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Metadados

  • Título: Ponto de Fusão
  • Data In-Game: Pós-Colapso da Usina Prometeu (Noite Eterna)
  • Localização: Necrópole (O Estúdio do Taxidermista -> Duto de Descarte)
  • Personagens Presentes: Gabo, Valéria, Aria (Reboot), Rangel (Inconsciente), O Taxidermista (Antagonista)
  • Resumo: Com o Protocolo de Limpeza ativado, o Estúdio se transforma em uma fornalha. Valéria falha em hackear as saídas blindadas. Aria identifica um duto de descarte de biomassa como única rota de fuga. Gabo, lutando contra o calor extremo e a abstinência, usa a dor física para focar e abrir a grade superaquecida, permitindo que o grupo escape para as profundezas da Necrópole momentos antes da incineração total.

Narrativa

Capítulo 140: Ponto de Fusão

O calor não veio de uma vez. Ele cresceu, pesado e sufocante, como um cobertor de chumbo derretido.

As paredes brancas do Estúdio começaram a perder a cor, distorcidas pelas ondas de calor que emanavam dos painéis de piso. O cheiro de ozônio e sangue, que antes dominava o ar, foi substituído pelo fedor acre de plástico queimado e cabelo chamuscado.

— Temperatura ambiente: 68 graus Celsius — a voz de Aria cortou o zumbido crescente dos incineradores. Ela estava parada ao lado da maca de Rangel, seu rosto sintético amassado refletindo o brilho laranja das luzes de emergência. — Aumento de 2 graus por segundo. Colapso biológico em 90 segundos.

Gabo tossiu, o ar seco arranhando sua garganta. Ele olhou para cima. Atrás da cúpula de vidro blindado, o Taxidermista observava. Ele não sorria. Apenas assistia, com as mãos cruzadas nas costas, como um cientista observando uma cultura de bactérias ser esterilizada.

— Val! — Gabo gritou, a voz rouca. — A porta!

Valéria estava ajoelhada perto do painel de controle da entrada, os dedos voando sobre o deck holográfico. Suas projeções, antes azuis e nítidas, agora tremiam e falhavam, interferidas pelo calor excessivo.

— Não dá! — ela gritou de volta, o pânico trincando sua voz. — É hardwire! Ele cortou a conexão lógica. É um fechamento mecânico! Estamos trancados em um forno!

Gabo sentiu o suor evaporar antes mesmo de escorrer. Sua pele pinicava. O pânico de asfixia atingiu-o como um soco no estômago, engatilhado pelo cheiro de queimado que o arremessava de volta para o carro fechado de seu pai. A fumaça... não consigo respirar... A alucinação de fumaça sufocante preencheu seus pulmões, uma ameaça letal no meio do inferno.

Ele rosnou e apertou o Colar de Sol com força. O metal, já quente pela temperatura da sala, queimou a palma de sua mão. A dor foi nítida, real. Foco na dor. A dor é vida. A alucinação é morte.

— Aria! — Gabo se virou para a androide. — Saída! Qualquer uma!

Aria girou a cabeça, escaneando o ambiente. Seus olhos heterocromáticos brilharam intensamente.

— Portas seladas. Ventilação: bloqueada e revertida para injeção de oxigênio comburente. — Ela parou, fixando o olhar em uma grade escura no canto da sala, perto de onde o "Tríptico" destruído jazia em uma poça de fluido dourado fervente. — Detectada variação de pressão negativa. Duto de descarte de biomassa.

— Lixo — Gabo traduziu, correndo para a grade. — É por onde ele joga os erros.

Ele chegou à grade. Era uma chapa pesada de ferro fundido, usada para despejar os restos das "esculturas" falhas. O metal irradiava um calor furioso.

— Está soldada pela ferrugem e pela gordura! — Gabo gritou, chutando a grade. Ela nem se moveu.

— 85 graus — Aria anunciou. — Risco de falha sistêmica em Rangel: Iminente.

Gabo olhou para o vergalhão que ainda segurava. O metal estava quente ao toque. Ele o enfiou na fresta da grade.

— Val, me ajuda! — ele rugiu.

Valéria correu para o lado dele, segurando o vergalhão. Aria se juntou a eles, segurando a barra de metal com suas mãos sintéticas nuas. A pele falsa de seus dedos começou a derreter, revelando o esqueleto de titânio, mas ela não expressou dor.

— No três! — Gabo gritou. O ar estava irrespirável agora. As bordas de sua visão escureciam. O Taxidermista, lá em cima, parecia uma miragem tremulante.

— Um... Dois... TRÊS!

Eles puxaram. O vergalhão envergou. As pernas mecânicas de Gabo rangeram contra o piso quente, quase falhando. Os músculos de Gabo gritaram, tendões estalando. O cheiro de sua própria pele queimando em contato com o metal quente invadiu seu nariz, sobrepondo-se ao pânico sufocante do trauma.

CRACK.

A ferrugem cedeu. A grade foi arrancada com um som de rasgo violento e caiu para o lado, tinindo no chão.

Um buraco negro se abriu no chão branco. O cheiro que subiu dele era de podridão antiga e umidade fria. Nunca um cheiro de esgoto foi tão bem-vindo.

— Vai! — Gabo empurrou Valéria. Ela não hesitou, pulando para a escuridão.

Aria pegou Rangel nos braços com uma facilidade mecânica e pulou atrás dela.

Gabo olhou para cima uma última vez. O vidro da cúpula do Taxidermista estava começando a ficar opaco com a fuligem. O vilão tinha se virado de costas, desinteressado no final.

— A crítica ainda não acabou — Gabo sussurrou, a garganta em carne viva.

As chamas explodiram dos bocais no teto.

Gabo se jogou no buraco.

A queda foi curta e brutal. Ele bateu em uma rampa de metal oleoso e deslizou, girando na escuridão, até ser cuspido em uma pilha de algo macio e úmido.

Acima deles, um clarão laranja iluminou a abertura do duto por um segundo, seguido pelo rugido abafado do fogo consumindo o estúdio. Depois, escuridão. E o silêncio gotejante das profundezas.

— Status? — a voz de Gabo saiu como um grasnado.

— Vivos — respondeu Valéria, sua voz tremendo, vinda de algum lugar à esquerda. Uma luz azul fraca se acendeu em seu pulso.

Eles estavam em uma caverna natural, o chão coberto por uma montanha de ossos, próteses descartadas e carne em decomposição. O "lixão" do artista.

— Temperatura ambiente: 18 graus — disse Aria. Ela estava de pé, limpando um pedaço de tecido orgânico derretido de seu braço. — Rangel está estável. Mas o calor acelerou a infecção residual. Precisamos de antibióticos ou resfriamento imediato.

Gabo se levantou, limpando a sujeira da roupa. Suas mãos estavam vermelhas, cheias de bolhas onde seguraram o vergalhão e o colar. Elas tremiam. Não de medo, mas da descarga de adrenalina.

Ele olhou para a escuridão que se estendia à frente. Túneis ainda mais antigos que a Necrópole.

— Estamos no fundo do poço — disse Gabo, sentindo o latejar reconfortante das queimaduras nas mãos. — A única saída é cavar.

— Não — corrigiu Aria, seus olhos brilhando na escuridão. — A única saída é subir. E agora sabemos onde ele está.

Gabo assentiu. A dor nas mãos era uma âncora. Ele estava livre da asfixia fantasma. Ele tinha fogo suficiente por hoje.