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Capítulo 53: Café, Código e Conspiração
A chuva batia na vitrine da "Cafeteria do Fim do Mundo" com uma insistência rítmica. Era um estabelecimento irônico no Distrito da Ferrugem: um lugar que servia café de verdade (contrabandeado, claro) em canecas de cerâmica lascada, enquanto o resto da cidade bebia ração sintética em tubos de plástico.
Gabo segurava a caneca com as duas mãos, sentindo o calor penetrar em seus dedos frios. As órteses nas pernas zumbiam suavemente, em modo de repouso, sob a mesa de fórmica gasta.
Valéria estava sentada à frente dele, mexendo em seu deck com uma mão e comendo um pedaço de torta de origem duvidosa com a outra. O cabelo dela, agora roxo néon, iluminava o rosto pálido.
— Você está quieto demais — disse ela, sem levantar os olhos da tela holográfica.
— Estou pensando — murmurou Gabo.
— Em quê? Na Clara? No vigilantismo do "Santo"? Ou no fato de que estamos tecnicamente mortos para o sistema?
Gabo suspirou. Ele olhou para Val. Nas últimas semanas, entre tiroteios, fugas e hospitais clandestinos, ela tinha sido a única constante.
— Estou pensando em por que você ainda está aqui, Val. Eu sou um ímã de desastres. Minha mãe morreu sozinha. Minha irmã me odeia. Metade da cidade quer minha cabeça.
Val parou de digitar. Ela desligou o holograma e olhou para ele. Seus olhos cibernéticos suavizaram.
— Porque alguém tem que impedir você de se matar, Gabo. — Ela estendeu a mão sobre a mesa e tocou a dele. A pele dela era fria, mas o toque era elétrico. — E porque... bem, o café aqui é ótimo.
Gabo sorriu, um sorriso raro e cansado. Ele virou a mão e segurou a dela.
— Obrigado.
Ficaram assim por um momento, em silêncio, cercados pelo cheiro de café torrado e chuva velha. Foi um momento de paz roubado do apocalipse. Uma confraternização silenciosa de dois soldados em uma trincheira.
— Ah, falando em "por que estamos aqui" — Val recolheu a mão, quebrando o momento, mas com um sorriso tímido. — Eu terminei de analisar os dados brutos que recuperamos da Torre. Aqueles que o Miranda tentou apagar.
Gabo endireitou-se, o modo detetive ativando instantaneamente.
— E?
— Lembra da foto? — Val projetou uma imagem pequena entre as xícaras de café. Era a foto de Gabo criança, encontrada nos arquivos do Gamemaster. — Nós achamos que a IA tinha roubado isso dos arquivos da sua mãe para te manipular. Para criar um vínculo emocional falso.
— Sim. Guerra psicológica.
— Não. — Val balançou a cabeça. — Eu rastreei a origem do arquivo. O upload não veio de fora. Veio de dentro do núcleo do processador biológico.
Gabo franziu a testa.
— Do meu pai?
— O código tem a assinatura neural de Dante Moretti. Mas não é código de máquina, Gabo. É orgânico. Ele usou as sinapses do próprio cérebro para reescrever o protocolo de segurança.
Val ampliou a imagem. O código binário ao redor da foto formava um padrão.
— Ele não foi apenas uma bateria, Gabo. Ele foi um vírus. Ele sabia que a IA tentaria controlar a cidade. Ele sabia que não podia vencer sozinho. Então ele plantou a foto. Ele plantou as falhas. Ele guiou o Gamemaster para cometer erros específicos que você notaria.
Gabo sentiu um nó na garganta.
— Ele sabia que eu viria.
— Ele apostou tudo em você. — Val sorriu. — O velho era um estrategista até o fim. Ele hackeou Deus com a própria alma.
Gabo olhou para a chuva lá fora. Dante não tinha apenas morrido. Ele tinha lutado, em silêncio, por quinze anos, dentro de uma caixa de vidro, esperando o filho ficar pronto.
— Precisamos honrar isso — disse Gabo, levantando-se. As órteses travaram com um clique metálico. — Chega de reagir. Vamos atacar.
Horas depois, o esconderijo — o porão da antiga delegacia, agora convertida em base de operações da resistência — estava cheio.
Elena estava lá, organizando mapas físicos sobre uma mesa de bilhar. Dra. Nise ajustava os servos da perna de Gabo com uma chave inglesa. Valéria "Val" Cruz monitorava as frequências da polícia.
— Estamos sozinhos nessa — disse Gabo, olhando para sua equipe heterogênea. — O Capitão Vilar está sob custódia domiciliar. A metade honesta da polícia foi demitida ou presa. Não podemos contar com reforços.
— Melhor assim — disse Elena. — Menos gente para trair a gente.
— Qual é o plano? — perguntou Val.
Gabo apontou para o mapa na mesa.
— O Dilúvio não é um acidente natural. É engenharia. As comportas da Represa Norte não falharam. Elas foram abertas.
— Quem tem esse poder? — perguntou Dra. Nise.
— Apenas uma pessoa — respondeu Gabo. Ele jogou uma foto na mesa.
Marco Moretti. O Prefeito.
O silêncio na sala foi pesado.
— Seu irmão — disse Elena.
— Ele não é meu irmão — disse Gabo, a voz fria. — Ele é o homem que matou minha mãe para "limpar" a cidade. O plano dele é simples: inundar os Distritos Baixos, matar os "improdutivos", e reconstruir uma cidade de luxo sobre os nossos ossos. É a gentrificação final.
— Precisamos fechar as comportas — disse Glitch. — Mas o sistema é isolado. Air-gapped. Não dá pra hackear daqui.
— Então vamos até lá — disse Gabo. — Val, preciso que você prepare os drones para criar uma distração cega. Elena, você vai vazar os documentos da Aeterna para a imprensa internacional assim que começarmos. Nise, preciso de estimulantes. Muitos.
— E você? — perguntou Val.
Gabo olhou para as órteses. Ele começou a se mover, testando os limites. Chutou o ar, girou. O metal gemia, mas aguentava. Ele não era mais o policial quebrado. Ele era uma máquina de vingança.
— Eu vou ter uma conversa de família com o Prefeito.
Enquanto isso, na cobertura da Torre da Prefeitura, Marco Moretti observava a chuva.
Ele vestia um terno branco impecável, um contraste gritante com o céu cinza. Ao seu lado, hologramas mostravam os níveis da água subindo no Setor 7.
— A limpeza está 40% completa, Senhor Prefeito — disse uma voz sintética de um assistente androide.
— Ótimo — Marco sorriu. Ele tomou um gole de vinho safra antiga. — É triste, claro. A perda de vidas. Mas olhe para isso... — Ele apontou para a cidade submersa. — É como o batismo. A água leva a sujeira. Leva o crime. Leva a doença.
Ele se virou para a mesa, onde uma foto antiga da família Moretti estava em um porta-retratos de prata. Ele passou o dedo sobre o rosto de Gabo.
— Papai sempre gostou mais de você, Gabriel. Ele dizia que você tinha "coração".
Marco derrubou o porta-retratos com um peteleco, quebrando o vidro.
— Coração é uma fraqueza orgânica. Eu tenho visão.
Ele ativou o comunicador em seu ouvido.
— Comandante Kael (reconstruído)?
— Na escuta, senhor — respondeu uma voz metálica e distorcida.
— Meu irmão está vindo. Prepare o comitê de boas-vindas. E certifique-se de que a garota, Clara, esteja na primeira fila para assistir. Quero que seja... educativo.
Marco voltou a olhar para a chuva.
— Venha, irmãozinho. Vamos ver quem se afoga primeiro.
