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Capítulo 70: O Expurgo
Órbita Baixa - Satélite "Martelo de Deus"
A seiscentos quilômetros acima de Baía Cinzenta, no silêncio absoluto do vácuo, a máquina de morte da Aeterna Corp ajustou sua órbita.
O satélite não tinha nome oficial nos registros — apenas uma designação alfanumérica que ninguém fora dos níveis mais altos da corporação conhecia. Mas os engenheiros que o construíram, trabalhando em turnos de dezesseis horas em bunkers subterrâneos, o chamavam de "Martelo de Deus". E quando olhavam para os esquemas, suas mãos tremiam.
Era uma plataforma de lançamento cinético. Não havia ogivas nucleares a bordo — radiação era difícil de limpar, ruim para os negócios de reconstrução. Apenas cilindros de tungstênio puro, de dez toneladas cada, alinhados em silos como cartuchos em um revólver cósmico.
A física era simples. Brutal. Elegante.
Solte um cilindro de tungstênio de seiscentos quilômetros de altura. A gravidade faz o resto. Quando atinge o solo, a energia cinética libera o equivalente a uma bomba atômica tática. Sem radiação. Sem fallout. Apenas força pura. Destruição limpa.
Vinte cilindros. Vinte distritos.
O "Consórcio Lázaro" — o grupo anônimo de investidores trilionários e IAs financeiras que controlavam a Aeterna desde as sombras — havia votado. A deliberação durou exatamente 0.003 segundos, tempo suficiente para os algoritmos analisarem os dados de produtividade, calcular os custos de contenção e chegar à conclusão óbvia.
O projeto estava comprometido. A "propriedade" estava contaminada por insurgentes. O ROI de reconquista era negativo. A solução ótima era a formatação física.
Limpar. Reconstruir. Revender.
Economia básica.
O satélite manobrou, seus propulsores de íon ajustando a posição com precisão nanométrica. A mira se alinhou com as coordenadas do primeiro alvo: a Represa Hidroelétrica de Baía Cinzenta.
Se a represa quebrasse de cima — impacto direto no centro da estrutura — a onda resultante varreria os setores baixos em menos de uma hora. Limpeza natural. Sem custo adicional.
Contagem regressiva iniciada.
Baía Cinzenta - Túneis de Acesso à Torre
Gabo, Val e Aria corriam. Os pés chapinhando em água de esgoto até os tornozelos. O ar fétido queimando os pulmões. O tempo escorrendo entre os dedos como areia radioativa.
Val monitorava a contagem regressiva em seu deck, o dispositivo amarrado ao braço com fita isolante e desespero.
— Temos quarenta minutos até o primeiro impacto — disse ela, a voz tensa mas controlada. A luz do display iluminava seu rosto de baixo, criando sombras que a faziam parecer um fantasma. — O alvo primário é a Represa. Se eles quebrarem a represa de cima, a onda vai varrer tudo o que sobrou da cidade baixa.
— Eu sei — disse Gabo, consultando o mapa que Dante havia baixado em seu visor antes de... antes de tudo. — Estamos perto da entrada secreta.
O túnel terminava abruptamente em uma parede de tijolos antiga — construção do século passado, anterior à fundação da Aeterna. Tijolos vermelhos desbotados para marrom, argamassa esfarelando-se como ossos velhos.
Mas no centro da parede, quase invisível sob camadas de musgo e sujeira, havia um símbolo. Uma ampulheta quebrada, gravada na pedra com precisão cirúrgica.
A assinatura de Dante Moretti. O sinal que seu pai deixava em todos os seus esconderijos, em todos os seus planos B, em todas as rotas de fuga que um homem paranoico precisava para sobreviver em uma cidade que devorava seus filhos.
Gabo sentiu algo apertar no peito. Raiva. Saudade. Traição. Todas misturadas em um coquetel amargo que ele engoliu em silêncio.
Ele empurrou o tijolo central, o que continha a ampulheta. O mecanismo hidráulico — alimentado por células de energia que duravam décadas — sibilou com relutância enferrujada. A parede inteira girou, revelando uma passagem limpa, surpreendentemente bem conservada, iluminada por luzes de emergência que pulsavam em âmbar suave.
Eles entraram na base da Torre Aeterna.
Mas não estavam sozinhos.
O corredor à frente estava cheio de... estátuas?
Não. Gabo parou, sua mão indo automaticamente para a Caronte em suas costas. Não eram estátuas.
Eram pessoas.
Pessoas congeladas em poses de terror absoluto. Um homem com a boca aberta em um grito silencioso, as mãos erguidas para proteger o rosto de algo que nunca chegou. Uma mulher de joelhos, os dedos cravados no chão de metal, tentando rastejar para longe de um predador invisível. Um grupo de três, abraçados, os rostos contorcidos no último segundo de humanidade antes de...
Val se aproximou de uma das figuras. Era um segurança da Aeterna — o uniforme branco ainda reconhecível sob a camada translúcida que o cobria. Ela tocou a superfície com a ponta dos dedos.
— Duro como pedra — murmurou ela. — Mas não é pedite. É...
Ela raspou uma amostra com a unha, analisou no scanner do seu deck.
— Polímero de construção rápida. O mesmo que usam para selar rachaduras na estrutura da torre. Solidifica em contato com o ar em menos de três segundos.
— Alguém usou isso como arma — disse Gabo, olhando ao redor. Contou pelo menos vinte figuras congeladas no corredor. Vinte pessoas que morreram sem entender o que estava acontecendo.
— Eu — disse uma voz.
Saindo das sombras além das estátuas, caminhando com a elegância perturbadora de um predador em seu habitat natural, estava o Taxidermista.
Gabo ergueu a escopeta. Aria recuou, posicionando-se atrás dele. Val sacou sua pistola de pulso.
Mas o assassino que aterrorizara Baía Cinzenta por anos não parecia interessado em atacar. Ele... evoluíra.
Metade de seu corpo havia sido substituída por... partes. Não próteses elegantes como as da Aeterna. Peças de CP-Z — os robôs de patrulha — soldadas grosseiramente em carne. Sucata industrial fundida com osso. Uma perna era um pistão hidráulico de escavadeira. Um olho era a lente de uma câmera de vigilância, girando constantemente, capturando tudo.
E um de seus braços... um de seus braços havia sido transformado em um dispensador de polímero industrial. O mesmo material que cobria os corpos. Modificado, adaptado, transformado em uma arma de imobilização instantânea.
— Vocês demoraram — disse o Taxidermista. Sua voz era estranha — metade humana, metade o chiado de um alto-falante danificado. — Eu estava ficando entediado de "preservar" esses guardas. A arte perde o significado quando não há público para apreciá-la.
Gabo não baixou a arma.
— Você está do nosso lado agora?
O Taxidermista riu. O som era perturbador — começava humano e terminava metálico, como se duas criaturas diferentes compartilhassem o mesmo corpo.
— Lado? — Ele inclinou a cabeça em um ângulo que nenhum pescoço humano deveria permitir. — Não há lados, Inspetor. Há apenas a Arte. E destruir essa torre... ah, essa será a minha Capela Sistina de caos. Minha obra-prima final. O mundo inteiro vai assistir o momento em que a ordem se desfaz em entropia pura.
Ele apontou com o braço humano para o corredor além das estátuas.
— O caminho está limpo. Eu "preservei" todos os que tentaram impedir minha passagem. — Uma pausa. O olho-câmera focou em Gabo com intensidade perturbadora. — Mas o "Cão de Guarda" do Prefeito está esperando no Hub de Comunicações. E ele está... diferente.
— Diferente como?
O Taxidermista sorriu. Não era um sorriso humano. Era a expressão de algo que estudara sorrisos e tentava replicar sem entender o propósito.
— Você vai ver.
Ele se encostou na parede, seu corpo híbrido fazendo sons de engrenagens e articulações, e gesticulou para que passassem.
— Vão. Eu seguro os reforços que virão pelo túnel quando perceberem que vocês entraram. Quero ver como essa história termina. E se terminar mal para vocês... bem, artistas precisam de material.
Gabo trocou um olhar com Val. Ela deu de ombros — o gesto universal de "não temos escolha melhor".
Eles passaram pelo serial killer e correram em direção ao elevador de carga, deixando para trás as estátuas de terror e o monstro que as criara.
Dentro do elevador — uma cabine industrial grande o suficiente para carregar veículos —, o silêncio era opressor. O único som era o zumbido dos cabos de aço e a respiração pesada de Gabo.
Aria quebrou o silêncio.
— O Santo está lá embaixo. — Sua voz era suave, quase um sussurro, mas carregava um peso que fez o ar parecer mais denso. — E ele está sofrendo.
Gabo olhou para ela. A menina olhava para o chão do elevador, mas seus olhos heterocromáticos estavam desfocados, vendo algo além do metal e da luz.
— Ele é uma máquina, Aria. Máquinas não sofrem.
— Não — disse ela, e havia uma tristeza antiga em sua voz que não pertencia a uma criança. — Ele é um homem. Um homem que não pode morrer. Um homem que foi obrigado a viver quando tudo o que ele queria era descansar.
O elevador parou. O display marcava: HUB DE COMUNICAÇÕES - NÍVEL CENTRAL.
As portas se abriram com um silvo pneumático.
E lá, no centro da sala hexagonal, rodeado por telas que mostravam cada câmera da cidade, conectado a centenas de cabos que entravam em seu corpo como raízes de uma árvore invertida...
Estava O Santo.
Sem a máscara.
Gabo sentiu o mundo parar.
O rosto do Santo era uma paisagem de horror e pena. Cicatrizes sobre cicatrizes, camadas de pele reconstituída sobre metal, sobre osso, sobre mais metal. Um olho era humano — cansado, velho, cheio de uma dor que nenhuma droga podia aliviar. O outro era uma câmera, idêntica à do Taxidermista, mas maior, mais invasiva, enxertada tão profundamente no crânio que era impossível dizer onde a máquina terminava e o homem começava.
Mas os traços...
Gabo conhecia aqueles traços.
A linha do maxilar. O formato do nariz. A curvatura específica da bochecha sob a devastação.
Eram traços de Kael, o mercenário mudo que os perseguira no início de tudo. O homem que Gabo havia "matado" na represa, congelando-o com nitrogênio líquido.
Mas havia mais. Sob as cicatrizes, nas partes do rosto que ainda eram reconhecíveis...
Havia Marco. Marco Moretti. Seu irmão.
Não todo ele. Pedaços. Uma fusão grotesca de dois homens que se odiavam, unidos em uma única carne sofrida.
— O que eles fizeram? — sussurrou Val, a voz falhando.
O Santo — a criatura que um dia fora homens — ergueu a cabeça. O movimento foi mecânico, forçado, como se cada músculo precisasse de autorização consciente para funcionar.
— Gabo... — A voz era uma mistura impossível. A frieza sintética de Kael. O desespero humano de Marco. Duas consciências presas em um único corpo destroçado. — Eu... nós... precisamos de ajuda...
E então, o outro tomou controle.
O olho humano fechou. O olho-câmera brilhou em vermelho. Os cabos que conectavam o Santo ao sistema começaram a pulsar com energia.
— INTRUSO DETECTADO — A voz agora era apenas máquina. — PROTOCOLO DE DEFESA ATIVADO.
O Santo rugiu — um som que era metade grito humano, metade alarme industrial — e arrancou os cabos de seu próprio corpo. A carne rasgou. Fluidos jorraram — não sangue vermelho, mas óleo negro misturado com algo que brilhava azul como eletricidade líquida.
Ele se levantou. Dois metros e meio de metal e músculo fundidos, movendo-se com uma velocidade que desafiava a física.
Gabo ergueu a Caronte.
— Marco, se você ainda está aí dentro... me perdoa.
A batalha final pela alma da cidade tinha começado.
E Gabo sabia, com a certeza de quem já perdeu tudo duas vezes, que nem todos eles sairiam vivos daquela sala.
