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Metadados
- Título: Carne e Cobre
- Data In-Game: 23 de Novembro, 05:15
- Localização: Túneis de Manutenção do Distrito 4 / O Fliperama (Safehouse)
- Personagens Presentes: Gabo Moretti, Valéria Cruz, Rangel (Crítico), Aria (Inerte).
- Resumo: Gabo retorna ao esconderijo com os suprimentos médicos, navegando pelos túneis infestados de ratos e silêncio. No "Fliperama", ele e Valéria realizam um procedimento de emergência para conter a sepse de Rangel, enquanto a realidade da condição de Aria — e da própria cidade — começa a pesar.
Narrativa
Capítulo 124: Carne e Cobre
O subsolo de Baía Cinzenta tinha uma acústica própria. No mundo de cima, o som se perdia na vastidão do céu de chumbo; aqui embaixo, ele ricocheteava, amplificado e distorcido pelo concreto úmido. Cada passo de Gabo ecoava como um tiro abafado.
Ele caminhava com o peso do mundo na mochila. Os frascos de antibióticos tilintavam contra as caixas de processadores, um som de vidro e cerâmica que parecia alto demais na escuridão opressiva.
A lanterna tática presa ao ombro do sobretudo cortava a negridão, revelando a arquitetura intestinal da cidade: canos gotejantes cobertos de limo, cabos de fibra ótica rompidos pendurados como tripas expostas e a água oleosa correndo no canal central, carregando os detritos de uma sociedade que havia esquecido como descartar seu lixo.
Gabo parou por um instante, apoiando a mão na parede fria. O suor escorria por suas costas, gelado. A adrenalina do confronto na clínica de Vasco estava baixando, deixando para trás apenas a dor surda das velhas fraturas na coluna e o latejar rítmico no ombro onde a coronha da Caronte batia.
O cheiro do esgoto trazia fantasmas. Um odor fantasma de fumaça de charuto começou a se formar no fundo de sua garganta, a alucinação olfativa do trauma de infância tentando se instalar em meio à sua exaustão. A vontade de gritar, de arrancar a própria pele para escapar da memória do pai, era tentadora. Ele rejeitou o pensamento, mordendo o lábio e apertando o Colar de Sol no bolso até sentir o metal cortar sua mão. Dor era foco. Dor era realidade.
O acesso ao "Fliperama" estava camuflado atrás de uma grade de ventilação falsa. Gabo digitou o código no painel analógico — botões físicos, nada de interfaces neurais que pudessem ser rastreadas. A trava cedeu com um gemido hidráulico.
O ar lá dentro era viciado, uma mistura de óleo de máquina, poeira de eletrônicos e o cheiro inconfundível de doença.
— Val? — ele chamou, a voz rouca.
Valéria surgiu de trás da bancada de monitores, o rosto iluminado apenas pelo brilho azulado de uma tela de backup. Ela parecia um fantasma cibernético, a pele translúcida demais, as olheiras fundas como crateras.
— Você demorou — ela disse, sem acusação, apenas constatando um fato. — A febre dele subiu para 41 graus. Ele está delirando, Gabo. Falando sobre arquivos perdidos de 98.
Gabo largou a mochila sobre uma mesa de trabalho coberta de esquemas técnicos.
— Eu trouxe. Tudo o que Vasco tinha.
Ele foi até o sofá de couro rasgado onde Rangel jazia. O ex-inspetor parecia menor. A pele, geralmente rubicunda, estava cinzenta e úmida. O curativo no abdômen estava empapado de um fluido escuro que cheirava a cobre e podridão.
— Sepse — Gabo murmurou, tocando a testa de Rangel. Estava fervendo. — Precisamos drenar e bombear isso agora.
Valéria se aproximou, segurando uma bandeja de metal com mãos trêmulas.
— Eu... eu nunca fiz isso em carne, Gabo. Hardware eu conserto. Soldo circuitos. Mas isso... é molhado. É caótico.
Gabo olhou para ela. Viu o medo nos olhos biônicos.
— É a mesma coisa, Val. Apenas um sistema hidráulico com vazamento. — Ele mentiu. Não era a mesma coisa. Carne não tinha backup. — Segure a lanterna. E não vomite.
Gabo abriu a mochila e tirou os frascos. Ceftriaxona. Adrenalina. Morfina. Ele quebrou as ampolas com precisão praticada, aspirando os líquidos para seringas descartáveis.
— Segure ele — Gabo ordenou.
Ele cortou as bandagens sujas com uma tesoura de trauma. A ferida era feia, as bordas da carne necrosada ao redor do buraco de bala improvisado. Rangel gemeu, um som gorgolejante, e se contorceu.
— Calma, Rangel. Sou eu. — Gabo pressionou o ombro do homem com o antebraço. — Isso vai doer, mas vai te manter vivo para reclamar depois.
Ele injetou a morfina direto na veia do pescoço, esperando a respiração do homem estabilizar. Em seguida, os antibióticos. E então, a parte suja.
Gabo pegou o bisturi que Vasco lhe dera.
— Luz aqui.
Valéria apontou o feixe de luz, desviando o olhar. Gabo fez a incisão de drenagem. O cheiro piorou instantaneamente. Ele trabalhou com a frieza de quem já vira corpos demais, limpando, irrigando com soro, costurando. Suas mãos, que tremiam ao segurar uma xícara de café, estavam firmes como rocha.
Quando terminou, vinte minutos depois, suas mãos estavam cobertas de sangue. Ele as limpou em um trapo velho, sentindo a textura viscosa.
Rangel respirava melhor agora, menos errático. O monitor cardíaco improvisado bipava em um ritmo lento, mas constante.
Gabo recuou, sentando-se pesadamente em uma cadeira giratória quebrada. Ele tirou o Colar de Sol do bolso e enrolou a corrente nos dedos, apertando até os elos marcarem a pele.
Valéria estava parada diante de outra figura no canto da sala. Aria.
A androide estava sentada em uma cadeira de conexão, cabos grossos ligados à porta de dados em sua nuca. Seus olhos estavam abertos, mas apagados, sem o brilho dourado ou azul. Apenas vidro inerte.
— Tentei rodar um diagnóstico enquanto você estava fora — Valéria disse, a voz baixa. — O núcleo lógico dela está... fragmentado. É como se ela tivesse tentado processar emoção humana usando um compilador binário. Deu stack overflow na alma.
— Ela nos salvou — Gabo disse, olhando para a menina-máquina que usava o rosto de seu passado. — Ela fritou a rede para nos tirar da Usina.
— O custo foi alto, Gabo. O hardware está intacto, mas o software... — Valéria tocou o rosto sintético de Aria. — É "Dívida Técnica", lembra? Ela pegou emprestado processamento que não tinha. Agora o sistema está cobrando.
Gabo se levantou, os servomotores de suas órteses de perna rangendo em protesto, lembrando-o de que ele também era uma máquina falha, cheia de peças remendadas e código ruim.
— Rangel precisa de tempo. Aria precisa de código. E nós precisamos de um plano.
— O apagão não vai durar para sempre — Valéria alertou, voltando para os monitores. — A Aeterna tem backups. Dante... Dante vai acordar.
— Deixe ele acordar — Gabo disse, caminhando até a saída do esgoto, onde a chuva lá fora criava uma cortina de água suja. — Quando ele acordar, nós estaremos prontos. Ou mortos. Não faz muita diferença em Baía Cinzenta.
Ele olhou para as próprias mãos, ainda manchadas de sangue seco nas cutículas. Carne e cobre. Sangue e ferrugem. Era tudo a mesma matéria-prima no final.
— Descanse, Val. Eu assumo o primeiro turno.
Gabo sentou-se na entrada do túnel, a Caronte no colo, ouvindo os ratos correrem na escuridão, esperando o silêncio acabar.