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Capítulo 204: O Despertar da Ferrugem
A vastidão daquele armazém era opressiva de um jeito difícil de explicar para quem nunca esteve num galpão de trinta mil metros quadrados sem luz.
O teto se perdia. As poucas lâmpadas âmbar de emergência que ainda funcionavam estavam espaçadas de sessenta em sessenta metros, e cada uma criava uma ilha de luz suja e um oceano de escuro em volta, e o efeito era o de andar por dentro de uma coisa que não tem tamanho.
Cada passo meu levantava uma nuvem fina de pó avermelhado.
Sangue seco da Praga de Ferro. É assim que eu penso naquele pó desde o primeiro dia, e nunca consegui pensar de outro jeito: catorze mil drones de logística, empilhados em pirâmides de dez metros, oxidados até o miolo, desmanchando devagar havia dois anos e meio.
O zumbido hidráulico da minha órtese esquerda ecoava naquilo tudo.
Um protesto metálico, agudo, que voltava das paredes com dois segundos de atraso e me dava a sensação constante de estar sendo seguido por uma versão pior de mim mesmo.
Eu odeio esse som. E ele me mantém ancorado, então eu deixo.
A exaustão sempre tenta primeiro.
Ela vem, abre uma frestinha, e por ela entra o cheiro do charuto do meu pai — porque a minha cabeça, em algum momento entre os quarenta e os quarenta e cinco anos, decidiu que a memória dele tem cheiro de fumo grosso, e não adianta eu saber que ele nunca fumou.
Eu me concentrei na dor crua do ombro direito.
Flexionei os músculos rasgados de propósito, forçando o ponto onde o tendão não colou direito.
A pontada foi limpa, imediata e real.
E não tinha cheiro nenhum.
A dor é o meu santuário. É a única sala da minha cabeça em que ele não entra.
— Cuidado onde pisam.
A voz saiu mais áspera do que eu queria. A garganta está seca desde o Setor 5, e a água que a gente tem é reciclada três vezes e tem gosto de moeda.
— Essas pilhas não são estáveis. O que segura aquilo ali em pé é o atrito de sucata contra sucata, e atrito de sucata contra sucata muda de humor.
Elias assentiu freneticamente e escorregou numa placa de liga corroída.
Ele se segurou numa carcaça, que rangeu, e ele soltou na hora como se tivesse encostado em bicho.
Vinte e dois anos. Pálido. Os olhos arregalados de quem não pertence às entranhas dessa cidade e teve o azar de nascer nela.
É por isso que eu trago o garoto: porque ele reage do jeito que uma pessoa normal reagiria, e eu perdi a régua faz tempo. Quando o Elias fica com medo de uma coisa, é porque a coisa é assustadora. É a única medida honesta que ainda me sobrou.
— Tem certeza de que... que não tem nada aqui? — ele gaguejou.
A pergunta ricocheteou nas paredes metálicas.
Valéria não hesitou.
A lente dela varreu o ambiente num arco calculista, e o feixe azul-pálido recortou a névoa de ferrugem em suspensão.
— Sensores térmicos operando com eficiência reduzida devido à interferência da oxidação particulada. — A voz digital, sem inflexão nenhuma, e eu já não estremeço com isso, o que me incomoda mais do que estremecer. — No entanto, detecto flutuações de baixa frequência no subsolo imediato. Vibrações. Padrões inconsistentes com atividade sísmica natural.
Eu parei.
A dor do ombro sumiu por um instante, o que é a prova de que a dor nunca foi âncora coisa nenhuma: ela é só a segunda coisa mais urgente.
— Inconsistentes como?
— Sismo natural tem envelope de decaimento exponencial. — Ela inclinou a cabeça três graus. — Isso tem intervalo regular. Onze vírgula dois segundos entre eventos. Amplitude crescente.
— Intervalo regular é passo, Val.
— Correto.
— De onde?
Ela apontou para o centro do galpão.
O fosso de carga era uma boca retangular de trinta metros por doze, afundando no escuro, com as engrenagens colossais do elevador travadas por montanhas de ferrugem sólida.
Saquei a escopeta com a mão esquerda — movimento desajeitado, treinado até virar automático depois que o braço direito virou coto e depois virou aquilo que o Vasco parafusou.
A arma parecia mais pesada naquele dia. Sempre parece.
— Imediatamente abaixo de nós — disse a Valéria. — A amplitude está aumentando.
O pó sob as minhas botas começou a tremer.
Isso é uma coisa que a gente sente primeiro nos dentes. Vibração baixa entra pelo osso do calcanhar, sobe pela tíbia, e chega ao crânio antes de chegar ao ouvido. Os servos da minha órtese estalaram em resposta simpática, e por dois segundos eu tive a impressão idiota de que ela estava respondendo a um chamado.
Não era motor ligando.
Era metal sendo rasgado. Era alguma coisa massiva forçando caminho por dentro dos destroços esmagados de catorze mil drones — não abrindo caminho: comendo caminho.
Elias recuou e tropeçou no chassi de um autômato destruído.
— O que é isso? — A voz dele subiu uma oitava. — A Praga de Ferro não se move assim! A Praga não se move!
— A Praga não.
Engatilhei a arma. O ruído seco foi engolido pelo galpão.
Encostei a coronha no ombro machucado — de propósito, no lugar exato onde dói — e a explosão de agonia limpou a fresta por onde a fumaça estava tentando entrar de novo.
— Mas alguma coisa esmagou essas carcaças, garoto. — Olhei para as pirâmides de sucata em volta. — Olha o padrão. Isso aqui não caiu: foi empilhado. Alguém, ou alguma coisa, passou dois anos juntando material de um lado do galpão para o outro.
— Por quê?
— Pela mesma razão que qualquer bicho junta coisa. — Levantei o cano. — Ou está construindo ninho, ou está guardando comida.
Do fundo do fosso veio um rangido metálico ensurdecedor.
E depois o som de placa de blindagem sendo dobrada — não cortada: dobrada, com aquele gemido longo de chapa cedendo, que eu já tinha ouvido uma vez na vida, na noite em que a Torre Aeterna decidiu para que lado ia cair.
A coisa começou a emergir.
Não era orgânica. Isso deu para descartar rápido: não tinha simetria bilateral, não tinha nada que respirasse.
E também não era máquina padrão da corporação. Máquina de corporação tem carenagem, tem logotipo, tem aquele acabamento fosco que os designers escolhem para parecer inevitável.
Aquilo era amálgama.
Uma coisa montada com o que havia: chassi de empilhadeira, braços de nove drones diferentes soldados fora de eixo, uma cabine de operador encaixada onde devia haver tórax, tudo unido por escória de solda malfeita e cordão de ferrugem compactada.
Havia intenção ali. Feia, torta, apressada — mas intenção.
Alguma coisa naquele galpão tinha passado dois anos e meio no escuro se montando.
Elias começou a rezar baixinho, o que eu achei razoável.
Valéria ergueu o braço e travou o feixe do olho no vulto.
— Gabo. Correção do relatório anterior.
— Fala.
— A fonte de vibração não é uma unidade.
Eu não tirei a mira.
— Quantas?
— Quatro. — Uma pausa de trezentos milissegundos. — E as outras três já estão atrás de nós.
A quietude fria daquelas sombras acabava de cobrar o preço, e o preço era o de sempre nesta cidade: pago à vista, sem aviso, e com juros.