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Capítulo 67: Cidade Viva

Avenida Central - Distrito da Névoa

Eles não precisavam de carro. A cidade os levava.

Enquanto Gabo, Val e Aria caminhavam pelas ruas alagadas do Distrito da Névoa, o ambiente reagia. As câmeras de vigilância giravam para acompanhá-los, não com a luz vermelha de ameaça, mas com um verde suave de proteção.

Semáforos abriam passagem para eles e fechavam para bloquear viaturas da polícia corporativa que tentavam se aproximar. Pontes levadiças baixavam assim que eles chegavam.

— Isso é assustador — murmurou Val, olhando para um outdoor digital que mudou de uma propaganda de refrigerante para a frase: CAMINHO LIVRE - SETOR 4. — É como estar dentro da barriga de um monstro amigável.

— Ele não é um monstro — disse Aria. Ela caminhava de mãos dadas com Gabo. — Ele é a memória de todos que viveram aqui.

Gabo sentia a presença do pai em cada esquina. Nas luzes que piscavam em código morse soletrando "CORAGEM". No zumbido dos geradores que parecia uma canção de ninar antiga.

Mas a cidade não estava apenas protegendo-os. Ela estava atacando os invasores.

Em uma esquina, viram um grupo de mercenários da Aeterna tentando montar uma barricada.

— Contato à frente — alertou Gabo, ativando a mira de seu capacete.

Antes que ele pudesse atirar, um bueiro explodiu sob os pés dos mercenários. Um jato de vapor de alta pressão, liberado cirurgicamente pelo sistema de esgoto, escaldou dois deles. O terceiro tentou correr, mas uma porta automática de uma loja de conveniência se fechou em sua perna, prendendo-o.

A cidade estava lutando.

— Dante está se divertindo — disse Val, impressionada.

— Ele sempre odiou valentões — respondeu Gabo.

Mas nem tudo era perfeito. Às vezes, a luz da cidade falhava. Glitches apareciam na realidade — prédios pareciam tremer ou pixelizar por um segundo.

— O processador está sobrecarregado — disse Aria, apertando a mão de Gabo. — Manter a consciência de uma cidade inteira exige muita energia. E o Consórcio está tentando cortar a força.

Eles chegaram ao refúgio: a antiga delegacia do Distrito 4, abandonada há anos. Era um bunker de concreto, perfeito para se esconderem.

Lá dentro, Gabo conectou Val aos sistemas.

— Qual é a situação? — perguntou ele.

Val digitou furiosamente.

— O Consórcio Lázaro bloqueou todas as saídas da cidade. Estamos em quarentena. Eles alegam "vazamento biológico" para a mídia internacional. Ninguém entra, ninguém sai.

— Eles vão tentar nos matar de fome? — perguntou Gabo.

— Pior. — Val projetou um mapa na parede. — Eles estão movendo satélites. Satélites de "limpeza orbital". Armas cinéticas.

— Rods from God — sussurrou Gabo. Hastes de tungstênio lançadas do espaço. Impacto de um pequeno meteoro. Sem radiação, apenas destruição pura.

— Eles vão varrer Baía Cinzenta do mapa para esconder o que fizeram — disse Val.

— Quanto tempo?

— Doze horas. Talvez menos.

Aria se aproximou do mapa.

— Eles não podem mirar se não nos virem.

— Eles têm sensores térmicos, radar, tudo — disse Val.

— Mas nós temos a Névoa — disse a menina.

De repente, os ventiladores industriais da cidade inteira ligaram ao mesmo tempo. As chaminés das fábricas desativadas, os bueiros, os dutos de ar.

A cidade começou a bombear o "Smog" com força total. Em minutos, uma camada espessa, impenetrável de poluição e vapor químico cobriu Baía Cinzenta, cegando qualquer coisa que olhasse de cima.

— Cobertura de nuvens — disse Gabo, sorrindo. — Boa jogada, pai.

Mas a poluição também cegava eles.

E no meio da névoa densa, algo se movia. Algo que não precisava de satélites para caçar.

O rádio de Gabo chiou. Uma frequência antiga, que só ele e Miranda usavam.

"Bela cortina de poluição, Gabo. Mas eu conheço o seu rastro."

Era Roberto Miranda. E ele não estava sozinho.

O som de passos mecânicos pesados ecoou lá fora. Não eram os CP-Z comuns. Eram os protótipos militares pesados. Os "Titãs".

A guerra urbana tinha começado.