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Capítulo 2: Náufragos de Concreto

A chuva não era mais uma presença — era uma sentença. O céu de Baía Cinzenta havia desabado, não em gotas, mas em lâminas líquidas que fatiavam a visibilidade até restar apenas um metro de mundo. A água ácida martelava o capô do Cobalt de Gabo como dedos impacientes de algum deus morto, corroendo a pintura já descascada em bolhas negras.

Gabriel dirigia com um olho na estrada invisível e outro no retrovisor, onde a paranoia vivia de forma permanente. O motor a hidrogênio do carro tossia como um velho tuberculoso, cada engasgada um lembrete de que até máquinas morriam em Baía Cinzenta. O limpador de para-brisa batia em um ritmo neurótico — thump-thump-thump — mas era inútil. Como tentar secar uma enchente com guardanapos de papel.

O rádio vomitava estática, depois se rendeu a uma voz que Gabo conhecia e odiava em medidas iguais.

Moretti. Está na escuta?

Gabo não respondeu imediatamente. Deixou Rangel esperar. Pequenas vitórias.

Cinco segundos. Dez.

Ele apertou o botão com mais força do que necessário.

— Estou ocupado, Rangel.

Sempre ocupado salvando o mundo. — A voz do Inspetor Rangel pingava veneno. Não sarcasmo — veneno de verdade. — O Diretor Dantas acabou de sair da minha sala. Passou uma hora me mostrando um dossiê sobre você. Grosso assim. O som de palmas batendo. Liberdades procedimentais. Uso excessivo de força. Perícia de nível 5 para um "Zé Ninguém" na Ferrugem. Você sabe quanto custa mobilizar biossegurança? Mais que meu salário anual.

Gabo cerrou os dentes. Sua mão esquerda foi ao peito, apertando o Colar de Sol sob a camisa. A dor aguda do metal contra a pele era a única coisa que impedia sua mão direita de arrancar o painel do carro.

— O caso é meu.

Para a Aeterna Corp, se não paga impostos, é biomassa descartável. — Rangel deixou o silêncio venenoso se arrastar. — A Corregedoria reabriu o caso do Porto, Moretti. Estão procurando qualquer coisa. Uma evidência contaminada. Um suspeito com o nariz quebrado sem a papelada certa. Um tiro "acidental".

Gabo sentiu o estômago apertar. O caso do Porto. Três anos atrás. Evidências que desapareciam. Testemunhas que mudavam de história. E uma bala que ele disparou que acertou o lugar certo... ou errado, dependendo de quem contava a história.

Já preenchi o Formulário 88-C. Suspensão preventiva. — A satisfação na voz de Rangel era corpórea. — Só falta minha assinatura. Cuidado onde pisa, "herói". Uma vírgula fora do lugar e você cai.

Click.

Gabo olhou para o rádio morto. Depois socou o volante. Uma vez. Duas.

— Filho da puta.

A dor nos nós dos dedos era focada. Real. Melhor que o medo difuso que a ameaça de Rangel plantara em seu peito.

O rádio voltou a vida. Voz automática, sem emoção.

Atenção, todas as unidades. Deslizamento no Setor 7. Trânsito desviado para a Via Costeira.

Gabo conhecia a Via Costeira. Estreita como um corredor de presídio, mal iluminada por postes que piscavam como olhos moribundos.


O trânsito parou completamente três quarteirões depois. Um caminhão de lixo tombado bloqueava a rua como um cadáver de baleia de aço. Gabo desligou o motor. Economizar célula. Sobreviver mais um dia.

Seu estômago rugiu. Ele tateou o banco do passageiro até encontrar uma barra de proteína sintética. Enquanto mastigava, seus olhos varreram a rua deserta através do vidro molhado.

No canto da calçada, ilhado por uma poça que parecia um pequeno mar de óleo, havia um orelhão. Relíquia do século passado. A cúpula de acrílico estava rachada.

E lá dentro, protegida da chuva por apenas um plástico amarelo rasgado, estava uma criança.

Menina. Não mais de seis anos. Vestido branco transformado em mortalha cinza pela fuligem. Ela estava de costas para a rua, imóvel, segurando o fone do orelhão contra o ouvido, embora os cabos estivessem visivelmente cortados, pendurados como tripas de plástico.

Algo estava errado. A chuva... a chuva parecia atravessá-la.

Gabo piscou, limpando os olhos cansados. Insônia. Só podia ser.

Ele abriu a porta do Cobalt. A água gelada invadiu suas botas.

— EI! — Sua voz competiu com o trovão. — GAROTA!

Ela não se moveu.

Gabo avançou, chapinhando na lama. O instinto policial gritava alerta vermelho. Crianças não ficavam sozinhas na Zona Baixa.

Ele chegou a dois metros do orelhão.

— Você está perdida? — Ele estendeu a mão para tocar o ombro dela.

No momento em que seus dedos deveriam ter tocado o tecido molhado do vestido, eles encontraram apenas ar frio e estática.

Gabo recuou, tropeçando.

A menina virou a cabeça. O movimento foi segmentado, falho, como um vídeo com lag.

Seus olhos não eram humanos. Eram poços de dados brutos, pixels azuis girando em órbitas escuras. O rosto... o rosto era idêntico ao de Bia. Bia quando criança, nas fotos que ela mostrava com orgulho.

Gabo...

A voz não veio da boca dela. Veio do orelhão mudo. Veio dos postes de luz que piscaram em uníssono. Veio de dentro da cabeça dele.

— O que é você? — Gabo sacou a arma por reflexo, apontando para a alucinação.

A menina sorriu. Um sorriso triste, adulto demais.

Protocolo de Sombra iniciado, — a voz dela era uma colagem de sílabas cortadas de transmissões de rádio. — Eles estão ouvindo o silêncio, detetive. Mas o silêncio mente.

A imagem dela tremeluziu violentamente, como um holograma perdendo coerência.

A chave não está no corpo, — ela disse, e sua forma começou a se dissolver em chuva digital. — A chave está na memória.

— Quem é você?! — Gabo gritou para a chuva.

A menina apontou para o carro dele.

Eu sou o que sobrou.

Com um som de estática ensurdecedor, a figura explodiu em luz branca e desapareceu.

No mesmo instante, o Cobalt de Gabo ganhou vida. O motor rugiu sozinho. Os faróis piscaram em código morse. O rádio ligou no volume máximo, transmitindo apenas ruído branco e uma risada infantil distorcida.

Gabo correu de volta para o carro. O painel digital estava louco, exibindo coordenadas de GPS que ele não havia digitado.

DESTINO: ZONA INDUSTRIAL - SETOR 4.

Ele tentou desligar o sistema, mas os controles não respondiam.

— Ótimo — murmurou Gabo, sentindo o suor frio escorrer pelas costas. — Agora meu carro é assombrado.

Ele olhou para o orelhão vazio. Não havia pegadas na lama onde a menina estivera. Apenas o fone pendurado, balançando com o vento.

Ele entrou no carro, batendo a porta. O rádio diminuiu o volume, mas a risada baixa continuou, agora saindo dos alto-falantes traseiros.

— Se você vai pegar carona — rosnou Gabo para o painel — pelo menos me diga seu nome.

A tela do GPS piscou uma vez.

ARIA.

Gabo sentiu um arrepio. Ele engatou a marcha. O carro parecia responder mais rápido, como se a injeção eletrônica tivesse sido otimizada por uma mão invisível.

— Zona Industrial — disse ele, aceitando a loucura. — Vamos ver o que você quer me mostrar, Aria.

Ele acelerou para a noite, levando consigo um fantasma digital e a certeza de que a sanidade era um luxo que ele não podia mais pagar.