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Capítulo 62: O Santo e a Criança

Exterior da Van - Beco Industrial

A porta traseira da van foi arrancada como se fosse feita de papel alumínio. A figura que estava lá fora bloqueava a pouca luz da lua.

O Santo.

Ele usava seu traje tático habitual, uma mistura de padre e executor. A máscara balística branca, sem feições, refletia o medo de quem a olhasse.

Gabo disparou três vezes. Os tiros atingiram o peito do gigante, mas ele nem recuou. Kevlar reforçado com placas de cerâmica.

O Santo avançou, rápido demais para um homem daquele tamanho. Ele agarrou Gabo pelo pescoço e o arremessou contra a parede do beco. O impacto fez o ar sair dos pulmões de Gabo e as órteses chiar em protesto.

Val tentou atacá-lo com uma barra de ferro, mas O Santo apenas a empurrou com o dorso da mão, jogando-a para dentro da van, desacordada.

Gabo tentou se levantar, mas O Santo colocou a bota pesada sobre seu peito, pressionando. Gabo ouviu suas costelas estalarem.

— O Prefeito manda lembranças — disse O Santo. A voz era distorcida, metálica.

Ele levantou o punho para o golpe final. Aquele golpe que quebrava pescoços.

Aria saiu da van.

Ela não correu. Ela caminhou até o gigante. Pequena, descalça, segurando sua boneca.

Pare — ela disse. Não mentalmente. Ela falou, com uma voz rouca de quem não usava as cordas vocais há muito tempo.

O Santo congelou. O punho parou no ar.

Ele virou a cabeça lentamente para a menina. As lentes de sua máscara focaram nela.

Aria levantou a mão e tocou a perna blindada do assassino.

Você dói — disse ela.

O Santo recuou, como se tivesse levado um choque. Ele tirou o pé do peito de Gabo e cambaleou para trás, levando as mãos à cabeça.

— Não... — A voz do Santo falhou. Parecia humana agora. Confusa. — O alvo... protocolo... erro...

Ele olhou para Aria, depois para as próprias mãos enluvadas.

— Quem... é você? — perguntou O Santo.

Gabo aproveitou a distração. Ele pegou a escopeta "Caronte" que tinha caído ao seu lado.

Mas ele não atirou. Ele viu algo estranho. O Santo estava tremendo.

Irmão — disse Aria.

A palavra pairou no ar, pesada e impossível.

O comunicador no ouvido do Santo apitou alto. Gabo pôde ouvir a voz de Roberto Miranda gritando: "Mate a garota! Execute o protocolo agora, seu pedaço de lixo!"

O Santo gritou, um som de fúria e dor, e socou a parede de tijolos ao lado dele, demolindo-a.

Ele olhou para Gabo, depois para Aria.

— Corram — rosnou ele. — Antes que ele assuma o controle de novo.

Gabo não questionou. Ele pegou Val, que estava acordando, agarrou a mão de Aria e correu para a escuridão, deixando o monstro lutando contra seus próprios demônios no beco chuvoso.