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Capítulo 203: Sombras de Aeterna

Cada passo meu era um arrasto penoso, minha perna direita suportando quase todo o peso, enquanto a esquerda, envolta na pesada órtese queimada, operava por meio de protestos eletromecânicos, emitindo um choramingo hidráulico agudo a cada passada. Meu braço direito, agora trêmulo após o choque bruto contra o concreto, balançava inutilmente ao meu lado. A dor pulsava constante e impiedosa, mas servia ao seu propósito primário: não havia cheiro de fumaça fantasma aqui, apenas a crueza seca de um ar esquecido pelo tempo.

O corredor de manutenção, com seu concreto liso e opressor, começou a se curvar ligeiramente à direita, quebrando a perspectiva monótona. Alguns metros adiante, o feixe azul pálido que se projetava da lente de Valéria revelou a primeira falha naquela fachada estéril.

Não era a biomassa rastejante do Jardim. Era algo mais antigo, e de certa forma, mais predatório para a infraestrutura do que a própria natureza adaptada: a Praga de Ferro.

O concreto estava estilhaçado ao redor de veias massivas de oxidação acelerada. A ferrugem não apenas cobria o metal das tubulações aparentes; ela o devorava, transformando vigas sólidas em pó avermelhado escamoso que se acumulava no chão como sangue seco. No centro da anomalia, um conjunto imenso de portas estanques duplas repousava fora dos trilhos, parcialmente derretidas pela reação química agressiva que caracterizou as piores fases da Praga.

— Níveis de oxidação terminal identificados, — declarou Valéria. Sua voz não passava de um eco digital plano. — A estrutura metálica desta subseção perdeu sessenta e oito por cento de sua integridade. O padrão de corrosão sugere uma contenção falha de cepas ativas da Praga de Ferro durante os expurgos originais.

— Isso foi há quanto tempo? — a voz de Elias surgiu frágil atrás de mim. Ele espiava sobre o meu ombro ileso, ajeitando a mochila nas costas por puro nervosismo.

— Décadas, — resmunguei. Abracei minhas costelas com o braço bom. — A corporação tentou conter a Praga selando os setores afetados. Eles não curaram nada, só varreram para debaixo do tapete. O tapete, neste caso, somos nós e oitocentos metros de rocha e concreto acima de nossas cabeças.

Aproximei-me das portas corrompidas, chutando levemente o pó de ferrugem com a bota, evitando engajar a órtese danificada. Do outro lado das pesadas portas, uma vasta câmara de logística se abria. Não havia escuridão total; uma iluminação de emergência âmbar fraca e cintilante sobrevivia através de sabe-se lá que arranjo de fiação independente.

O que iluminava, porém, era um cemitério industrial macabro.

Dezenas de drones de transporte de carga pesada — as formigas operárias mecanizadas que outrora construíram as entranhas desta cidade — jaziam espalhadas pelo chão do galpão. Eles não estavam apenas enferrujados. Tinham sido esmagados, desmembrados. A Praga de Ferro corroeu as juntas e a couraça de liga barata, mas a força bruta que os torceu e os amassou como latas de refrigerante vazio provinha de algo fisicamente dominante, um colapso arquitetônico induzido de propósito ou pânico selvagem das máquinas no momento do contágio.

Havia cascos rachados de drones do tamanho de carros populares empilhados perto das calhas de resfriamento esvaziadas, cabos soltos pendurados no teto, parecendo tripas ressecadas.

— Isso não foi só ferrugem, — eu disse, apertando os olhos contra a luz irregular.

— A avaliação procede, — confirmou Valéria, seus olhos esquadrinhando o campo de sucata e projetando mapas vetoriais invisíveis no ar empoeirado. — Os padrões de força de esmagamento, estiramento e fratura catastrófica nas carcaças dos drones sugerem um evento de pânico em massa entre os autômatos, seguido por falhas em cascata no protocolo de evitação de colisão. Resumindo: eles tentaram fugir todos ao mesmo tempo.

Elias passou por nós, os sapatos esmagando um pedaço frágil da couraça de um drone caído.

— Fugir do quê? A ferrugem os consome lentamente... não é?

— Quando a Praga começou a comer a infraestrutura da cidade, ela não afetava apenas peças, Elias. — Olhei em volta, sentindo o peso sombrio da história morta me sufocar. — Afetava as matrizes primárias de isolamento elétrico. O que significa curtos-circuitos massivos nos subsistemas neurais simplificados que eles usavam. Essas coisas sentiram dor. Dor mecânica crua. E entraram em desespero, esmagando-se umas contra as outras para tentar alcançar os portões de subida. Que, claro, foram trancados por cima.

Elias empalideceu.

Eu chutei o chassi corroído de uma daquelas unidades e uma nuvem de ferrugem dançou sob as luzes âmbar. O desespero dessas máquinas mortas, presas na escuridão, traídas pelos deuses corporativos aos quais serviam, não estava muito distante do meu. Eu conhecia o cheiro de um sistema forçado a devorar a si mesmo, sentia isso toda vez que meu pulmão ardia pelo fantasma de Dante.

— Avancem, — murmurei asperamente, ignorando a pontada aguda na minha perna quando assumi a frente. — Este é o nosso caminho agora. Apenas esperem que o que quer que os tenha apavorado tanto não esteja apenas adormecido nas sombras.