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Capítulo 46: O Dilúvio
Três meses após a Queda da Torre.
O nível do mar estava subindo. Não de forma metafórica, como a violência ou a corrupção que sempre inundavam Baía Cinzenta. Desta vez, era água mesmo. O Dilúvio, como os noticiários apelidaram, era uma realidade fria e úmida.
A maré alta no Distrito da Ferrugem agora lambia os calcanhares dos prédios residenciais. As ruas mais baixas haviam se tornado canais permanentes de água salobra e óleo.
Gabriel Moretti observava a linha d'água da janela de seu novo escritório improvisado. Não era mais um buraco no subsolo, mas um segundo andar de uma antiga loja de peças náuticas. Tinha vista para o cais. E para a destruição.
— O café está horrível — disse Valéria, sentada no balcão, desmontando um drone que parecia um inseto gigante. Seu cabelo holográfico estava roxo, pulsando em um ritmo lento.
— É café solúvel vencido — respondeu Gabo, virando-se. Ele parecia mais leve. A barba estava aparada. A tensão constante nos ombros havia diminuído, mas não desaparecido.
De repente, os comunicadores da delegacia ganharam vida com um chiado de pânico. A voz do Capitão Vilar, distorcida pela estática, gritava ordens incompreensíveis.
— Val, o que é isso? — perguntou Gabo, a tranquilidade se esvaindo.
Valéria conectou-se à rede da polícia. Seus olhos se arregalaram. — Múltiplos ataques. Coordenados. Aeterna. Mas não são os ciborgues de sempre. São... diferentes. Mais rápidos. Mais fortes.
Gabo pegou a "Caronte" que descansava sob a mesa. — Onde?
— Em todo lugar. Mas o pior é na Orla Norte.
A cena na Orla Norte era um pandemônio. Viaturas em chamas, policiais recuando sob fogo pesado de armas que Gabo nunca tinha visto. Os agressores eram figuras humanoides, mas grotescamente alteradas. Bio-Soldados. Sua pele tinha um brilho fosforescente, e seus movimentos eram uma mistura de fluidez animal e precisão militar.
No meio do caos, um container de carga, arrastado pela maré, estava com as portas abertas. Dentro, uma única cápsula de vidro, intacta, brilhava com uma luz azul leitosa.
Dentro dela, flutuando, havia um homem em um traje de mergulho antigo.
Gabo se aproximou, usando o caos como cobertura. Ele limpou o vidro com a luva. O rosto...
— Impossível — sussurrou ele.
Valéria, ao seu lado, acessou o banco de dados. — Arthur Vance. Fundador da Aeterna. Morto há quarenta anos.
De repente, a luz da cápsula mudou de azul para vermelho. Um alarme soou. O líquido começou a drenar.
Os olhos de Arthur Vance se abriram. Eram totalmente negros.
"Onde está o meu Filho?" — a voz, uma mistura de estática e metal rasgando, ecoou na mente de Gabo, não pelos seus ouvidos.
O vidro da cápsula estalou.
No mesmo instante, os Bio-Soldados intensificaram o ataque, como se respondessem a um comando silencioso. Eles não estavam atacando a esmo. Estavam criando uma distração.
— Gabo, temos que sair daqui! — gritou Valéria, puxando-o para trás de uma viatura virada.
Quando olharam novamente, a cápsula estava vazia. Pegadas molhadas e pesadas seguiam em direção à cidade, ignoradas pelos Bio-Soldados que agora focavam em dizimar as forças policiais.
A Maré não apenas trouxe a água. Ela trouxe o Imperador. E seu exército.
