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Metadados
- Título: Matéria Prima
- Data In-Game: Pós-Colapso da Usina Prometeu (Noite Eterna)
- Localização: Necrópole (O Ateliê do Taxidermista)
- Personagens Presentes: Gabo, Valéria, Aria (Glitch/Bia), Rangel (Inconsciente)
- Resumo: O grupo avança para o coração da Necrópole, encontrando o verdadeiro laboratório do Taxidermista: uma linha de montagem grotesca onde corpos são preparados como "telas" para sua arte. A atmosfera saturada de metano torna cada respiração um risco. Aria sofre uma desestabilização crítica ao confrontar réplicas falhas de si mesma, enquanto Gabo luta para manter a sanidade e a liderança sob a pressão da abstinência e da dor física.
Narrativa
Capítulo 133: Matéria Prima
O ar mudou. Não era mais apenas o cheiro de esgoto e metano; havia algo químico, estéril e terrivelmente familiar. Formol. Esmalte sintético. O cheiro de um hospital que foi abandonado e depois reocupado por algo que não entende a medicina, apenas a anatomia.
Gabo arrastava a maca improvisada de Rangel com o ombro bom, o braço esquerdo pendendo inútil ao lado do corpo. O corte da faca de cerâmica havia estancado, mas o músculo pulsava com uma dor surda, profunda, que ecoava em seus dentes.
— Estamos perto — Valéria sussurrou. Ela não olhava para o medidor de gás amarrado ao pulso; seus olhos, agora anéis prateados sem brilho na escuridão, estavam fixos na estrutura à frente. — A arquitetura mudou. Isso não é fundação da Velha Baía.
Ela estava certa. As paredes de concreto bruto e vergalhões expostos haviam dado lugar a algo polido. Azulejos brancos, encardidos pelo tempo e rachados como pele seca, cobriam o túnel. Drenos de latão oxidado pontuavam o chão a cada cinco metros.
Era um matadouro.
— O Ateliê — Aria disse. A voz dela era a de uma criança maravilhada em uma loja de brinquedos. Bia. — Ele sempre quis um espaço maior. O sótão na Torre do Relógio era... apertado.
Gabo parou, ofegante. O suor frio escorria por suas costas, misturando-se à sujeira do esgoto. As pernas mecânicas rangiam sob o peso acumulado da descida. Ele largou a correia da maca e pressionou a testa contra o azulejo frio da parede. O cheiro de produtos químicos e morte desencadeou a velha fobia. A ilusão de uma nuvem espessa de fumaça sufocante fechou-se sobre ele, uma náusea violenta que fez seus joelhos tremerem.
Não... eu não estou trancado no carro... Não é o charuto dele.
Ele levou a mão ao peito, apertando o "Colar de Sol" através da camisa suja. O metal mordeu a pele, uma dor aguda e necessária para espantar a alucinação de asfixia.
— Não — ele rosnou, o ar voltando aos pulmões. — Não hoje.
— Gabo? — A voz de Aria mudou de tom. Ficou mais grave, mais tática. O glitch recuando por um segundo. — Assinaturas térmicas múltiplas à frente. Estáticas. Temperatura ambiente. Não são vivos.
— Mais esculturas? — Valéria perguntou, sacando uma chave inglesa pesada do cinto de ferramentas.
— Não — Aria inclinou a cabeça, os cabelos platinados brilhando sob a luz fraca de sua própria ótica. — Matéria prima.
Eles avançaram. O túnel se abriu em um salão vasto, iluminado por lâmpadas de filamento penduradas em fios desencapados, lançando uma luz amarela e doente sobre o cenário.
Gabo teve que cobrir a boca para não vomitar.
Não eram esculturas. Eram prateleiras. Fileiras e fileiras de prateleiras industriais de metal, do chão ao teto, preenchidas com... partes.
Braços preservados em potes de vidro gigantes. Pernas dissecadas para revelar a musculatura, com pistões hidráulicos inseridos onde deveriam estar os ossos. Cabeças humanas, com os olhos abertos e vidrados, conectadas a placas de circuito em uma simulação grotesca de processamento paralelo.
E no centro do salão, uma mesa de operação.
Sobre ela, não havia um corpo, mas um projeto. Um torso humano aberto, a caixa torácica expandida por macacos mecânicos, revelando um coração que não batia. Dentro, no lugar dos pulmões, foles de couro antigo. No lugar do estômago, um reator de biogás em miniatura.
— Ele não está apenas consertando — Valéria murmurou, aproximando-se de uma bancada cheia de ferramentas cirúrgicas alinhadas com precisão obsessiva. — Ele está tentando evoluir. Olha isso. — Ela apontou para um esquema desenhado a carvão na parede. — Fusão total. Sem rejeição. O sonho de Krell, feito com serrotes e agulhas.
Gabo se aproximou da mesa central. Havia algo no rosto do torso dissecado. Um homem de meia idade, com cicatrizes de varíola. Ele parecia... em paz.
— Onde ele está? — Gabo perguntou, sua voz ecoando no silêncio do laboratório. — Onde está o Artista?
— A arte exige paciência, Detetive.
A voz não veio de um lugar, mas de todos. Alto-falantes antigos, cornetas de gramofone soldadas nos cantos da sala, crepitaram com estática antes de transmitir a voz suave e culta do Taxidermista.
Gabo girou, a faca de cerâmica em riste.
— Apareça, seu filho da puta!
— Tanta raiva. Tanta... entropia. — A voz suspirou. — Eu observei você, Gabriel. Desde a Torre. Você quebrou tão lindamente. Mas o conserto... ah, o conserto foi desleixado. Ossos colados com raiva. Músculos tensionados pelo vício. Você é uma obra inacabada.
— Saia das sombras e termine o serviço — Gabo desafiou, seus olhos varrendo as passarelas superiores.
— Eu? Oh, não. Eu sou apenas o curador. A exposição principal... é ela.
Um holofote se acendeu no fundo do salão, iluminando uma vitrine de vidro blindado.
Dentro dela, suspenso por fios invisíveis, estava um corpo.
Pequeno. Delicado. Cabelos curtos e pretos. Um casaco de couro marrom, jeans e botas.
Bia.
Não a Bia criança que Aria imitava. A Bia adulta. A Bia que morreu nos braços de Gabo. Perfeita. Intacta. Até a cicatriz no ombro estava lá.
Aria soltou um som que não era humano. Um guincho de estática e dor digital. Ela caiu de joelhos, as mãos na cabeça, seus olhos piscando freneticamente entre o azul e o dourado.
— Não... — a voz de Aria falhou. — Sou eu. Aquela sou eu. Por que eu estou lá dentro?
— Você é o software, minha querida — a voz do Taxidermista ronronou. — Aquilo é o hardware. O receptáculo definitivo. Sem metal. Sem plástico. Apenas carne preservada na eternidade do momento final. Eu a reconstruí, célula por célula, a partir do que restou no necrotério. Ela está esperando por você.
Gabo sentiu o mundo girar. A imagem de Bia na vitrine queimava em sua retina. Era uma mentira. Tinha que ser. O corpo dela tinha sido cremado. Ele tinha as cinzas... ou achava que tinha?
— É uma boneca — Valéria gritou, agarrando o braço de Gabo. — Gabo, olhe para os olhos dela! Não tem brilho. É cera e polímero! É uma armadilha psicológica!
Mas Aria não ouvia. Ela se levantou, caminhando em transe em direção à vitrine.
— Eu posso... eu posso voltar? — a voz de Bia sussurrou através dos lábios sintéticos de Aria. — Eu posso ser real de novo?
— Aria, pare! — Gabo gritou, mas a dor no ombro o fez vacilar quando tentou correr.
Um som mecânico pesado ecoou atrás da vitrine. Portas de contenção se abriram.
— A vernissage começou — o Taxidermista anunciou.
Das sombras atrás da vitrine de "Bia", três figuras emergiram. Eram maiores que as esculturas anteriores. Usavam uniformes da Tropa de Choque da Aeterna, mas seus capacetes haviam sido fundidos aos crânios, e suas armas não eram rifles, mas lanças térmicas conectadas diretamente aos seus braços.
— Protejam a Obra-Prima, — ordenou o Taxidermista.
Gabo olhou para Valéria, depois para Rangel sangrando na maca, e finalmente para Aria, paralisada diante de seu próprio cadáver falso.
Ele cuspiu no chão limpo do laboratório.
— Val, acorde a Aria. Eu seguro os críticos de arte.