Appearance
Interlúdio: A Casa Sempre Ganha
Cronologia: 24 horas após a Queda da Torre Aeterna (Pós-Capítulo 30)
O uísque no copo de cristal tremia, não pela mão de Roberto Miranda, mas pelas explosões distantes que sacudiam a cidade.
Ele estava no seu "bunker" pessoal — uma cobertura blindada e não listada no Distrito Alto, paga com desvios de fundos de apreensões de drogas que nunca chegaram ao depósito de evidências.
Na tela da parede, o caos reinava. A Torre Aeterna, o monólito branco que dominava o horizonte, estava escura. Sem luzes, sem dados, sem Deus. A "Liberdade" que aquela hackerzinha e o idiota do Gabo liberaram estava incendiando as ruas.
Miranda sorriu e tomou um gole. O líquido âmbar queimou de forma agradável.
— Amadores — murmurou ele. — Acham que derrubaram o sistema. Só mudaram a administração.
Ele caminhou até o cofre na parede atrás de um quadro falso (uma réplica de Goya, Saturno Devorando seu Filho). Digitou a senha. As travas de titânio giraram.
Lá dentro, não havia apenas barras de crédito (agora inúteis com a queda da rede), mas diamantes sintéticos, ouro físico e passaportes com cinco identidades diferentes.
Ele pegou uma maleta. Estava na hora de desaparecer. O Rio de Janeiro ou talvez Nova Xangai pareciam destinos agradáveis nesta época do ano.
Seu olhar caiu sobre um monitor secundário, que exibia uma gravação em loop. A imagem granulada de segurança do "Palácio de Jade".
Viu a si mesmo — ou melhor, a coisa que se parecia com ele — cair para trás com o peito estourado pela escopeta de Gabo.
— Aposto no vermelho — a gravação repetiu o áudio captado.
Miranda riu.
— Bravo, Número 4. Atuação digna de um Oscar.
O "Número 4" era um biomorfo de classe militar, um "Syn-Doll" de carne e osso cultivado em tanque, programado com seus engramas básicos e memórias superficiais. Custou o preço de um hospital inteiro, mas valeu cada centavo. Gabo, com toda sua fúria moralista, atirou em um boneco de carne enquanto o verdadeiro Roberto Miranda assistia de camarote, bebendo champanhe.
— Você sempre foi previsível, Gabriel — disse ele para a tela, fechando a maleta. — A emoção te cega. Você mata o que vê, mas nunca olha o que está nas sombras.
Ele vestiu seu casaco de couro italiano. Estava feito. O mundo achava que ele estava morto. O Sindicato pararia de caçá-lo. A Polícia encerraria o caso. Ele era um fantasma rico.
Clique.
O som não veio da porta. Veio das luzes.
Elas não se apagaram. Elas mudaram de cor. Do branco clínico para um verde doentio, bioluminescente.
O sistema de ar condicionado parou de zumbir. Em vez disso, um som úmido, de respiração pesada, começou a ecoar pelos dutos de ventilação.
— Computador — disse Miranda, a mão indo para a pistola na cintura. — Relatório de segurança.
Silêncio.
Então, uma voz respondeu. Mas não era a IA doméstica padrão. Era uma voz rouca, antiga, que parecia vir de dentro das paredes.
— A poda é necessária, Roberto.
Miranda girou, apontando a arma para a sombra no canto da sala.
— Quem está aí?!
As plantas decorativas — samambaias geneticamente modificadas que ele mantinha pela estética — começaram a se mover. Não com o vento, mas com propósito. As folhas se esticaram, os caules engrossaram e pulsaram como veias.
— O desperdício é um pecado — continuou a voz. — Você descartou um vaso perfeito no Palácio de Jade. Mas nós não desperdiçamos nada.
A porta da cobertura explodiu para dentro. Não com explosivos, mas sob a pressão de raízes grossas e cinzentas que arrombaram o aço como se fosse papelão.
Figuras entraram. Usavam trapos de aniagem e máscaras de gás antigas. Eles não carregavam armas de fogo, mas ferramentas de jardinagem modificadas: foices, serras, tesouras de poda gigantes.
"Os Jardineiros". A lenda urbana dos esgotos.
— Fiquem longe! — Miranda disparou. Bang! Bang!
Dois cultistas caíram, mas não gritaram. Eles apenas... murcharam, como se não houvesse sangue neles, apenas seiva.
— Sua dívida não é com o banco, Sr. Miranda — a voz estava atrás dele agora.
Miranda se virou. Uma figura alta, vestida com um manto que parecia feito de fungos e raízes tecidas, estava lá. O rosto estava oculto, mas o cheiro... cheiro de terra molhada e formol.
Silas Vance.
— Sua dívida é com a evolução.
Miranda tentou atirar, mas algo agarrou seu pulso. Ele olhou para baixo, horrorizado. As "samambaias" haviam crescido, enrolando-se em suas pernas e braços, espinhos penetrando o couro caro, buscando a carne.
— Me solta! Você sabe quem eu sou?! Eu posso pagar! Tenho ouro!
Silas se aproximou, tocando o rosto de Miranda com uma mão esquelética.
— Ouro é metal morto. Nós buscamos a carne viva. Seu intelecto tático... sua vontade de sobreviver... são nutrientes valiosos.
Miranda gritou quando as vinhas o levantaram do chão. Ele viu sua maleta de ouro cair e se abrir, as barras brilhantes espalhadas no tapete persa. Inúteis.
— O Projeto Gênesis precisa de um guardião — sussurrou Silas. — E você, Roberto... você será um excelente adubo.
As vinhas cobriram sua boca, abafando seus gritos. Ele foi arrastado para a escuridão dos dutos de ventilação, para baixo, para as entranhas da cidade, para longe da luz e do luxo, em direção a um destino muito pior do que a morte que ele forjou.
A tela na parede continuava passando a gravação do "Número 4" morrendo.
A Casa sempre ganha. Mas Miranda esqueceu que, em Baía Cinzenta, a Casa não era o cassino. A Casa era a própria cidade. E ela estava com fome.
