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Capítulo 218: O Ar Limpo

A porta cedeu os últimos centímetros sozinha.

Não empurrei. Ela simplesmente continuou, puxada por um contrapeso que alguém havia calibrado antes de eu nascer, e o movimento foi tão silencioso que parecia indelicado. Sessenta anos de espera e nenhum rangido. Fiquei ali segurando o volante como um idiota, com sangue escorrendo pela perna e a respiração saindo em nuvens brancas, enquanto quatro metros de chumbo se abriam para mim com a cortesia de um mordomo.

O que veio de dentro não foi som. Foi ausência de som.

Eu tinha esquecido que existia diferença. Nos últimos meses, o silêncio de Baía Cinzenta sempre teve textura: goteira, ferrugem se assentando, o estalo distante de alguma coisa orgânica crescendo onde não devia. Aquilo ali era outra categoria. Um silêncio construído, projetado, pago caro. Um silêncio que custou dinheiro.

— Pressão positiva, — Valéria disse atrás de mim. — O ar está saindo, não entrando. A câmara se mantém acima da pressão externa desde que foi selada. Isso significa que nada lá de fora entrou aqui. Nunca.

— E o que significa a gente entrar?

— Significa que nós somos a primeira contaminação.

Eu ri. Doeu no ombro, e a risada virou tosse, e a tosse trouxe gosto de moeda velha para a boca. A febre estava subindo desde a passarela; agora eu conseguia sentir meu próprio pulso batendo dentro do ferimento, como se houvesse um segundo coração alojado ali, menor e mais raivoso que o primeiro.

Atravessei a soleira.

O chão do outro lado era liso. Não limpo — liso. Epóxi industrial branco, sem uma rachadura, sem uma mancha, refletindo a luz da lanterna moribunda de Elias em um borrão pálido que se estendia por trinta metros. As paredes eram do mesmo branco. O teto tinha luminárias embutidas, apagadas, alinhadas com uma precisão que ofendia.

Depois de meses em dutos, esgotos e galerias de osso, aquele corredor branco me pareceu obsceno.

— Não, — Elias disse.

Ele estava parado na porta, sem passar. A lanterna tremia na mão dele.

— Não o quê?

— Isso não pode estar aqui. — A voz dele saiu fina. — Eu trabalhei quatro anos em manutenção. Eu conheço cada duto do Setor 6. Isso não está em planta nenhuma. Isso não existe.

— Agora existe. Entra.

— Tem alguma coisa errada com o cheiro.

Eu parei. Porque ele tinha razão, e eu não tinha percebido o que estava me incomodando desde que a porta abriu.

Não havia cheiro.

Nada. Nem mofo, nem ferrugem, nem podridão doce da biomassa, nem o ozônio queimado que vinha grudado nas nossas roupas desde o Arquivo. Eu inspirei fundo, procurando qualquer coisa, e o ar entrou nos meus pulmões como água destilada. Frio. Neutro. Vazio.

E foi aí que eu entendi o presente que aquele lugar estava me dando.

Não havia charuto.

Meses. Meses de fumaça fantasma rastejando pelo meu nariz toda vez que o escuro apertava, meses batendo a prótese em ferro e jogando o peso no ombro rasgado para comprar dez segundos de lucidez, e ali, naquele corredor branco e obsceno, meu cérebro não tinha absolutamente nada com que construir a mentira. Nenhuma partícula. Nenhum gancho.

Pela primeira vez desde que desci, meu pai não estava fumando dentro da minha cabeça.

Encostei a testa na parede fria e fiquei ali, respirando, como um homem que descobriu tarde demais o que era descanso.

— Gabo. — Valéria. — Sua temperatura corporal é de trinta e nove vírgula quatro. Você está com sepse sistêmica. A euforia é sintoma.

— Deixa eu ter isso.

— Eu não estou impedindo. Estou registrando.

Ela passou por mim. Os passos dela naquele piso não faziam barulho nenhum, e o azul fraco das lentes varria as paredes em arcos regulares, metódicos, sem um grau de desperdício. Eu observei a Valéria trabalhar e senti a coisa de sempre — aquele aperto sujo entre as costelas que eu não sabia nomear e não tinha coragem de tentar.

Ela nem olhava para trás para conferir se eu vinha.

A antiga Val teria olhado. A antiga Val teria olhado três vezes, teria feito uma piada sobre eu ser lento, teria xingado o corredor por ser branco demais. Essa versão apenas media.

Elias finalmente atravessou a porta. Deu três passos, parou e cobriu a boca com a mão.

Achei que fosse vomitar. Não era.

Ele estava chorando.

— Ei. — Fui até ele, mancando. — Ei, Elias.

— É limpo. — Ele falou por trás da mão, e a voz saiu quebrada em pedaços pequenos. — Cara, é limpo. Eu esqueci. Eu esqueci que o ar podia ser assim. Eu fiquei trancado naquela sala catorze meses respirando meu próprio... eu esqueci.

Ele encostou nas costas na parede branca e escorregou até o chão, e ficou lá sentado, chorando de forma feia e sem vergonha nenhuma, do jeito que uma pessoa normal chora.

Eu não soube o que fazer com aquilo. Faz muito tempo que ninguém chora perto de mim por um motivo bom.

Coloquei a mão de carne no ombro dele. Deixei lá. Não disse nada, porque tudo que eu sei dizer sai como lâmina, e não era hora.

Valéria continuou andando.


O corredor terminava em uma antecâmara hexagonal.

Seis portas. Cinco fechadas, uma entreaberta. No centro, um pedestal de aço escovado com uma placa fundida — não impressa, fundida, letras em relevo, do jeito que se faz quando você espera que alguém leia aquilo daqui a quinhentos anos.

INSTALAÇÃO ZERO — CUIDADO PERPÉTUOAETERNA S.A."A memória não apodrece."

Li três vezes.

— Aeterna, — falei. — Cuidado perpétuo.

— É terminologia funerária, — Valéria disse. — Cuidado perpétuo é o contrato pelo qual um cemitério se compromete a manter um túmulo indefinidamente, mediante pagamento único. O termo cai em desuso na década de trinta.

— Você está me dizendo que a Aeterna começou como cemitério.

— Estou dizendo que a placa é de uma empresa de cuidado perpétuo, e que essa placa tem sessenta e um anos.

Fiquei olhando para o aço escovado por um tempo longo demais.

Sessenta e um anos. Antes do Lázaro. Antes de Krell. Antes do Jardim, do Sentinel, da Praga de Ferro, do Gamemaster usando o rosto do meu pai como máscara de festa. Antes de tudo que eu passei quinze anos tentando entender, tinha um sujeito de terno decidindo que a memória não devia apodrecer, e mandando fundir isso em metal.

Todo o inferno que eu atravessei começou como uma promessa de bom gosto.

— Gabo. — Valéria estava na porta entreaberta. — Você vai querer ver isto.

Fui.

Era uma galeria longa, e nela o branco finalmente cedia. As paredes se abriam em nichos — dezenas, talvez uma centena — dispostos em duas fileiras que se perdiam na escuridão. Cada nicho abrigava uma cápsula de vidro grosso deitada na horizontal, do tamanho de uma pessoa, envolta em serpentinas de cobre e cabos analógicos trançados à mão.

Berços.

Todos apagados. Todos vazios. Vidro limpo, forro branco, nenhuma marca, nenhuma poeira. Cem caixões de luxo esperando ocupantes que nunca chegaram, ou que chegaram e foram embora, ou que — a possibilidade me ocorreu com uma frieza que não tinha nada a ver com a febre — nunca foram destinados a ser pessoas.

Andei pela galeria contando. Cheguei a oitenta e três e parei de contar, porque no fim do corredor havia uma luz.

Um único berço, no último nicho, com o painel aceso.

Verde.

O vidro estava embaçado por dentro. Alguma coisa ali dentro ainda estava quente o suficiente para condensar.

Elias parou no meio da galeria e se recusou a chegar mais perto. Valéria foi até o painel e ficou lendo os mostradores analógicos com aquela calma de metrônomo.

Eu cheguei até o vidro. Limpei a condensação com a lateral da mão de carne.

E o rosto que apareceu do outro lado eu conhecia.

Eu conhecia daquele rosto o suficiente para saber que, se ela estava ali, dormindo limpa e intacta enquanto a cidade inteira apodrecia trinta andares acima da cabeça dela, então nada — absolutamente nada — do que aconteceu com Baía Cinzenta tinha sido acidente.

— Valéria, — eu disse, e minha voz saiu estranha até para mim. — Me diz que esse painel está quebrado.

— O painel está funcional. Sinais vitais estáveis. Atividade cortical presente e elevada.

— Elevada.

— Ela não está inconsciente, Gabo. — Valéria virou o rosto para mim, e o azul dos olhos dela iluminou o vidro entre nós dois. — Seja o que for que esse berço faz, ele não desliga a mente. Ela está acordada aí dentro.

E, do outro lado do vidro, a Dra. Elara Vance abriu os olhos azul-gelo e olhou diretamente para mim.