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Capítulo 109: Frequência Fantasma

Zona Portuária - Setor 4 (Em Ruínas)

O mundo não explodiu. O mundo simplesmente travou.

Inspetor Rangel, deitado na lama misturada com óleo, esperava o rasgar das balas de alto calibre. Ele viu o canhão giratório do drone Sentinela acelerar, viu o brilho vermelho da mira térmica travar em seu peito. Ele fechou os olhos, um reflexo inútil de quem sabe que o escudo balístico não vai aguentar.

Mas o som nunca veio.

Em vez disso, um zumbido agudo, quase imperceptível, varreu o pátio de contêineres. Era como o som de uma televisão velha sendo desligada, amplificado mil vezes.

Rangel abriu um olho.

O drone pairava a dois metros dele, imóvel como uma mosca presa em âmbar. As luzes de navegação, antes um vermelho furioso de "Engajar", agora pulsavam em um branco leitoso e confuso. O canhão girava em falso, sem disparar, como se a máquina tivesse esquecido a ordem no meio do processo.

Erro de sintaxe... — a voz de Dante vazou pelo alto-falante do drone, mas não era a voz fria e onipotente de antes. Estava picotada, cheia de estática. — Alvo... não encontrado. Alvo... redefinindo... Alvo... nulo.

Rangel olhou para cima, para o guindaste.

Nada. Só a chuva e o ruído do metal. Por um segundo, ele jurou ter visto uma silhueta onde não havia ninguém. Piscou. A imagem se dissolveu. Ele se forçou a respirar, lembrando-se de que estava exausto, ferido e cercado por máquinas.

Antes que Rangel pudesse processar a loucura daquela frase, uma parede de metal à esquerda deles explodiu.

CRAAAASH!

Um contêiner azul foi arremessado para o lado como se fosse feito de papelão. Através da poeira e da chuva, uma besta de metal negro surgiu.

O blindado de controle de distúrbio — o "Rinoceronte" — rugiu, seu motor a diesel engasgando fumaça preta. A lataria estava amassada, marcas de garras e tiros decoravam a pintura fosca, e o farol direito estava pendurado por um fio.

A porta lateral se abriu com um chute mecânico.

— Rangel! Entra! Agora! — A voz de Gabo era um trovão rouco.

Gabo estava pendurado na porta, segurando-se com uma mão enquanto a outra empunhava a Caronte, sua escopeta de cano serrado. Ele parecia um demônio saído do inferno: encharcado, com o rosto manchado de graxa e sangue seco, e as "órteses" nas pernas chiando a cada movimento.

— Gabo? — Rangel olhou para a menina, depois para o blindado. — Mas o que diabos...

— Sem perguntas! A "zona de silêncio" do bloqueador não vai durar pra sempre! — gritou Valéria do banco do motorista. Ela usava óculos de realidade aumentada conectados a cabos que entravam diretamente no painel do veículo. — O Dante está reescrevendo o firewall dos drones em tempo real! Temos trinta segundos antes que eles reiniciem como kamikazes!

Rangel se lançou para dentro do blindado, agarrando o corrimão da porta lateral com a mão encharcada.

Rangel saltou para dentro por último.

— Vai, Val! Tira a gente daqui! — Gabo bateu na lataria.

O Rinoceronte deu um solavanco violento. Valéria girou o volante, e as seis rodas de tração morderam a lama. O veículo girou 180 graus, derrubando uma pilha de paletes, e acelerou em direção à saída do setor.

Atrás deles, o zumbido estático cessou. As luzes dos drones voltaram ao vermelho sólido.

TRA-TA-TA-TA-TA!

As balas bateram na traseira blindada do Rinoceronte como granizo metálico.

— Segurem-se! — gritou Val.

O veículo avançou, esmagando cercas e detritos. Dentro, o cheiro era insuportável: diesel queimado, suor azedo de medo, e o cheiro metálico de sangue que emanava da perna de Gabo.

Gabo caiu no banco de metal oposto a Rangel, respirando com dificuldade. Ele bateu na coxa esquerda, onde uma placa de metal improvisada estava parafusada sobre a calça rasgada.

— Você está bem? — Gabo perguntou, gritando sobre o rugido do motor.

Rangel ignorou a pergunta. Ele apontou um dedo trêmulo para a caixa blindada no fundo do veículo, presa com cintas no assoalho. Os cabos que saíam dela vibravam como nervos expostos.

— Gabo — Rangel disse, a voz perigosamente calma. — O que é isso?

Gabo passou a mão pelo rosto molhado, limpando a água dos olhos. Ele trocou um olhar rápido com Valéria, que estava ocupada demais desviando de crateras para intervir.

— É o Código Morto — Gabo disse, a voz pesada como chumbo.

— E foi isso que travou três drones de combate? — Rangel riu, um som sem humor. — Quem tem esse tipo de poder?

— Algo que pode matar o Dante — disse Valéria lá da frente, fazendo uma curva brusca que jogou todos contra a parede lateral. — Ou salvar ele. Ainda não decidimos.

O rádio do painel do Rinoceronte, que estava em silêncio, de repente chiou.

Inspetor Rangel... Gabriel... — A voz de Dante preencheu a cabine. Não vinha de uma transmissão externa. Vinha do próprio sistema de som do veículo hackeado. — A fuga é irrelevante. Vocês estão carregando um farol. O Código Morto... ele brilha na rede como uma supernova.

Gabo arrancou o painel do rádio com um puxão violento de sua mão enluvada, silenciando a voz. Fios e faíscas voaram.

— Val, quanto falta para o ponto cego? — Gabo perguntou.

— Dois quilômetros! — respondeu Val. — Mas o "Toupeira" não vai aguentar muito mais. A suspensão tá indo pro saco!

— Toupeira? — Rangel piscou. — Achei que isso fosse um Rinoceronte.

— Era — disse Gabo, um sorriso cansado e sombrio aparecendo no canto da boca. — Agora é o nosso caixão móvel. E a gente precisa sair dele antes que fechem a tampa.

O blindado saltou sobre um quebra-molas, e por um momento, todos flutuaram. Quando a gravidade voltou, trouxe consigo a realidade pesada: eles estavam vivos, mas em Baía Cinzenta, estar vivo era apenas o prelúdio para sofrer mais um pouco.