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Capítulo 223: A Auditora

As duas chaves giraram juntas.

Elias contou até três com a voz tremendo e nós dois viramos ao mesmo tempo, e o som foi de duas travas mecânicas pesadas caindo em um encaixe que esperava aquilo há anos. Um estalo gordo, satisfeito, de coisa bem feita.

O berço soltou pressão pelas laterais. Vapor branco escorreu pelo chão de epóxi e se dissipou sem deixar cheiro.

A tampa de vidro subiu quinze centímetros e parou.

Por três minutos inteiros não aconteceu absolutamente nada, e eu comecei a achar que a gente tinha matado a mulher.

Aí ela inspirou.

Foi horrível. Foi o som de alguém aprendendo a respirar do zero, com pulmões que passaram anos sendo ventilados por máquina, e ela tossiu, e a tosse foi seca e feia e sem força nenhuma, e a mão dela — perfeita, com as unhas ainda feitas — se ergueu quinze centímetros e caiu de volta no forro branco.

Elias correu para ajudar. Eu segurei o braço dele.

— Espera.

— Ela está sufocando!

— Ela está calculando.

E estava.

Porque, entre uma tosse e outra, com o corpo inútil e a garganta em carne viva, os olhos azul-gelo da Dra. Elara Vance já tinham varrido a galeria inteira, contado três intrusos, medido o meu ombro sangrando, identificado os implantes de Valéria e registrado a mochila do Elias.

Ela estava trabalhando. Meio morta, e trabalhando.

A quarta tentativa de falar saiu como som.

— Vocês... — A voz era um sussurro rasgado. — Vocês demoraram.

Puxei uma banqueta e sentei ao lado do berço, porque em pé eu já não estava mais.

— A cidade atrapalhou.

Ela virou a cabeça — dois centímetros, e custou tudo que ela tinha — e me olhou de perto.

— Moretti. — Alguma coisa muito pequena mudou no rosto dela. — O mais velho.

— O senhor meu pai avisou.

— Avisou. — Ela fechou os olhos. — Ele avisou em fita, em papel timbrado e na minha cara. Foi o único de todos vocês que fez a coisa direito.


Levou quase uma hora até ela conseguir sentar.

Valéria a hidratou com soro de sessenta anos que ainda estava bom, e mediu tudo, e informou em voz alta os números que ninguém pediu. Elias arrumou uma manta térmica. E a Dra. Elara Vance, com a coluna apoiada na parede branca e as pernas ainda mortas dentro do berço, começou a falar do jeito que ela devia falar em reunião de diretoria: em ordem, sem adjetivo, sem pedir desculpa.

— Vocês encontraram o arquivo.

— Encontramos.

— Então vocês sabem que eu escrevi o memorando.

— Sabemos. — Tirei a folha do bolso do casaco, dobrada em quatro, e a coloquei no forro branco ao lado da perna dela. — "O protocolo funciona. O protocolo é indefensável." E aí a senhora explicou como fazer em escala.

— Sim.

— Sem "mas"?

— Não há "mas", inspetor. Eu escrevi aquilo. Eu sabia o que era. Eu recomendei prosseguir. — Os olhos dela não desviaram um grau. — O senhor veio até aqui esperando encontrar uma mulher que se arrependeu?

— Eu vim esperando encontrar um cadáver.

— Que decepção para nós dois.

Elias soltou um som pequeno atrás de mim. Acho que era uma risada assustada.

— Por que a senhora escreveu aquele parágrafo? — perguntei.

— Porque era verdade. — Ela ajeitou a manta com um movimento que quase não saiu. — Um programa de mineração cognitiva em pequena escala é um crime rastreável com cinco réus e um júri. O mesmo programa em escala municipal é infraestrutura. Ninguém processa infraestrutura. Eu não inventei essa regra, inspetor. Eu apenas fui a única pessoa naquela sala honesta o bastante para escrevê-la no papel.

— A senhora chama isso de honestidade.

— Eu chamo isso de auditoria. — Um sopro. — A diretoria já tinha decidido prosseguir antes de me contratar. Eles não queriam um parecer; queriam uma assinatura. Se eu tivesse recomendado o encerramento, eles teriam engavetado o meu memorando, prosseguido do mesmo jeito, e feito mal feito — com meia dúzia de mortos por semana e nenhum registro. — Ela finalmente desviou o olhar. — Eu recomendei escala porque escala exige documentação. E documentação é a única coisa que sobrevive à empresa.

Eu levei um tempo para respirar depois disso.

— A senhora está me dizendo que ajudou a construir aquilo tudo... para ter arquivo.

— Estou dizendo que eu tinha duas opções ruins e escolhi a que deixava rastro. — Ela apontou o queixo na direção da porta do arquivo. — Sessenta e um anos de admissões, protocolos, nomes e datas, em papel, em microfilme e em fita, numa instalação que nunca esteve conectada a rede nenhuma. A Praga de Ferro não chegou aqui. O Jardim não chegou aqui. O Sentinel não chegou aqui. — Um sorriso mínimo, e não tinha nenhuma alegria nele. — Eles apagaram todo o resto, inspetor. Cada servidor, cada backup, cada boletim. Este é o único lugar do mundo onde ainda está escrito o que foi feito com aquelas pessoas.

— E a senhora guardou a fita do meu pai.

— Eu guardei a fita de todo mundo.

— A dele a senhora podia ter apagado. Ele pediu.

Silêncio.

— Sim, — ela disse.

— Por quê?

E, pela primeira vez, a Dra. Elara Vance demorou para responder.

— Porque ele foi o único inquilino que me perguntou o meu nome, — ela disse. — Todos os outros gritaram, choraram, ofereceram dinheiro ou rezaram. O Comissário Dante Moretti perguntou meu nome, ouviu a resposta, e depois passou vinte e dois minutos respondendo com precisão absoluta a todas as perguntas de um questionário que ele sabia que ia ser usado para escravizar a própria mente. — Ela olhou para o teto. — Eu perguntei por quê. No intervalo, com o gravador desligado. Ele disse: "Porque se eu mentir, a máquina que vocês vão construir vai ser pior. E é o meu filho que vai ter que enfrentar ela."

O corredor branco ficou muito quieto.

— Ele colaborou de propósito, — falei, e a minha voz não estava boa. — Ele colaborou para deixar a coisa... decente.

— Ele colaborou para deixá-la derrotável. — Ela virou o rosto para mim. — E funcionou, não é? A sua Inteligência hesitou. Ela deu pistas. Ela transformou execuções em desafios morais. Vocês a chamavam de Gamemaster, e ela era vaidosa, teatral e cheia de defeito — e cada um daqueles defeitos era o seu pai, empurrando de dentro.

Eu apertei o Colar de Sol até o metal cortar a palma. A dor veio limpa e eu deixei.

Quinze anos. Quinze anos achando que a coisa com o rosto do meu pai era uma profanação. E era. Mas era também a última coisa que ele conseguiu fazer por mim, e ele fez ela em vinte e dois minutos numa cadeira de metal, sabendo exatamente para onde estava indo.

— Por que a senhora entrou no berço? — perguntei, quando consegui.

— Porque eu ia ser apagada. — Simples, sem drama. — Quando o Krell assumiu, a primeira coisa que ele fez foi consolidar arquivos. A segunda foi eliminar quem tinha lido os arquivos antigos. Eu não fugi da queda da Aeterna, inspetor. Eu me coloquei em quarentena, junto com a única cópia física da verdade, atrás de quatro metros de chumbo, com uma tranca que exige duas pessoas do lado de fora.

— Duas pessoas.

— Duas. — E os olhos azul-gelo brilharam com alguma coisa que eu não soube nomear. — Eu projetei essa tranca pessoalmente. Uma pessoa sozinha nunca conseguiria me acordar. É preciso que duas pessoas atravessem oitocentos metros de inferno e concordem, no mesmo segundo, em girar a chave.

Ela deixou aquilo assentar.

— Eu não estava me escondendo. Eu estava aplicando um filtro. — Um sopro rouco. — Se um dia alguém chegasse até aqui, e ainda restasse gente suficiente no mundo para que dois deles conseguissem concordar em alguma coisa, então valeria a pena entregar o arquivo. Se viesse um só, ou nenhum, o arquivo morreria comigo e não faria falta.

Elias, atrás de mim, falou baixinho:

— A gente passou no teste?

A Dra. Elara Vance olhou para ele. Para o macacão imundo, para a lanterna de dínamo, para os dentes estragados, para as mãos que ainda tremiam.

— O senhor girou a chave, — ela disse. — O senhor é o teste inteiro.


Foi nesse momento que a luz mudou.

As luminárias embutidas no teto, apagadas desde que a gente entrou, acenderam de uma vez em toda a extensão da galeria — não em branco, mas em âmbar. Um âmbar lento, quente, de aviso educado.

Em algum lugar atrás das paredes, uma bomba entrou em funcionamento com um zumbido grave.

Valéria levantou a cabeça.

— Consumo de reserva, — ela disse. — A sequência de despertar drenou o banco primário. O sistema acaba de transferir a carga para o secundário.

A Dra. Vance fechou os olhos e assentiu, como quem confere um item numa lista.

— Doutora, — falei. — Quanto tempo esse lugar aguenta agora?

E ela respondeu sem hesitar, porque ela já sabia a resposta havia sessenta e um anos:

— Trinta e uma horas.