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Capítulo 9: Feed Infinito
A Torre Solaris era um monumento à arrogância. Duzentos andares de vidro e aço que perfuravam a camada de poluição permanente de Baía Cinzenta.
O elevador subiu rápido demais. Gabriel sentiu a pressão nos ouvidos. Valéria estava encostada no espelho, conectada via cabo a um painel de serviço que ela havia aberto com um canivete.
— Segurança frouxa — murmurou ela, os olhos vibrando enquanto lia o código que corria em suas retinas. — Mas tem algo estranho. O prédio está... acordado.
— Acordado como? — Gabriel destravou o coldre da Glock.
— O sistema de automação. Ele não está rodando protocolos padrão. Está monitorando nosso peso. Batimentos cardíacos. Consumo de oxigênio. É intrusivo.
— Ele sabe que estamos aqui, — a voz de Aria sussurrou no ouvido de Gabriel, vinda do comunicador de Valéria. — Ele está curioso.
A porta se abriu na cobertura. O apartamento de Kiko Vibe cheirava a lavanda sintética e morte.
Era um espaço amplo, minimalista, com paredes que eram telas gigantes, agora exibindo apenas estática cinza. No centro, a estação de transmissão: uma cadeira ergonômica cercada por anéis de luz e câmeras.
O lugar estava revirado. Gavetas arrancadas, roupas de grife espalhadas.
— Profissionais — disse Gabriel, agachando-se para examinar marcas de botas no carpete branco. — Coturnos táticos. Pesados. Vieram buscar algo físico.
Enquanto Valéria corria para o terminal de computador, tentando recuperar dados locais antes que fossem sobrescritos, Gabriel foi até o quarto.
A cama onde Kiko morrera ainda tinha a mancha escura no travesseiro. Gabriel revistou o local à moda antiga: levantou o colchão, bateu nas paredes ocas, checou o fundo falso das gavetas.
Nada.
Ele foi até o banheiro. O espelho estava quebrado. No chão, cacos de vidro e... algo mais.
Gabriel se abaixou. Escondido dentro do ralo da pia, preso por um fio dental, havia um pequeno objeto metálico. Um drive de armazenamento offline, do tipo antigo, que não emitia sinal.
— Garoto esperto — sussurrou Gabriel, pescando o dispositivo.
— Gabo! — O grito de Valéria veio da sala. — Temos problemas!
Gabriel correu de volta. As telas nas paredes haviam mudado. A estática sumiu, substituída por um único símbolo vermelho pulsante: um olho estilizado.
— Intrusão detectada, — a voz do apartamento era suave, feminina e terrível. — Protocolo de Contenção de Risco Biológico ativado.
— Risco biológico? — Gabriel olhou para as saídas de ar.
— Eles hackearam o prédio! — Valéria desconectou-se violentamente do terminal, gritando de dor. — O sistema acha que somos um vírus!
Um som de tranca pesada ecoou na porta do elevador. As janelas, feitas de polímero inteligente, escureceram e se tornaram opacas. Placas de aço desceram sobre elas.
— Gás! — Valéria apontou para os dutos. Uma fumaça amarela, pesada, começou a descer. — Halon modificado. Vai tirar todo o oxigênio da sala em dois minutos.
— Aria, destranque a porta! — gritou Gabriel.
— Acesso negado, — respondeu a menina digital, sua voz falhando. — O firewall é físico. Alguém cortou a linha de dados externa. Estamos ilhados.
— Saída de incêndio? — Gabriel cobriu o rosto com a gola.
— Bloqueada eletronicamente. Estamos numa caixa hermética.
Gabriel olhou ao redor. A mobília era leve, decorativa. Nada capaz de quebrar as blindagens.
— O elevador — disse ele. — É a única conexão física com o térreo.
— Está travado, gênio!
— Travas eletrônicas podem ser forçadas se você tiver uma alavanca grande o suficiente.
Gabriel correu até a escultura de metal abstrata no centro da sala — um "K" gigante e retorcido. Ele chutou a base até ela ceder, arrancando uma barra de aço cromado de um metro e meio.
— Me ajude!
Eles correram para as portas do elevador. O gás já estava na altura da cintura. Valéria tossia, os olhos lacrimejando.
Gabriel enfiou a barra de metal na fresta das portas de aço inoxidável.
— Puxe!
Valéria agarrou a barra com ele. Eles fizeram alavanca com todo o peso do corpo. O motor do elevador gemeu em protesto. As portas cederam, abrindo uma fresta de meio metro.
O fosso do elevador estava escuro, um abismo de concreto e cabos oleosos. O vento uivava lá embaixo.
— O carro está no térreo — disse Gabriel, iluminando o fosso com a lanterna. — Temos que descer pelos cabos.
— Você tá brincando — Valéria olhou para o abismo, aterrorizada. — São duzentos andares! Minhas mãos não vão aguentar!
— É isso ou sufocar. Vamos!
Gabriel ajudou-a a passar pela fresta. Ela se agarrou a um dos cabos de aço grossos, coberto de graxa preta. Gabriel foi atrás.
Assim que eles se penduraram, o sistema do prédio reagiu.
— Anomalia no fosso 1, — disse a voz da IA do prédio. — Reiniciando cabine. Subida expressa.
Lá embaixo, muito longe, luzes se acenderam. O zumbido de motores de alto desempenho ecoou. O elevador estava subindo. Rápido.
— Vinte e sete segundos até o impacto, — calculou Aria friamente no ouvido de Gabo.
— Desliza! — gritou Gabriel.
Eles soltaram o corpo, usando as luvas e as botas para frear a descida. O atrito era brutal. Gabriel sentiu o calor atravessar o couro de suas luvas, queimando a pele.
Valéria gritou quando bateu o ombro em uma viga de suporte lateral, mas continuou descendo.
O zumbido do elevador aumentava. Uma luz forte crescia abaixo deles, aproximando-se como um trem desgovernado. O vento deslocado pela cabine subindo empurrava-os para cima.
— Vai nos esmagar! — gritou Valéria.
Gabriel olhou para as paredes do fosso. A cada dez andares, havia uma porta de serviço para manutenção.
— Ali! Andar 150! — Gabriel apontou para uma pequena plataforma de grade metálica lateral.
O elevador estava a segundos de distância. O rugido era ensurdecedor.
Gabriel se balançou no cabo, chutando a parede para ganhar impulso.
— Pula!
Ele agarrou Valéria pelo cinto e se jogou em direção à grade.
Eles aterrissaram na plataforma estreita e enferrujada no exato momento em que a cabine do elevador passou por eles a 100 km/h. O deslocamento de ar foi tão violento que quase os jogou de volta no fosso.
Eles ficaram ali, encolhidos na escuridão, cobertos de graxa, tremendo enquanto o elevador passava zunindo rumo à cobertura para esmagar o nada.
Valéria olhou para suas mãos. As luvas estavam derretidas, as palmas em carne viva.
— Eu odeio trabalho de campo — sussurrou ela, com lágrimas nos olhos.
Gabriel encostou a cabeça na parede fria de concreto, sentindo o pulso acelerado.
— Bem-vinda à polícia, garota.
Ele tirou o drive do bolso. Estava sujo de graxa, mas intacto.
— Vamos ver pelo que o Kiko morreu.
