o que a essa altura já era praticamente uma tradição.

Ficava atrás da galeria dos berços, numa câmara em curva com trilhos embutidos no chão e um teto abobadado de concreto armado. No centro, uma cápsula.

Não era um vagão. Era um projétil: nove metros de aço fuselado, sem janela, sem cabine, sem controle, com quatro pares de patins magnéticos e uma escotilha traseira do tamanho de uma porta de garagem.

Atrás dela, o tubo. Circular, liso, preto, mergulhando na escuridão com uma inclinação suave para cima.

— Transporte pneumático de carga, — disse a Vance, na cadeira de rodas de aço que o Elias tinha desencavado de um almoxarifado. — Construído junto com a instalação. Trinta e um quilômetros até a doca de recebimento na Velha Baía, na superfície. Sem eletrônica. Sem rede. Movido por diferencial de pressão.

— Funciona?

— O tubo é hermético e nunca foi aberto. Se a estrutura estiver íntegra, funciona. — Ela olhou para a cápsula. — Cabe o arquivo inteiro e cabem vocês.

Elias soltou o ar todo de uma vez.

— Então acabou? A gente carrega, entra e vai embora?

— Não.

Claro que não.

A Dra. Elara Vance apontou para a parede do fundo, onde o tubo encontrava a câmara.

Havia uma comporta ali. Circular, de aço, com quatro metros de diâmetro — irmã gêmea daquela que eu abri no volante, na hora mais longa da minha vida.

— A comporta de pressurização, — ela disse. — Ela precisa ficar aberta enquanto a cápsula acelera, para que o diferencial se estabeleça, e fechar depois que a cápsula passa, para que o vácuo não despressurize a instalação inteira. O ciclo é de quarenta segundos.

— E o problema é...

— O problema é que o atuador hidráulico dela queimou em algum momento dos últimos sessenta anos. — Ela apontou o queixo para uma mancha de óleo endurecido no chão, preta e antiga como um borrão de sangue seco. — Sem atuador, a comporta é mantida aberta por um came mecânico que precisa ser travado à força e sustentado contra a mola de fechamento durante os quarenta segundos.

Fomos até lá.

O came era uma peça de aço maciço em forma de meia-lua, do tamanho de um assento de carro, com um encaixe onde um pistão deveria entrar. A mola de fechamento era uma barra helicoidal da grossura da minha coxa.

Valéria mediu. Levou quatro segundos.

— Duzentos e oitenta quilogramas-força, — ela disse. — Contínuos. Por quarenta segundos.

— Um homem não faz isso, — disse Elias.

— Nenhum ser humano faz isso, — corrigiu Valéria. — Eu faço uma vez.

E ela deu um passo à frente.

— Não. — Eu falei antes de pensar.

— Gabo, o cálculo é trivial. Os meus reforços de ancoragem sustentam trezentos e dez quilogramas-força por até setenta e dois segundos antes de arrancarem os pontos de fixação do meu esqueleto. Setenta e dois é mais que quarenta. Eu travo o came, vocês três embarcam, a cápsula parte.

— E você solta o came.

Pausa.

— Eu não solto o came, — ela disse. — Se eu soltar antes de a cápsula limpar o tubo, o diferencial mata vocês três. Eu seguro até o fim, e a comporta fecha comigo deste lado.

— Com trinta horas de ar.

— Com vinte e nove horas de ar e os dois braços destruídos. — Nenhuma inflexão. Nenhuma. — Eu não vou usar as vinte e nove, Gabo. Hemorragia por avulsão de ancoragem leva entre onze e dezenove minutos.

— Você está falando de morrer aqui embaixo. — Minha voz saiu esquisita. — Sozinha. No escuro. Consciente.

— Estou falando de gastar uma pessoa para tirar quatro toneladas de prova de dentro de um cofre, — ela disse. — Em Modo de Segurança essa conta é trivial, e ela fecha. É por isso que eu sou a escolha correta.

E aí eu entendi por que ela não tinha tocado no casco de aço da enfermaria.

Ela já sabia. Desde o momento em que mediu a comporta — quatro segundos depois de entrar naquela câmara, provavelmente horas antes de eu chegar perto — ela já sabia que ia terminar assim. E ela não restaurou a camada afetiva porque uma Valéria capaz de sentir não conseguiria fazer aquilo.

Ela não recusou voltar a ser gente por medo. Ela recusou porque precisava das mãos firmes para o último serviço.

— Não, — falei de novo.

— Você não vai me dar essa ordem, — ela disse. — Você já deixou isso muito claro. Então eu vou tomar a decisão sozinha, exatamente como você exigiu, e a decisão é essa.

Ela virou-se para o came.

E eu olhei para o meu braço direito.

Para a garra industrial que o Vasco parafusou nos meus nervos numa clínica imunda do Distrito 4, sem servo-motor de grau militar, sem calibragem, sem anestesia decente. A coisa feia, pesada e mal-acabada que me fez gritar em todos os degraus dos últimos quarenta e dois dias. Metal cinza fosco, cheio de cicatriz de solda e fio exposto.

Uma prótese hidráulica não calibrada.

Não calibrada significa sem limitador de curso.

— Valéria, — falei bem devagar. — Qual é a força de pico da minha prótese?

Ela parou.

Virou.

E ficou olhando para o meu braço por dois segundos inteiros — dois segundos, na coisa que decide em milissegundos — antes de responder.

— Trezentos e quarenta quilogramas-força, — ela disse. — Por menos de um segundo, antes de queimar o servo. É por isso que o Vasco instalou bloqueios de segurança no sistema nervoso.

— E eu já passei por cima desses bloqueios com comando neural bruto. Duas vezes.

— Sim.

— Se eu travar a garra no encaixe do came, com o punho em extensão máxima e o bloqueio desligado, o que acontece?

Ela demorou.

— O atuador entra em travamento hidráulico permanente, — ela disse. — A prótese vira uma cunha de aço sólido. Ela sustenta o came indefinidamente. Não por quarenta segundos: para sempre.

— E o braço?

— Fica preso a ela.

O zumbido da bomba enchia a câmara. Ninguém dizia nada.

— Gabo, — Elias falou, e a voz dele estava horrível. — Não.

— Já foi decidido.

— Você vai perder o braço de novo!

— Eu vou perder um pedaço de metal que um açougueiro parafusou em mim, Elias. — Levantei a garra e olhei para ela, para os sulcos de solda, para o fio exposto. — Essa coisa não é minha. Ela nunca foi. Ela é o preço que eu paguei para continuar em pé, e ela doeu todo dia desde o dia um, e eu me recusei a consertar a falha porque a dor me servia. — Fechei os dedos mecânicos. Guincharam. — Se essa merda vai ficar aqui embaixo segurando uma porta para sempre, então pelo menos ela vai ter servido para alguma coisa que não seja me manter acordado.

— E o toco? — Valéria perguntou. — Você já está com sepse. Uma desarticulação de emergência sem cauterização adequada, no seu estado, tem probabilidade de sobrevivência de—

— Não me diz. — Olhei para ela. — Sério. Pela primeira vez desde o Distrito 4, não me diz o número.

Ela fechou a boca.

E então — e eu vou levar isso comigo — a Valéria fez uma coisa que não estava em cálculo nenhum.

Ela estendeu a mão e encostou dois dedos no meu antebraço de carne. Só encostou. Ficou assim por talvez um segundo e meio.

Depois recolheu a mão e disse, com aquela voz plana de sempre:

— Vou preparar a serra.

Do outro lado da câmara, a Dra. Elara Vance nos observava da cadeira de aço com os olhos azul-gelo, e pela primeira vez em sessenta e um anos ela não estava auditando nada.

— Comecem a carregar, — ela disse, muito baixo. — Nós temos vinte e nove horas.