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Capítulo 209: Cristais de Óxido

O frio da câmara de resfriamento estava cobrando o preço dele.

Frio de verdade não é o que as pessoas pensam. Não é desconforto: é imposto. Ele tira uma parcela de cada coisa que o corpo faz, e ele começa a cobrar pelas mãos.

Meus músculos tremiam sozinhos, num ciclo rápido que eu não conseguia interromper mandando parar.

A dor do ombro lacerado tinha virado outra coisa: uma pulsação rítmica, maçante, como se alguém estivesse martelando um prego na clavícula no compasso do meu batimento.

Em circunstâncias normais eu odiaria isso.

Ali embaixo, cercado de morte e decadência cibernética, a agonia era o meu último santuário. Enquanto ela morde, não sobra espaço para o cheiro de charuto.

É um negócio ruim. Eu sei que é um negócio ruim. Faz três anos que eu venho renovando.


— Progresso lento, Gabo.

A Valéria ia na frente, sem hesitar em bifurcação nenhuma, porque o Modo de Segurança não hesita: ele escolhe a rota de menor custo e segue.

Os servos faciais dela estavam imóveis. Nada de pressa, nada de empatia, nada.

— Se a exposição térmica se estender por mais vinte e sete minutos, suas funções motoras biológicas começarão a falhar em níveis críticos.

— Define "críticos".

— Perda de coordenação fina nas mãos aos dezenove minutos. Perda de discernimento aos trinta e um. Você começará a tomar decisões ruins antes de perceber que está com frio.

— Isso é a definição da minha vida inteira, Val.

Ela não respondeu, porque não era pergunta e porque o Modo de Segurança não responde a coisa que não é pergunta.


— O joelho dele já tá quase travando — disse o Elias, e o pavor estava todo na voz rouca do garoto.

Ele estava certo, e essa é a utilidade dele.

O frio congela a graxa da órtese esquerda. Aquela porcaria foi calibrada para vinte e dois graus e está trabalhando a quatro negativos, e a cada passo o meu joelho artificial arrastava sobre o aço com um rangido de porta velha.

— Eu aguento — rosnei.

E bati o punho mecanizado contra a perna defeituosa.

O golpe ecoou pela câmara — brutal, alto, feio.

Destravou a engrenagem por uns quarenta passos e me custou uma fisgada que subiu do quadril até o dente. Vale a pena e é um péssimo hábito, e eu sei disso do mesmo jeito que sei do resto.


O corredor levou a um entroncamento na passarela.

E ali o chão deixou de ser grade de aço.

Era um campo de espigões translúcidos, negros por dentro, subindo do piso em ângulos aleatórios, com uns trinta centímetros os maiores.

Cristais de óxido.

Isso não existia antes. Não existe em livro nenhum. É o produto da reação entre o que sobrou da Praga de Ferro e os esporos mortos do Jardim, e a reação é endotérmica, o que quer dizer que ela rouba calor do ambiente enquanto acontece.

É por isso que faz quatro graus negativos numa câmara que devia estar a dez positivos.

Aquele corredor não está frio porque quebrou o aquecimento.

Ele está frio porque tem alguma coisa crescendo ali e o crescimento consome o calor.


Parei, ofegante, e o meu bafo saiu numa nuvem que ficou pairando.

Elias iluminou a área.

As formações subiam pelas paredes laterais, cobrindo as antigas tubulações de energia, e se encontravam lá em cima sem fechar de todo — transformando o corredor estreito numa bocarra dentada que ainda não decidiu se fecha.

— A densidade da geada anômala atinge o pico aqui — disse a Valéria. — Não podemos pisar.

— Por quê? Quebra?

— Quebra. — Ela se agachou e aproximou o feixe. — Estrutura frágil, mas cortante em nível molecular devido à contaminação ferrosa. A borda de fratura é mais fina que qualquer lâmina cirúrgica em uso.

— E aí?

— E aí um corte é indolor no momento e leva material oxidado direto para o tecido subcutâneo. Sepse em quatro a nove horas, sem tratamento disponível num raio de sessenta quilômetros.

Elias deu um passo para trás sem perceber que deu.


— Tem uma plataforma de manutenção lá em cima.

Levantei a arma pesadamente e apontei com o cano — porque apontar com o braço direito custa mais do que apontar com dois quilos de escopeta — para um guindaste inerte pendurado a uns seis metros.

— A plataforma corre por cima do campo inteiro e desce do outro lado.

— A gente não vai subir naquilo, né? — Elias balançou a cabeça, e ele estava com o rosto de quem já sabe a resposta. — Aquilo está enferrujado até a alma, Gabo. Se cair, a gente morre cravado no chão. Literalmente cravado.

— A probabilidade de colapso estrutural sob carga dinâmica do nosso peso total é alta, porém não absoluta — contrapôs a Valéria, calculista. — Requer escalada técnica. Suas próteses danificadas não suportarão o torque, Gabo. Recomendo rota alternativa.

— Existe rota alternativa?

Uma pausa de trezentos milissegundos.

— Não.

— Então não recomenda nada.


Cerrei os punhos.

E a claustrofobia flertou comigo na borda da consciência — aquele terror primitivo e burro de sufocamento, que eu carrego desde os oito anos, desde um armário —, e ela veio junto com a fumaça, porque as duas sempre chegam de mãos dadas.

Esmaguei os tendões feridos do braço com a mão de metal.

A claridade voltou na hora.

Levei uns quatro segundos para conseguir respirar direito, e nesses quatro segundos ninguém falou nada, e o Elias fingiu que estava olhando para outro lado.

Ele é um bom garoto. Ele vai ficar bem se eu não estragar.


— Valéria, você sobe.

— Especifique.

— Você é a única aqui que não sente frio, não sangra e não escorrega. Sobe pela parede oeste, que é a menos tomada, alcança a plataforma, prende a corda na polia principal do guindaste. A gente iça o Elias primeiro.

— E você?

— Eu vou por último, pendurado no cinto tático.

— Risco elevado de dano muscular irremediável no ombro e no braço restantes.

— Dano irremediável já faz parte do meu currículo, Val.

Ela ficou me olhando por trezentos milissegundos, que é o tempo que ela leva para tudo, e eu tive — como sempre tenho — a alucinação de que naqueles trezentos milissegundos existe alguém pensando.

— Ordem compreendida.


Ela foi até a parede oeste e cravou os dedos no concreto enferrujado com precisão matemática, encontrando ponto de apoio onde eu não via ponto nenhum.

Começou a escalar a escuridão sem fazer barulho.

Elias sentou de cócoras ao meu lado, batendo os dentes num compasso rápido.

— Gabo.

— Fala.

— Ela ainda tá aí dentro?

Eu olhei para cima, para a silhueta subindo pela parede de uma câmara de resfriamento congelada a oitocentos metros abaixo de uma cidade morta.

— Não sei — falei.

E foi a primeira vez que eu disse isso em voz alta.

— Mas se estiver, garoto, ela está presa numa sala pior que essa. Então a gente atravessa esse corredor, chega no Hub e liga o que tem que ligar.

O silêncio do abismo voltou.

Só o meu respirar pesado, o bater dos dentes do Elias, e o som mais fino do mundo vindo do chão: o dos cristais crescendo.