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Capítulo 197: A Gravidade do Lodo
Os oitocentos metros de distância pareciam se multiplicar a cada passo, como se estivéssemos rastejando pelo intestino de uma besta moribunda. As catacumbas do Setor 6 eram um labirinto esquecido de engenharia brutalista. Arcos manchados de concreto gotejavam fluidos oleosos sobre um piso inundado, onde a água fedia a metal oxidado e desespero.
Elias choramingava a cada respingo. Sua lanterna tremia histericamente, projetando sombras erráticas que dançavam sobre os canos grossos nas paredes. Valéria, fiel ao seu Modo de Segurança, movia-se com uma eficiência pavorosa. Seus sensores ópticos emitiam um feixe azul-pálido, cortando a escuridão sem um pingo de hesitação, fadiga ou empatia. Para ela, o ambiente não era opressivo; era apenas um conjunto de dados a ser processado.
Eu arrastava meu corpo quebrado, pagando pedágio à gravidade a cada passo. A dor no meu ombro estilhaçado era um inferno particular. Eu mantinha minha mão boa cravada sobre o ferimento recém-dilacerado, apertando a carne esfarrapada de propósito. A fisgada aguda de agonia subia pela minha nuca. Eu precisava daquilo. Sem o choque bruto da dor física, o ar podre da catacumba começava a se distorcer, impregnando minhas narinas com aquele cheiro inconfundível, denso e nauseante. Fumaça de charuto. O cheiro de Dante. A alucinação fantasma se enrolava na minha traqueia, ameaçando me sufocar com o peso de uma memória que eu tentava sepultar sob toneladas de concreto.
— Obstáculo detectado, — a voz de Valéria quebrou o silêncio, um zumbido sintetizado e sem inflexão.
Nós paramos. À nossa frente, a passarela de cimento havia colapsado, dando lugar a um abismo raso de água negra e agitada. O único caminho era uma estrutura precária de canos expostos e grades enferrujadas que se estendia sobre a falha. Pior do que a ferrugem, no entanto, era a praga. As raízes bioluminescentes do Jardim, com suas veias azuladas e doentes, haviam se enroscado na estrutura de metal. A biomassa pulsava letargicamente no escuro, aguardando.
— A integridade estrutural da ponte improvisada é de quatorze por cento, — Valéria calculou, escaneando a massa. — O peso combinado resultará em falha catastrófica. Além disso, a biomassa apresenta reatividade ao calor e ao impacto. Risco de assimilação celular: crítico.
Elias recuou, colando as costas em um pilar úmido. — Não dá. Acabou. Se a gente pisar ali, aquela... aquela coisa vai nos devorar.
Eu cuspi um coágulo de saliva e sangue na água escura. O maldito cheiro fantasma de tabaco velho rastejou pelos meus seios da face. Cravou ainda mais os dedos no meu ombro, rasgando a pele até sentir a borda de um tendão exposto. O pico de dor incandescente despedaçou a alucinação instantaneamente. Minha mente voltou ao presente fétido de lodo e ozônio.
— Nós não vamos recuar, — murmurei, minha voz soando como cascalho triturado em engrenagens enferrujadas. — A gente atravessa. Um por vez.
Valéria virou seu olhar pálido para mim. — Gabo. Seus sinais vitais indicam exaustão terminal. A perda volumétrica de sangue comprometeu sua coordenação motora. A probabilidade de você escorregar na biomassa é estatisticamente inaceitável. A lógica dita encontrar uma rota alternativa, mesmo que o desvio consuma sete horas adicionais.
— Em sete horas eu já sangrei até secar, lata velha, — rosnei, o cinismo transbordando para disfarçar o tremor nas minhas pernas. — Elias vai primeiro. Ele é o mais leve e o que tem mais pressa de viver.
Elias sacudiu a cabeça freneticamente. — Eu? Não! Eu vou cair! Eu morro!
Dei um passo pesado na direção dele, a bota da perna mecânica ecoando com um baque surdo. Ergui o braço direito — a grotesca prótese industrial de sucata — e agarrei o colarinho sujo dele. As juntas de metal rangeram como um protesto violento.
— Escuta bem, Elias, — eu disse baixo, apoiando meu equilíbrio apenas no ódio e na dor aguda que irradiava pelo corpo. — Você prefere morrer ali, lutando pra atravessar, ou quer que eu te deixe aqui no escuro para o Jardim crescer nos seus pulmões? Escolhe. Eu não tenho paciência nem sangue sobrando pra negociar com covarde.
Ele engoliu em seco. Lágrimas limparam trilhas na fuligem do seu rosto. Ele assentiu devagar.
Eu o soltei. Elias se aproximou da grade, os passos hesitando no precipício. Ele subiu no primeiro cano enferrujado. As veias azuis da biomassa se contraíram levemente com a vibração, mas permaneceram passivas. Ele rastejou, centímetro por centímetro agonizante, suspenso sobre a escuridão absoluta.
Valéria processou a cena sem piscar. — A frequência cardíaca do sujeito denota pânico extremo. Secreções sudoríparas estão aumentando a condutividade da superfície de atrito. Tática ineficiente.
Elias alcançou o outro lado e desabou num monte de membros trêmulos.
— Sua vez, — eu disse para ela.
Ela não discutiu. No Modo de Segurança, comandos eram executados se estivessem dentro dos parâmetros de sobrevivência tática. Ela pisou na grade. O equilíbrio dela era impossivelmente perfeito, mas o metal gritou assim mesmo. As veias azuis pulsaram com mais intensidade, uma reação doentia ao campo elétrico dos implantes dela. Ela atravessou em segundos, um fantasma de lógica pura, deixando a ponte tensionada e estalando.
Era a minha vez.
Olhei para a extensão oxidada. As raízes pulsantes pareciam uma mandíbula aberta esperando minha falha. A náusea voltou, e com ela, a sufocante lufada fantasma de fumaça invadiu minha garganta. Eu via o sorriso presunçoso de Dante Moretti na neblina ilusória da minha mente.
Eu precisava de uma âncora maior.
Levantei meu pesado braço industrial e bati o cotovelo de ferro bruto diretamente contra a quina de concreto da parede. O impacto mandou uma onda de choque de pura agonia não filtrada subindo pela minha espinha. A dor obliterou qualquer ilusão, queimando a fumaça de charuto da minha cabeça. Arfei violentamente, o ar frio e podre finalmente inundando meus pulmões. O gosto de sobrevivência era metálico e miserável.
Pisei na ponte. Minha perna mecânica choramingou, o pistão triturando areia e ferrugem. O peso descalibrado fez a estrutura ranger.
No meio da travessia, uma massa espessa de raízes azuis subitamente disparou do lodo, enrolando-se no meu tornozelo hidráulico como uma serpente de vidro.
— Gabo, — a voz de Valéria soou do outro lado, distante e fria. — Enredamento detectado. Amputação da prótese inferior recomendada caso o casulo biológico inicie a digestão ácida.
Eu não respondi. Não tinha fôlego para gastar. Ergui o pesado braço direito e desferi um soco brutal, reto e primitivo na biomassa enrolada na minha perna. A prótese não calibrada soltou um chiado de despressurização quando os nós dos dedos de aço maciço esmagaram o tecido biológico, espalhando uma seiva grossa e brilhante por todo lado.
A força do impacto, a vibração correndo de volta pelo braço, a dor excruciante que se conectou com o ombro já destroçado... era uma sinfonia terrível. Uma punição corporal que me mantinha perfeitamente são no centro daquele inferno biológico.
Puxei minha perna livre com um estalo molhado e tropecei a distância restante, caindo de joelhos no concreto sólido ao lado de Elias. Fiquei ali por longos segundos, escutando o ritmo quebrado e exausto da minha própria respiração.
Valéria olhou para baixo, analisando meu estado patético. — Integridade crítica, porém mantida. Prossiga o deslocamento. Faltam setecentos e quinze metros para o poço de elevação.
Empurrei o chão, ignorando a poça de sangue escuro que pingava do meu ombro. A cidade inteira era um cadáver apodrecendo, e nós éramos os vermes rastejando em suas artérias mortas. Eu não esperaria nada diferente.
— Andando, — raspei a voz, inclinando o corpo mutilado em direção à escuridão. — A desgraça não vai nos esperar sentada.