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Capítulo 185: O Verdor Metálico

O elevador de carga parou com um rangido que soou como a espinha dorsal de um deus enferrujado se partindo. As portas de aço reforçado se abriram lentamente, vomitando um ar viciado que me atingiu como um soco no estômago.

Não era o cheiro químico de desinfetante ou o odor estéril do asfalto morto do Distrito 4. Era terra molhada, decomposição e ozônio. Mas, sob tudo isso, escondia-se o aroma adocicado, nauseante e rasteiro do charuto. O maldito tabaco de Dante.

Fechei os olhos. A fumaça invisível já começava a apertar minha garganta, sufocando meus pulmões. O cheiro fantasma de charuto serpenteou pela minha mente, trazendo a silhueta engravatada do meu pai caminhando por trás das folhas de vidro estilhaçadas da minha memória. Minha respiração falhou. O pânico, frio e absoluto, começou a esmagar meu peito. A asfixia imaginária era mais forte que a gravidade.

Eu precisava de ancoragem. Precisava da realidade.

Cerrei os dentes e acionei os servos danificados do meu braço direito. A prótese industrial grosseira, soldada por Vasco no meu coto, gemeu. Forcei o punho de ferro pesado contra a parede de metal do elevador. O solavanco da mecânica não calibrada enviou uma onda de choque de dor branca e pura rasgando pelos pregos neurais cravados na minha carne.

Minha clavícula protestou, músculos esfarrapados gritando em agonia. O sangue quente pulsou no ombro mutilado. A dor rasgou a fumaça ilusória como uma lâmina. Arfei, puxando o ar pesado da caverna de concreto e neon, finalmente respirando. A fumaça de charuto desapareceu, substituída pela agonia latente que se tornou minha única amiga leal.

— Ritmo cardíaco elevado. Possível arritmia detectada. Sugiro administração de betabloqueadores, embora nosso inventário esteja vazio.

A voz de Valéria soou oca, desprovida de qualquer inflexão ou calor. Operando no frio Modo de Segurança, ela caminhou para fora do elevador com passos milimetricamente calculados. O olho cibernético varreu o escuro, banhando o concreto molhado com um feixe infravermelho apático.

— Eu tô bem — rosnei, limpando uma gota de suor ácido da testa com a mão boa. — Guarda a bateria.

O Complexo Hidropônico do Setor 7 se abria diante de nós como um pulmão doente. As imensas calhas de cultivo, outrora destinadas a alimentar a elite de Baía Cinzenta com morangos geneticamente modificados, estavam agora tomadas por uma biomassa luminescente. O "Jardim" não estava apenas sobrevivendo aqui embaixo; ele estava prosperando.

Raízes grossas como cabos de força se enroscavam nas estruturas de aço, pulsando com um brilho bioluminescente azulado. Entre as folhagens doentias, o brilho de monitores piscava. Hardware e wetware se fundindo em uma amálgama profana de tecnologia e carne verde. Eles estavam reconstruindo a rede.

— Múltiplos nós de transmissão detectados — Valéria reportou, a voz letárgica, apenas despejando dados brutos. — A biomassa está utilizando cabos de fibra ótica como sistema nervoso central. Eficiência de transferência de dados: 87%. É uma arquitetura de rede neural descentralizada. Orgânica e letal.

Apertei os olhos, observando o fim da estufa principal. Havia silhuetas ali. Corpos pendurados pelas raízes, balançando lentamente, suas espinhas conectadas aos terminais. Bio-baterias. Carne humana alimentando o servidor divino da praga biológica.

— Então a gente poda o jardim — falei, a voz rouca, o cinismo encharcando as palavras. O braço industrial chiou, faíscas fracas saltando das juntas enferrujadas. A dor pulsou, constante, me lembrando que eu ainda estava vivo. — Procure o conduíte principal. Vamos cortar essa merda pela raiz.

Valéria assentiu, sem medo, sem nojo, sem humanidade. Apenas um algoritmo executando uma função em um mundo morto. Nós avançamos para o meio da selva de néon e podridão.