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Capítulo 87: O Novo Sacerdócio
Catedral de Ferro (Antigo Esgoto, agora Superfície) - Tarde
A topografia da cidade havia mudado. As raízes gigantescas que cresceram do subsolo empurraram estruturas inteiras para cima. O que antes era o esgoto, o domínio de Padre Miguel, agora era uma colina elevada, uma catedral a céu aberto feita de tubos de drenagem e árvores petrificadas.
O Capitão Jonas Vilar, agora usando um tapa-olho (o original fora perdido para uma infecção fúngica), liderava a milícia de "Puros". Eram os que recusavam a Simbiose. Viviam em enclaves fortificados, usando tecnologia antiga, isolados da rede biológica da cidade.
Mas eles precisavam negociar.
Diante de Vilar, sentado em um trono feito de ossos e servidores derretidos, estava o Sumo Sacerdote do Culto do Silêncio.
Não era o Profeta Mudo. Aquele fora apenas um peão.
Este era Teo, o antigo técnico de TI da delegacia. O garoto tímido que trazia café. Agora, ele tinha quatro braços adicionais saindo das costas, membros insetoides que digitavam no ar invisível, manipulando a realidade local.
— Capitão Vilar — disse Teo, sua voz multiplicada por cordas vocais extras. — Vocês estão consumindo muita água. A Colmeia está sedenta.
— A água é de quem pega — rosnou Vilar. — Não reconhecemos sua autoridade, Teo.
— Autoridade é uma construção do velho mundo. Nós falamos de necessidade. — Teo fez um gesto, e as vinhas ao redor do trono se agitaram. — Se vocês não cederem a estação de tratamento, nós cortaremos o oxigênio do seu enclave.
— Vocês não podem fazer isso.
— As plantas produzem o ar que vocês respiram, Capitão. Nós controlamos as plantas. Nós controlamos a vida.
Vilar sabia que era verdade. O enclave dos Puros só sobrevivia porque os Jardineiros permitiam.
— O que vocês querem em troca da água? — perguntou Vilar, derrotado.
Teo sorriu. Seus dentes eram feitos de cristal de quartzo.
— Queremos o Moretti.
Vilar gelou.
— Gabo? Ele está ferido.
— Mentira. Sabemos que Dra. Nise o mantém escondido, longe da Raiz. Traga-nos o Moretti. O Pai quer... integrá-lo.
— Ele é um homem. Vocês odeiam gente.
— Nós não odiamos gente, Capitão. Nós odiamos o velho mundo. Moretti é a semente perfeita para o novo. Entregue-o, e seu povo terá água e ar por uma geração.
Vilar saiu da negociação com o estômago embrulhado. Trair a última esperança da humanidade para sobreviver mais um dia?
Era uma escolha que ele esperava nunca ter que fazer. Mas em Baía Cinzenta, esperança era uma moeda que já não valia nada.
