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Capítulo 217: O Útero de Chumbo
O fundo do poço nos recebeu com a indiferença gélida de um necrotério. Não houve um impacto dramático, apenas o solavanco surdo da minha bota de combate encontrando o piso de concreto espesso. O som ecoou na escuridão, seco e sem vida. Soltei a escada de metal, e meu braço mutilado protestou com uma fisgada de agonia quente. Eu a recebi de braços abertos. Era a dor que me mantinha acordado; era a dor que impedia o cheiro fantasma de tabaco queimado de tomar conta da minha mente.
A fumaça. O maldito charuto de Dante. Ele sempre vinha quando o escuro ficava muito denso, quando o silêncio era profundo o suficiente para me deixar ouvir meus próprios arrependimentos. Senti o cheiro azedo na ponta do nariz e, num reflexo condicionado pela repulsa e pelo instinto de sobrevivência, soquei minha perna arruinada. Os servos hidráulicos gemeram, e uma dor crua e elétrica subiu pela minha coxa. O cheiro de fumaça evaporou, substituído pelo aroma cáustico de ozônio estagnado e ferrugem centenária.
— Chegamos, — anunciei, a voz rasgando a garganta seca.
Um baque pesado ecoou à minha direita. Elias havia atingido o chão. Ele não se levantou. O som da sua respiração era rápido, superficial, como um animal encurralado sentindo a lâmina do abatedouro.
— Eu não consigo... não consigo respirar aqui, — Elias arquejou, as mãos arranhando o próprio peito. — É muito pesado. O ar é pesado.
— A composição atmosférica é aceitável para suporte à vida mamífera, embora os níveis de oxigênio estejam quatro por cento abaixo do ideal, — Valéria informou, descendo o último trecho com a precisão de um pêndulo. Seus movimentos, embora ainda rígidos por causa do Modo de Segurança, não demonstravam a exaustão que devorava a mim e a Elias. Seus olhos sintéticos piscaram no escuro, emitindo um brilho azul fraco e clínico que iluminou parcialmente a abóbada colossal onde estávamos. — Ele está sofrendo um episódio agudo de ansiedade induzida por claustrofobia, Gabo. Recomendo sedação se a vocalização exceder os limites táticos.
— Ninguém vai sedar ninguém, — grunhi, mancando até Elias e o puxando pela gola da jaqueta. — Levanta. Ficar no chão é o primeiro passo para virar adubo orgânico nesta cidade. Respira pela boca. Conta os batimentos. Faz alguma coisa útil com esse pânico.
Deixei Elias ofegando encostado na parede de concreto e me virei para o que quer que estivesse à nossa frente. O feixe azul dos olhos de Valéria esquadrinhava o ambiente, revelando partículas de poeira prateada dançando no ar morto.
Então, nós a vimos.
A estrutura ocupava toda a extensão da parede frontal da caverna escavada. Era uma porta de explosão, redonda, maciça, construída com uma liga de titânio e reforçada com placas de chumbo grosso e escurecido pelo tempo. Tinha pelo menos quatro metros de diâmetro. No centro da porta, fundida diretamente no metal, repousava a insignia primitiva da Aeterna Corp — não o logotipo estilizado das propagandas de neon, mas a versão brutalista dos primeiros dias da corporação. Um círculo cortado por três linhas verticais.
— Blindagem de grau radiológico, — analisou Valéria, aproximando-se da porta. — Esta liga foi projetada para suportar tanto pressões tectônicas extremas quanto bombardeamentos termonucleares de baixo rendimento. As travas são analógicas. Nenhuma assinatura digital detectada. Nenhuma contaminação por biomassa do Jardim ou oxidação acelerada da Praga de Ferro.
Um útero de chumbo, escondido sob o estrume do mundo.
— Feito para durar para sempre, — murmurei, avaliando o volante analógico no centro da porta. Era um leviatã de metal fundido, projetado para ser operado por maquinário pesado, não por um homem caindo aos pedaços.
Mas não havia maquinário. Havia apenas eu, minha perna quebrada e minha repulsa existencial por permanecer no escuro.
Pressionei as duas mãos — a de carne, inteira, e a garra industrial — contra as bordas gélidas do volante. O frio do metal me mordeu. Eu precisava de tração, precisava de algo para canalizar a força.
Fechei os olhos. Deixei a sombra da fumaça do charuto voltar por um segundo. A lembrança do rosto de Dante, a arrogância, a prisão sufocante de fumaça em que ele queria me encerrar. A repulsa subiu pelo meu esôfago como bile. Não. Eu não serei prisioneiro no escuro de outro homem.
Gritei. Um som feio, rasgado, nascido puramente da dor física e do ódio, e joguei todo o peso do meu corpo e da minha perna mecanizada contra a alavanca. Os hidráulicos da minha prótese guincharam, soltando faíscas que iluminaram as sombras, e o som da minha própria carne cedendo sob o esforço serviu como meu combustível, bloqueando qualquer vestígio de neblina mental.
Houve um estalo geológico. A ferrugem interna das engrenagens gritou em protesto.
— Rotação iniciada. As travas primárias estão cedendo, — Valéria relatou, impassível.
Continuei empurrando, ignorando o sangue fresco que começou a escorrer da minha perna. A roda girou com um gemido profundo, um gemido de algo antigo sendo despertado a contragosto. Os enormes pinos de travamento recuaram e a porta de chumbo cedeu uma polegada para dentro, soltando um suspiro de ar purificado e gelado, com cheiro de antisséptico esquecido e nada além do silêncio.