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Capítulo 43: Água Negra

O aviso de Valéria chegou tarde demais para alguns.

Na enfermaria improvisada (antiga sala de descanso dos oficiais), cinco crianças vomitavam um líquido preto. A pele delas estava pálida, as veias escuras visíveis sob a epiderme.

— Não é cólera — disse a Dra. Nise, que tinha conseguido chegar à delegacia com sua maleta médica. Ela analisava uma amostra de vômito. — É envenenamento químico agudo misturado com patógenos biológicos. Nanoplásticos corrompidos.

— Aeterna — rosnou Gabo. — Até mortos eles matam a gente.

— Precisamos de filtros de carvão ativado de grau industrial — disse Nise. — E atropina. Muita atropina.

— Onde? — perguntou Elena.

— O Hospital Central está submerso — disse Val. — Mas tem o depósito da Alfândega no porto. Eles apreendiam cargas ilegais de suprimentos médicos. Fica no Nível 20. A água ainda não deve ter chegado lá.

— Deve estar cheio de saqueadores — disse Jonas, entrando na sala.

— Ou coisa pior — disse Gabo. — O Sindicato controla o porto.

Ele checou a carga da "Caronte". Dois cartuchos.

— Eu vou — disse Gabo.

— Eu vou junto — disse Elena. — Você não consegue carregar caixas com esse joelho.

— E quem cuida do forte? — perguntou Gabo.

— Jonas — disse Elena. — É a chance dele de não ser um covarde por um dia.

Jonas engoliu em seco, mas assentiu.

— Tragam a atropina. Eu seguro as pontas.

Gabo e Elena saíram na chuva, entrando no barco inflável que tinham confiscado. O motor de popa tossiu e pegou. Eles navegaram pelas ruas que um dia foram asfalto, agora rios de morte negra.