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Capítulo 63: Águas Profundas

Represa de Baía Cinzenta - Nível Inferior

A entrada para o complexo de servidores ficava, ironicamente, na base da Represa que deveria proteger a cidade. Agora, ela servia como muralha para o novo reino digital.

Gabo, Val e Aria estavam molhados, sujos e exaustos. Eles tinham invadido através de um duto de escoamento desativado.

O lugar era imenso. Uma catedral de tecnologia. Fileiras intermináveis de racks de servidores se estendiam até onde a vista alcançava, submersos em piscinas de líquido refrigerante fluorocarbono.

— É lindo — murmurou Val, apesar de tudo. — E aterrorizante.

Caminharam pelas passarelas de metal acima das piscinas. Abaixo deles, milhões de luzes piscavam. Milhões de almas? Ou apenas cópias?

— Ali — apontou Gabo.

No centro do complexo, havia uma estrutura diferente. Um "Mainframe" isolado, protegido por vidro blindado e lasers.

— O Núcleo — disse Val. — Se quisermos derrubar o sistema, é lá que temos que plugar.

Mas o caminho não estava livre.

Drones de segurança patrulhavam o ar, silenciosos como tubarões. E no chão, guardas humanos. Não mercenários comuns, mas técnicos armados.

— Eu preciso chegar ao console principal — disse Val. — Posso injetar um vírus que vai corromper os dados de "imortalidade". Se apagarmos os ricos, o dinheiro do projeto seca.

— E a cidade? — perguntou Gabo.

— Se o projeto acabar, não precisam mais da enchente para resfriar isso aqui. As comportas podem ser abertas. A água baixa.

Era um plano. Arriscado, suicida, mas um plano.

— Eu dou cobertura — disse Gabo, verificando a munição restante. Eram poucas balas. — Aria, fique escondida.

Eles avançaram. Val correu para o terminal de acesso, enquanto Gabo se posicionava atrás de uma barreira de concreto.

O alarme soou assim que Val tocou o teclado.

— Intrusão detectada! — a voz do sistema ecoou.

As luzes ficaram vermelhas. Portas se abriram e guardas correram.

Gabo começou a atirar. Ele derrubou o primeiro guarda, depois o segundo. Mas eram muitos.

— Val! Quanto tempo?

— Estou quebrando a criptografia! Preciso de dois minutos!

Um drone desceu em mergulho, atirando. Gabo rolou, o tiro queimando o chão onde ele estava. Ele disparou com a escopeta, explodindo o drone.

— Um minuto! — gritou Val.

Gabo foi atingido no ombro. Ele caiu, gritando de dor. As órteses travaram de vez. Ele estava imobilizado.

Um guarda se aproximou, apontando o rifle para a cabeça de Gabo.

— Acabou, Moretti.

Gabo fechou os olhos, esperando o fim.

Mas o tiro não veio.

Houve um som de metal rasgando carne. O guarda caiu, com uma faca cirúrgica cravada no pescoço.

Gabo olhou para cima.

No alto da passarela, uma sombra observava. Não era o Santo. Era alguém mais magro, mais letal.

Um homem careca, com óculos de relojoeiro e um avental de couro.

O Taxidermista.

Ele sorriu para Gabo, limpando outra lâmina no avental.

— Ninguém mata a minha obra-prima inacabada, inspetor — disse o assassino. — Só eu.