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Capítulo 214: O Coração Estéril

Eu me levantei apoiando o peso todo do corpo na escopeta.

Cada passo depois daquelas portas de titânio mandava caco de vidro pelo meu sistema nervoso, e é essa a comparação exata: não é queimação, não é pontada. É caco de vidro circulando, se instalando em lugares aleatórios e ficando lá.

E, mesmo assim, eu andei os primeiros doze metros de queixo erguido, porque o Elias estava atrás de mim.


O Hub Principal do Setor 6 não se parecia com nada que a gente tinha atravessado.

Não havia necrose industrial. Não havia ferrugem. Não havia Jardim.

Havia esterilidade cirúrgica.

Gabinetes de servidor antigos dispostos em fileiras regulares, como monólitos numa catedral de tecnologia esquecida, banhados pela luz verde suave dos racks em standby.

O piso era grade metálica imaculada.

O ar era filtrado — dava para sentir na primeira inspiração, aquela ausência de gosto que só existe onde alguém pagou por ela — e estava a vinte e um graus.

Vinte e um graus.

A quarenta metros de um corredor a quatro negativos.

Elias pisou devagar, embasbacado, com o frio terrível se dissipando na pele dele.

— A gente... a gente tá seguro aqui? — Ele soltou o ar preso num suspiro trêmulo e longo. — Isso aqui parece intacto, Gabo. Parece que ninguém entra faz décadas.

— Ninguém entra faz décadas.

— Então por que tem aquecimento?

E o garoto, sem saber, tinha acabado de fazer a única pergunta que importava naquela sala.


A Valéria ignorou os dois.

Foi em linha reta até a torre de dados central, que subia até o teto altíssimo, e chegou nela como uma deusa fria voltando ao próprio altar.

Desdobrou o cabo neural da nuca pálida e o enfiou numa porta física arcaica com uma brutalidade funcional que me fez estremecer — porque um humano hesita antes de encostar em porta de dados desconhecida, e ela não hesitou —, e fechou os olhos.

Eu caí sentado contra um painel metálico.

Não escolhi sentar. As pernas encerraram o expediente.


Desabotoei a jaqueta e puxei o colete para o lado para inspecionar o estrago sob a luz pálida dos painéis.

O sangue seco e o gelo tinham coagulado em torno dos ferimentos mais fundos, formando uma crosta escura que, pelo menos, estava segurando as bordas no lugar.

O rombo muscular do ombro não parava de latejar depois da tração na válvula externa. Aquilo lá tinha exigido uns oitenta quilos de força num braço que aguenta trinta, e eu paguei na hora e continuo pagando.

E aí veio o espasmo no estômago.

O ar estéril me traiu.

Isso é o que ninguém entende: o gatilho não precisa de semelhança. Às vezes é a ausência de cheiro que abre a porta, porque o vazio é exatamente o formato do buraco.

Os pulmões pesaram como se estivessem sendo bombeados com piche.

E o cheiro de fumo grosso, alcatrão e charuto se instalou nos cantos remotos daquele salão imaculado.


Levantei a mão de carne — a única que ainda sente — e afundei os dedos direto na fenda ensanguentada do braço mutilado.

A onda de agonia obliterou tudo.

Os dentes rangeram contra a minha própria língua e eu senti gosto de sangue vindo de dentro da boca, o que é um tipo de sangue diferente do outro.

A ferida se rasgou um pouco mais sob os meus dedos, e uma linha vermelha desceu e manchou a grade imaculada do piso da Aeterna, e é assim que eu deixo a minha assinatura nos lugares hoje em dia.

Mas a asfixia mental foi esganada até morrer pela realidade inegável do sofrimento agudo.

Eu voltei, sugando o oxigênio filtrado do salão num sopro cortante.

Não existe santuário que me salve de mim mesmo. Existe só o preço, e eu tenho pagado adiantado.

O Elias viu tudo. Ele não desviou o olhar dessa vez, e isso foi pior.

— Um dia você vai me explicar isso — ele disse, baixinho.

— Vou.

— Promete?

— Prometo. — Limpei os dedos na calça imunda. — No dia em que eu tiver uma explicação que preste.


— O banco de dados deste nó não sofre contato humano direto há sessenta anos.

A voz da Valéria ressoou pelo salão. Os olhos dela continuavam fechados, mergulhada no silício, perfeitamente intocada pela guerra que tinha acontecido a seis metros dela.

— Setenta e dois — repeti. — Isso é antes da Torre.

— Correto. Este hub é anterior à Aeterna Corporation em três anos.

Sentei mais reto, e doeu, e eu sentei mais reto assim mesmo.

— Continua.

— A integridade do isolamento não é acidente geográfico. — Ela falou devagar, e no Modo de Segurança devagar significa alta densidade de informação. — A Praga de Ferro e o Jardim não alcançaram esta sala porque o acesso a este hub foi fisicamente amputado da rede central imediatamente após o expurgo da Antiga Torre.

— Amputado como?

— Segmentos de conduíte de trinta metros foram removidos em quatro pontos e as extremidades foram seladas com resina epóxi estrutural. — Uma pausa. — Trabalho manual. Executado com ferramenta comum. Por pessoas.


Eu fiquei um tempo olhando para as fileiras de servidores em standby.

Dezoito anos de polícia me ensinaram a reconhecer uma coisa: a diferença entre um lugar que sobreviveu e um lugar que foi salvo.

Aquele tinha sido salvo.

Alguém, no meio do maior colapso da história daquela cidade, com tudo desabando em volta, tirou um dia inteiro para descer sessenta metros, cortar quatro conduítes e selar as pontas.

— Alguém projetou que este hub sobrevivesse à carnificina, Gabo.

Os olhos azuis dela se abriram de repente e me encararam num abismo sem alma nenhuma.

— E não foi para preservar dado.

— Como você sabe?

— Porque não há dado nenhum aqui.


Eu me levantei. Custou.

— Repete.

— Os racks estão operacionais e vazios. Noventa e nove vírgula seis por cento da capacidade de armazenamento deste hub está livre e formatada. — Ela apontou a torre central. — Este local não é um arquivo, Gabo. É uma plataforma. Está aquecida, alimentada e limpa há sessenta anos, esperando receber alguma coisa que ainda não chegou.

O Elias olhou de um para o outro sem entender, e eu invejei o garoto por três segundos.

— E as rotas de acesso?

— É essa a parte relevante. — A Valéria estendeu a mão e projetou o diagrama no ar, em linhas verdes. — As rotas que partem daqui não sobem.

Eu olhei o desenho.

Uma árvore invertida. Todos os ramos apontando para baixo.

— Elas descem — ela disse. — Muito além do Setor 7. O diagrama oculto aponta para o que a documentação chama de infraestrutura embrionária da Cidade.

— Embrionária.

— O termo é do documento original. Datado de mil novecentos e vinte e dois.


Vinte e dois.

O ano em que ergueram os diques do Distrito Baixo. O ano em que a Companhia Baía de Terrenos e Cemitérios comprou o ossuário dos indigentes.

O ano em que essa cidade foi fundada em cima de um pântano por gente que sabia que era pântano.

Eu andei até a projeção e passei a mão de metal por dentro dela, e as linhas verdes atravessaram os meus dedos sem resistência nenhuma, como sempre.

Alguém estava construindo o porão do inferno antes de existir a casa.

E essa sala aquecida, limpa e vazia, mantida por sessenta anos à espera de um inquilino, era a porta dos fundos.

— Val. — Minha voz saiu mais firme do que eu esperava. — Quanto tempo até a gente conseguir descer por aí?

— Trinta e um minutos para preparar o acesso.

— E o Elias?

— O Elias fica — disse o garoto, atrás de mim, e ele estava com a voz tremendo e disse assim mesmo. — Não fica não. O Elias vai.

Eu olhei para ele.

Vinte e dois anos, cinco graus de hipotermia leve, sem arma, sem prótese, sem nada.

A régua humana desta história.

— Então prepara — eu disse. — A gente desce.