Skip to content
Imagem do Capítulo

Metadados

  • Título: Ecos de Aço e Ferrugem
  • Data In-Game: Pós-Colapso do Sentinel (Noite Eterna)
  • Localização: A caminho do Setor 7 (Complexo Hidropônico)
  • Personagens Presentes: Gabo, Valéria

Narrativa

Capítulo 179: Ecos de Aço e Ferrugem

As galerias de manutenção sob o Distrito 4 não passavam de tripas de concreto abandonadas, há muito deixadas para os ratos e a ferrugem.

A lanterna química presa no cinto de Gabo pintava o túnel em tons mortos de verde pálido. A cada passo das pernas mecânicas dele, um eco surdo reverberava na escuridão. O silêncio ali não era o vazio estéril das centrais de servidores da Aeterna; era um silêncio úmido, grávido e predatório. O ar pesava, espesso como água barrenta e estagnada.

Aquele cheiro de confinamento umedecido rasgou as barreiras frágeis da sanidade de Gabo. A podridão nas paredes de repente transformou-se no fumo acre e seco de um charuto envelhecido.

O pânico foi primitivo. Asfixia instantânea. A memória de estar enclausurado no escritório do pai espremeu seus pulmões como um torno.

Ele fechou os olhos e agarrou o suporte hidráulico de seu novo braço industrial com a mão esquerda. Apertou até os dedos ficarem brancos e, com um solavanco, retorceu a fiação rústica para induzir um curto na placa motora colada aos seus próprios nervos esfolados.

O choque foi estupidamente alto, e a dor, excruciante. As terminações nervosas do seu ombro ferveram. Gabo deixou escapar um grito mudo, soltando o ar pesado com a agonia rasgando a névoa mental. A ilusão de fumaça desapareceu em meio à ardência crua de carne torrada.

Ele tossiu, recuperando o fôlego.

— Trajeto neural comprometido. O uso reiterado de choque elétrico como estabilizador cognitivo resultará em necrose orgânica dentro de vinte e duas horas — declarou Valéria. Ela caminhava um passo à frente, esquadrinhando o chão sem um resquício de hesitação em seus passos. Seu olho verde cibernético brilhava feito um farol apático, escaneando calor e compostos orgânicos.

— Melhor necrose do que sufocar nos meus próprios delírios, Val. — Gabo respondeu asperamente, puxando a perna passiva que ameaçava travar no piso sujo de óleo.

— Entendido. Otimização não garantida — rebateu ela, e continuou a marcha sem sequer lhe oferecer um ombro. Ela era apenas linhas de código agora; qualquer fantasma de afeto que a mantinha humana jazia enterrado sob os firewalls do Modo de Segurança.

Eles dobraram a esquina da galeria. A luz verde de Gabo encontrou algo que os parou de imediato.

O piso e as paredes do túnel à frente estavam infestados. Não era musgo comum. Era um tapete espesso e carnoso de biomassa fúngica que pulsava com uma fosforescência doentia e fraca. No centro daquele lodo brilhante, meio afundado nas entranhas fibrosas da coisa, estava um drone de segurança da Aeterna Corp.

O drone não estava apenas quebrado; estava sendo digerido. Raízes finas e pálidas abriam as juntas de titânio como vermes, absorvendo a química residual e a energia da bateria inerte.

Gabo arregalou os olhos.

— A praga... A praga biológica do Jardim — murmurou ele, sentindo o estômago revirar.

Todos achavam que a floresta orgânica e carnívora da Aeterna havia sido destruída na superfície. Mas não. Ela havia afundado e enraizado na escuridão. O pesadelo fúngico não estava extinto; ele apenas aprendera a prosperar sem o Sol.

— Presença orgânica agressiva detectada. Propriedade ácida nível 4 — a voz de Valéria soou como um termômetro lendo febre. — Recalculando padrões de travessia. Fiquemos rente à parede oeste. O contato resultará em decomposição cutânea severa.

Ela avançou. Gabo apertou a mão viva contra o braço mecânico inerte. Um novo monstro o espreitava no subsolo, mas ele daria as boas vindas a qualquer aberração física que lhe permitisse focar na sobrevivência e esquecer a fumaça ilusória que infestava sua mente.