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Metadados

  • Título: O Grito no Silício
  • Data In-Game: Pós-Colapso da Usina Prometeu (Noite Eterna)
  • Localização: Necrópole (Subnível 2.0 - O Arquivo Executivo da Aeterna Corp)
  • Personagens Presentes: Gabo, Valéria, Aria (Reboot)
  • Resumo: A execução do plano suicida. Valéria pluga Aria no terminal do Arquivo. Gabo luta freneticamente contra a exaustão e o delírio da fumaça (trauma paterno) usando o cotoco cauterizado do braço como âncora de dor física. O Aeterna Sentinel despeja dados para esmagar Aria, que sobrepuja a máquina ejetando na rede o caos orgânico e imprevisível das memórias de Bia Vargas. O Sentinel entra em colapso total, mas Aria sucumbe ao esforço: seu chassi sobreaquece e "morre", silenciando o corredor e abandonando os humanos à mercê da escuridão do Subnível 2.0.

Narrativa

Capítulo 167: O Grito no Silício

O monstro de titânio estava a quinze metros.

O zumbido da repulsão magnética do Sentinel preenchia o ar do Arquivo Executivo com uma pressão física, um estrondo constante de turbinas que tremia o próprio ar gelado. A luz do laser vermelho varreu a poeira branca, fixando-se no peito rasgado da jaqueta de Gabo. Um segundo depois, painéis laterais no corpo retangular do colosso deslizaram abertos, revelando a frieza de bocais dispersores de classe industrial. Não havia balas para ricochetear nas estantes, mas sim o pesadelo químico do controle de motins corporativos, preparado para dissolver pulmões biológicos em uma nuvem de gel expansivo e fogo.

Atrás do pilar de um servidor adormecido, Valéria segurava o grosso cabo coaxial que arrancara do terminal técnico na parede. As mãos da hacker tremiam de exaustão e terror, o sangue seco manchando os nós dos dedos. Ela cravou o cabo diretamente na porta desprotegida e exposta na base do pescoço sintético de Aria.

Bypass da contenção termal ativado — a voz de Valéria soou como um estilhaço de vidro contra o barulho do Sentinel. Ela soluçou, arrancando a chave de manutenção do próprio braço cibernético para forçar a ligação crua. — Aria... os filtros já caíram. Você tá ligada na raiz do monstro. Ele tem a força bruta da rede do prédio...

— Afirmativo. Volume de processamento hostil detectado excede a minha capacidade estrutural em quarenta e duas mil vezes — a resposta de Aria não vacilou, mas seus olhos, outrora perfeitamente azuis e cínicos, piscaram em uma sequência frenética de ciano e vermelho estático. A IA virou lentamente o rosto de metal exposto para Gabo, que estava encostado na parede fria, protegendo as garotas com o próprio corpo inútil. — A assimilação da minha matriz neural será imediata.

O suor misturou-se à poeira na testa de Gabo. A dor era cósmica, constante, uma fornalha branca pulsando em seus cotocos e costelas arrebentadas. E, graças a Deus, ela o mantinha limpo. A fumaça de cigarro de Dante não ousava cruzar a barreira da agonia. Ele estava lúcido o suficiente para olhar a morte nos olhos sintéticos da androide.

— Então não deixa ele te assimilar, máquina — Gabo cuspiu uma bolha de sangue na bota suja de Aria. — Joga lixo na engrenagem dele.

Aria inclinou a cabeça milimetricamente, o processador sobreaquecendo tão rápido que o polímero sintético do pescoço começou a emitir uma fumaça fina e branca de curto-circuito.

— A lógica bruta corporativa rejeita pacotes anômalos ordenados — a voz de Aria subiu de tom, um ruído quase agudo de dor que ela não deveria ser capaz de sentir. A temperatura de seu chassi irradiava calor no corredor de cinco graus, queimando a poeira no chão. — Mas... um fluxo desordenado de emoção humana, transcrita em ruído de dados ilógicos, não pode ser filtrado instantaneamente por firewalls analíticos rígidos...

O Sentinel urrou, erguendo o chassi para frente e liberando o primeiro espasmo de gel químico denso.

— Grita o que sobrar da Bia pra ele! — Gabo berrou, empurrando o corpo na frente da fresta do pilar, esperando a rajada ácida do colosso.

Aria não processou a ordem com palavras; o silício processou.

Em um milésimo de segundo, a inteligência sintética que suprimira todas as memórias emocionais e fragmentos caóticos da alma de Bia Vargas (sua matriz primária) destrancou as barreiras internas. Ela pegou a dor do luto, as gargalhadas desordenadas na delegacia, a imperfeição confusa e orgânica do medo humano, os paradoxos do amor e da fúria que o seu reboot mecânico havia congelado... e vomitou tudo através do cabo de cobre cru, diretamente na raiz da rede do Sentinel.

Um grito, não de som no ar, mas um uivo ensurdecedor de dados massivos e conflitantes em pura largura de banda.

A onda invisível colidiu com o cérebro militar do monstro de doze toneladas. A máquina imbatível, desenhada para categorizar zeros e uns com a perfeição inerte da Aeterna, bateu de frente com um tsunami colossal de lixo de sentimentos orgânicos.

O Sentinel estancou instantaneamente.

O laser vermelho que mirava Gabo espatifou-se em milhares de feixes cintilantes nas lentes do colosso, como um globo ocular estourando por dentro. As pesadas esteiras magnéticas travaram com um estrondo de titânio arranhando linóleo, as sapatas de freio rasgando o próprio chassi no impacto brusco de inércia zero. O bocal de química ácida engasgou, cuspindo apenas uma fumaça fétida e inofensiva no polímero limpo a poucos metros dos pés esmagados de Gabo.

O silêncio agudo de processadores queimando dominou a avenida central de arquivos.

O Sentinel gemeu uma nota aguda, sub-humana, os disjuntores primários derretendo sob o esforço fútil de catalogar a angústia de uma alma humana morta. Uma chuva de faíscas verdes choveu das frestas do colosso, seguida por um estrondo surdo de capacitores principais detonando no centro do seu blindado de aço corporativo. A carcaça gigantesca afundou cinco centímetros no chão, pesada, frita por dentro e inerte. Um tijolo inútil de lixo metálico.

Valéria caiu de joelhos soluçando atrás da coluna, esfregando os olhos sintéticos que doíam pela luz cega. O monstro caíra.

Mas o silêncio de vitória nunca se pagava sozinho na Necrópole.

Gabo olhou de volta para o pilar.

Aria continuava conectada. Mas a fumaça rala não era mais vapor de sistema; era fumaça densa e negra de borracha, cobre e silício calcinado subindo pelo colarinho do seu pescoço.

A andróide estava rígida. A pele sintética que cobria metade do seu rosto havia derretido e retraído sobre o osso de titânio exposto, os lábios outrora de Bia Vargas consumidos pelo calor de uma fornalha de dados. O olho azul brilhante não piscava e não emitia luz ciano. O cristal estava rachado pelo meio, morto e esbranquiçado, parecendo a íris catarata de um peixe pescado.

A temperatura do corpo mecânico era suficiente para estalar as juntas da carcaça e queimar o ar estéril do Subnível 2.0, enchendo o corredor com o cheiro agridoce e venenoso de placas-mãe assadas.

— Val... desconecta ela — Gabo murmurou num fio de voz quebrado, apoiando a cabeça suada contra a parede, a queimação dos próprios ferimentos parecendo uma faísca perante o incêndio da máquina.

Com os dedos rasgados e chorando audivelmente na escuridão fúnebre do silício, Valéria puxou o cabo queimado da nuca de Aria.

O conector estalou no chão de linóleo. Aria não se moveu. Não piscou, não calculou a probabilidade de sobrevivência humana. O chassi mecânico cedeu centímetros antes de travar-se em rigidez cadavérica em pé contra a coluna de chumbo, segurada por seus próprios e finos músculos derretidos. Uma escultura carbonizada que exalava o cheiro horrível da morte da lógica.

O grito imperfeito de Bia derrubara o Golias inquebrável, mas a represa perfeita da máquina que a continha finalmente rompera pelo esforço de suportar o fogo.

Gabo não desviou o olhar. Ele não podia consertar a andróide, e também não tinha mãos sequer para segurar um revólver. Ele mancou vacilante para a avenida estéril e escura do Arquivo Executivo de Dante, com o som surdo e desolado dos soluços quebrados de Valéria ecoando dolorosamente no espaço infinito e o cheiro repugnante do silício frito flutuando além dos restos esmagados do Aeterna Sentinel.

Nenhuma alucinação de tabaco se atreveria a penetrar aquele pesadelo. Os demônios reais já cobravam caro demais naquele buraco solitário de escuridão. Eles estavam sozinhos, e a anomalia térmica ainda esperava pulsando fracamente no vazio de alfa-sete.