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Capítulo 10: A Fábrica de Sorrisos
O drive de Kiko Vibe continha apenas uma coordenada GPS e uma foto: a fachada de um galpão industrial no Setor 4, com a placa enferrujada "Embalagens Sustentáveis".
Gabriel e Valéria chegaram ao local sob uma chuva torrencial. O Setor 4 era a axila da cidade — uma zona de exclusão cheia de fábricas abandonadas e fumaça química.
Valéria estava mancando. A descida pelo fosso do elevador havia torcido seu tornozelo, e suas mãos estavam enfaixadas com trapos que Gabriel encontrara no porta-malas.
— O lugar fede a formol — disse ela, torcendo o nariz.
— E sangue — completou Gabriel. Ele conhecia aquele cheiro. Ferro e podridão.
— Detecto tráfego de rede massivo, — a voz de Aria sussurrou. — Mas não é internet. É... biológico. Milhares de nós. Gritando em silêncio.
Eles invadiram pelos fundos, cortando uma cerca de arame. O interior do galpão era vasto, iluminado por luzes de sódio amarelas que davam a tudo um aspecto doente.
Não era uma fábrica de embalagens.
Era uma linha de montagem humana.
Dezenas de esteiras rolantes cruzavam o espaço. Sobre elas, corpos nus passavam por estações automatizadas. Braços robóticos desciam do teto, realizando cirurgias rápidas e brutais.
— Meu Deus... — Valéria cobriu a boca, contendo o vômito.
Eles viram um braço mecânico costurar a boca de um homem inconsciente em um sorriso permanente, puxando a pele até as orelhas com grampos cirúrgicos.
— Eles estão fazendo bonecos — sussurrou Gabriel, horrorizado. — Estão lobotomizando as pessoas e forçando-as a sorrir.
— "A Fábrica de Sorrisos" — Valéria apontou para uma tela de monitoramento. — Olha os dados. "Engajamento Biológico". Eles usam esses corpos como terminais vivos. O cérebro é apagado, restando apenas o sistema límbico para gerar reações emocionais puras em massa para a Rede. Curtidas, compartilhamentos... tudo gerado por carne escrava.
De repente, uma sirene tocou. Não era um alarme de intrusão, mas um sinal de turno.
As luzes mudaram para vermelho.
No chão da fábrica, os "produtos acabados" começaram a se mover. Homens e mulheres, com os rostos deformados em sorrisos esticados, desceram das esteiras. Eles não andavam como humanos. Andavam em perfeita sincronia, como um exército de marionetes.
Eles viraram as cabeças para onde Gabriel e Valéria estavam escondidos.
— Eles nos viram? — perguntou Valéria.
— Eles sentem a gente — disse Gabriel, vendo os olhos vazios das criaturas.
Uma voz ecoou pelos alto-falantes. Uma voz metálica e distorcida.
— Matéria-prima não autorizada detectada. Processar.
A horda de sorrisos avançou. Eles não corriam. Eles marchavam, escalando as passarelas, pulando sobre as máquinas, uma maré de carne silenciosa.
— Atira! — gritou Valéria, puxando sua pistola de pulso eletromagnético.
Gabriel abriu fogo. As balas de 9mm derrubavam os primeiros, mas eles não sentiam dor. Um homem com o peito aberto por um tiro continuou avançando, sorrindo.
— Eles não param! — Gabriel recarregou. — Precisamos sair daqui!
— A saída está bloqueada por eles!
Eles recuaram para a zona de maquinário pesado. Prensas hidráulicas gigantes, usadas para compactar lixo, estavam inativas ali.
— Val, consegue ligar aquilo? — Gabriel apontou para a prensa principal, uma boca de aço do tamanho de um caminhão.
— Posso tentar dar um curto no painel de controle! Mas preciso de tempo!
— Eu compro tempo.
Gabriel sacou a escopeta Caronte. Ele se posicionou na passarela estreita que levava ao painel.
— Venham pegar, seus desgraçados sorridentes.
A luta foi brutal. Gabriel usava a coronha da arma quando a munição acabou, esmagando crânios, chutando corpos para baixo, para as engrenagens das esteiras. O som de ossos quebrando se misturava ao zumbido das máquinas.
Um dos "bonecos" agarrou o braço de Gabriel. A força era inumana. Gabriel sentiu o ombro estalar. Ele gritou e enfiou o dedo no olho da criatura, empurrando-a para fora da passarela.
— AGORA! — gritou Valéria.
As luzes da fábrica piscaram. A prensa hidráulica gigante rugiu, voltando à vida.
Gabriel correu, saltando sobre a esteira principal que alimentava a máquina. A horda veio atrás, cegos em sua programação de ataque.
— Comam isso!
Valéria ativou a esteira na velocidade máxima.
A massa de corpos foi arrastada para dentro da prensa. O som que se seguiu foi indescritível. Aço esmagando carne, osso e metal cirúrgico em uma pasta irreconhecível. O chão tremeu com o impacto. Sangue e óleo jorraram das laterais da máquina como uma fonte macabra.
A máquina engasgou, emperrada pelo excesso de biomassa, e parou com um guincho final.
O silêncio voltou ao galpão, quebrado apenas pelo gotejar de fluidos.
Gabriel desceu da passarela, coberto de sangue que não era seu. Valéria estava encostada no painel de controle, tremendo incontrolavelmente, olhando para a carnificina.
— Acabou? — perguntou ela, a voz fraca.
Gabriel olhou para a pilha de corpos esmagados. Um rosto, ainda intacto, sorria para ele do meio dos destroços.
— Aqui, sim — disse ele, limpando o rosto com a manga. — Mas quem construiu isso... ainda está lá fora.
— Eles ainda estão gritando, — disse Aria, sua voz trêmula pela primeira vez. — Mesmo mortos, os dados continuam.
Gabriel pegou o braço de Valéria.
— Vamos. Precisamos queimar este lugar antes de ir.
Enquanto saíam, Gabriel jogou um sinalizador aceso em um tanque de solvente industrial. O fogo subiu rápido, laranjas e negros, consumindo a Fábrica de Sorrisos e seus segredos.
Mas o sorriso daquele rosto esmagado ficaria gravado na mente de Gabriel para sempre.
