Appearance
Capítulo 207: O Peso da Ferrugem
A escuridão dentro do duto de escoamento era tão espessa que parecia ter peso. O ar parado sufocava os pulmões com o gosto rançoso de lodo industrial e metal oxidado. Cada movimento no espaço confinado era uma negociação cruel entre os limites do meu corpo arruinado e a necessidade instintiva de continuar respirando.
A lanterna tática no antebraço de Valéria era nosso único farol, projetando um feixe clínico que delineava as paredes circulares do conduíte. O lodo cinzento nas superfícies refletia a luz branca, dando ao túnel a aparência de uma garganta doentia prestes a nos engolir.
— A integridade estrutural deste segmento apresenta níveis críticos de fadiga, — relatou Valéria, a voz em Modo de Segurança despida de qualquer inflexão. Ela liderava a descida rastejante, seus sensores operando em uma frequência impossível para olhos biológicos. — Sugiro minimizar vibrações percussivas.
— Entendido, — murmurei, tentando controlar a respiração. Meu ombro direito pulsava com uma intensidade que quase me cegava, os músculos rasgados protestando contra o esforço contínuo.
Atrás de mim, o rastejar de Elias era pontuado por gemidos abafados. O garoto estava no limite. O espaço estreito obrigava-nos a engatinhar sobre uma camada de água turva e detritos que arranhavam nossos joelhos e mãos.
— Minhas mãos tão dormentes, Gabo, — a voz dele ecoou fracamente, espremida pelo medo. — Quanto mais a gente tem que descer? Parece que a gente tá sendo enterrado vivo.
O pânico nas palavras de Elias fez a temperatura ao meu redor despencar. A claustrofobia era um gatilho perigoso, uma porta destrancada na minha mente fraturada. Antes que eu pudesse reprimir, o cheiro fantasma de tabaco — pesado, acre e inconfundível — rastejou pelas minhas narinas. A fumaça invisível do charuto do meu pai pareceu preencher o duto, fechando-se em volta do meu pescoço, ameaçando asfixiar-me nas profundezas daquele abismo.
Tranquei os dentes e deixei meu corpo cair para o lado, esmagando violentamente o ombro lacerado contra a parede curva do duto. O impacto enviou uma onda de choque elétrico direto para a minha espinha. A agonia era tão pura e imediata que a alucinação olfativa despedaçou-se em um instante, substituída pelo gosto acobreado de sangue da minha própria língua mordida.
— A gente desce até acabar a descida, garoto, — rosnei, recuperando o fôlego a muito custo. A dor era um velho amigo, o único que nunca me traía. — Concentra na luz da Valéria. Um metro de cada vez. Não para de se mover.
— Movimento detectado a quarenta metros, declive abaixo, — interrompeu Valéria. A lanterna piscou brevemente antes de focar em uma grade entupida de biomassa apodrecida no final do túnel. — Padrão térmico irregular. Temperatura inferior ao ambiente.
Engatilhei a escopeta com uma das mãos, o som metálico reverberando como um trovão enjaulado. Minha órtese esquerda rangeu, o servo motor protestando contra a umidade.
— É a Praga? — Elias ofegou, o terror paralisando seus movimentos.
— A Praga consome calor e metal, Elias. Isso soa diferente, — respondi, forçando meu corpo destroçado a continuar o rastejo em direção ao desconhecido. A escuridão à frente parecia densa o suficiente para cortar com uma faca, mas a dor no meu ombro me mantinha letalmente desperto. — Valéria, prepare-se para contato.
— Sistemas de combate operando em capacidade otimizada, — a resposta gelada dela cortou o silêncio lúgubre.
Não havia espaço para manobrar. Não havia recuo. Estávamos descendo para o ventre de uma cidade que há muito tempo devorava os seus filhos, e eu não pretendia ser a próxima refeição sem arrancar alguns dentes no processo.