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Capítulo 100: O Ventre da Besta

Zona de Exclusão Sul - Antiga Linha Vermelha do Metrô

O Cobalt azul-metálico cortava a neblina como uma lâmina cega. O motor tossia, engasgando com a gasolina de baixa octanagem que Gabo conseguira comprar no mercado negro trocando três caixas de antibióticos.

Ele não fumava — na verdade, detestava o cheiro, uma herança maldita do pai —, mas seus dedos tamborilavam no volante em um ritmo frenético, um tique nervoso para manter a mente alerta. Ao seu lado, no banco do passageiro, o cubo preto repousava, silencioso e inerte, como uma bomba esperando o detonador.

Gabo parou o carro diante da entrada lacrada da estação "Jardim das Flores". O nome era uma piada cruel de um urbanista morto há décadas; não havia flores ali, apenas concreto, pichações e o cheiro acre de enxofre.

Ele desceu do carro, ajustando as cintas das órteses nas pernas. O clique-clique metálico das travas passivas acompanhou seus passos até a grade.

— Você demorou — disse uma voz vinda das sombras da bilheteria.

Elena Moretti saiu da escuridão. Ela não parecia mais a jornalista idealista que tentara salvar o legado do irmão. Seu cabelo estava curto, cortado irregularmente com faca. Ela vestia um casaco militar grande demais e botas pesadas cobertas de lama seca. Em suas mãos, uma espingarda de cano serrado.

— O trânsito estava ruim — Gabo tentou sorrir, mas a dor nas pernas transformou a expressão em uma careta. — O apocalipse engarrafou a Avenida Central.

Elena não sorriu. Seus olhos varreram a rua deserta atrás dele.

— Você trouxe?

Gabo apontou para o carro. Elena foi até lá, pegou o cubo e o examinou com uma intensidade quase religiosa.

— Elara estava certa — murmurou ela. — Eles conseguiram compactar.

— Compactar o quê? — perguntou Gabo, aproximando-se. — O que é o Berçário, Elena?

Ela o encarou, e Gabo viu um medo profundo naqueles olhos, um medo que ele só vira em veteranos que encararam o "Santo" nos olhos.

— Não é um servidor, Gabo. Aeterna não estava construindo uma IA. Eles estavam construindo um corpo.

Ela fez um sinal para que ele a seguisse. Eles pularam a catraca quebrada e começaram a descer as escadas rolantes paralisadas.

— Dante descobriu antes de morrer — explicou ela, a voz ecoando no túnel. — O "Projeto Gênesis" não era sobre upload de consciência. Era sobre download. Eles queriam trazer algo de lá para . Mas precisavam de um receptáculo que aguentasse a latência. Silício queima. Carne aguenta.

Eles caminharam pelos trilhos por quase uma hora. A escuridão era absoluta, quebrada apenas pelas lanternas táticas. O ar ficava mais quente e úmido à medida que desciam. O cheiro mudou. Não era mais esgoto. Cheirava a... estufa. Terra molhada e algo doce, enjoativo.

— Estamos chegando — avisou Elena.

Eles pararam diante de uma porta blindada maciça, marcada com o logo da Aeterna e pichada com símbolos estranhos — espirais e olhos — feitos com tinta vermelha.

— O sistema é isolado — disse Elena, conectando um terminal portátil, uma relíquia cheia de fios expostos, ao painel da porta. — Sem wi-fi, sem bluetooth. Apenas cabo. Como nos velhos tempos.

Ela digitou furiosamente. Gabo observou a tela verde monocromática.

— Qual a senha? — perguntou ele.

— Não é uma senha. É uma localização. Eles esconderam o acesso na geografia da cidade.

Elena digitou: BERCARIO.

O terminal bipou.

>> ACESSO CONCEDIDO. BEM-VINDO AO NÍVEL 0.

As travas hidráulicas da porta gemeram. O metal gritou contra a ferrugem, e a porta se abriu lentamente, liberando uma lufada de ar quente e úmido.

Gabo ergueu a lanterna, mas o facho de luz foi engolido pela imensidão do que havia do outro lado.

Não era uma sala. Era uma caverna colossal, escavada sob as fundações da cidade. E não estava vazia.

No centro, pendurado no teto por cabos grossos como troncos de árvores, havia um casulo. Um coração gigantesco, pulsando com luz bioluminescente roxa e vermelha. Tubos translúcidos saíam dele, bombeando um fluido viscoso para centenas de tanques menores dispostos em fileiras no chão.

— Meu Deus... — sussurrou Gabo.

Ele se aproximou de um dos tanques. O vidro estava embaçado, mas ele limpou com a luva.

Dentro, flutuando no líquido amniótico sintético, havia uma forma humanoide. Sem rosto, sem pele, apenas músculo exposto e fios metálicos entrelaçados nas fibras.

— Protótipos — disse Elena, parando ao lado dele. — "Carne Mecânica". É isso que o Silas Vance e os Jardineiros estão protegendo. Eles não estão cultivando plantas, Gabo. Estão cultivando anjos.

O chão estremeceu. Um som grave, como o bater de um tambor gigante, veio do casulo central.

BUM-BUM.

— Está vivo? — perguntou Gabo, sentindo o tremor nas pernas mecânicas.

— Pior — respondeu Elena, engatilhando a espingarda. — Está com fome. E nós acabamos de tocar a campainha do jantar.

Da escuridão atrás dos tanques, silhuetas começaram a se erguer. Elas não tinham o andar desajeitado dos robôs, nem a fluidez humana. Elas se moviam como aranhas, rápidas e silenciosas.

Gabo sacou seu revólver. O cubo no bolso de seu casaco começou a vibrar violentamente, entrando em ressonância com o coração gigante.

— Gabo — disse Elena, a voz firme. — Se não sairmos daqui, nós viramos adubo.

— Então vamos fazer barulho — disse ele.

Ele disparou o primeiro tiro, e o silêncio do subsolo foi quebrado para sempre. O ventre da besta havia acordado, e ele estava furioso.