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Capítulo 187: O Arquivo Morto
A fumaça não recuava. O cheiro adocicado de charuto e cinzas — o exato perfume dos charutos de Dante — impregnava o corredor cilíndrico que descia em espiral para o abismo do Setor 7. O ar não continha nenhuma partícula real de fuligem, mas o meu cérebro avariado, acossado pelo terror biológico e tecnológico do "Jardim", manifestava o trauma paterno com a densidade de um nevoeiro opressivo.
Esfreguei o cotoco da clavícula na parede de concreto descascado, mas a dor aguda da fricção já não era o suficiente para dissipar a asfixia mental. Parei, sentindo os motores das minhas órteses nas pernas rangerem e ameaçarem superaquecer com a postura estática e mal distribuída. Levantei meu braço direito, a prótese industrial grosseira e sem calibração, e girei a trava do atuador do pulso até a posição de manutenção, expondo os contatos elétricos. Com um grunhido gutural, apoiei os conectores desencapados diretamente contra a carne nua do meu ombro danificado.
Um arco de eletricidade de duzentos e vinte volts estalou, queimando a pele e os terminais nervosos. O choque elétrico espasmou minha musculatura, travou meus dentes e injetou uma dor lancinante e purificadora pela minha espinha. A alucinação do charuto se dissipou, estilhaçada como um espelho sob uma marretada. Respirei fundo. O ar agora tinha apenas o gosto amargo de ozônio, mofo e ferrugem.
— Ritmo cardíaco estabilizado. Pressão sistólica em recuperação, — a voz gélida de Valéria cortou o silêncio lúgubre do fosso. Ela descia os degraus logo atrás de mim. Sua postura era rígida, utilitária e perfeitamente equilibrada, ditada pelas diretrizes estritas do seu Modo de Segurança. Seus olhos artificiais emitiam um brilho azulado opaco, processando métricas e probabilidades em uma interface que descartara a emoção como lixo residual.
— É a porra do ambiente, — resmunguei, minha voz rouca enquanto avançava, o ruído metálico e pesado das minhas pernas acompanhando cada passo incerto. — Esse lugar fedia a Dante desde o Arquivo, e a praga do "Jardim" usando os corpos empalados multiplicou isso.
Valéria não ofereceu qualquer forma de conforto. Em sua programação atual, confortar seria um gasto inútil de processamento.
— A leitura residual de dados extraída do bio-nó anterior no Complexo Hidropônico confirma a diretriz. A infestação do 'Jardim' utilizou os processos cerebrais de dezesseis indivíduos falecidos em configuração daisy-chain para quebrar a criptografia física dos portões inferiores. O vetor indica a intenção absoluta de religar e parasitar o Arquivo Executivo, — relatou ela, a cadência monótona amplificando o aspecto tétrico do subterrâneo escuro.
— Eles querem conectar a floresta necrótica de cadáveres de Silas no maldito supercomputador de Dante, — eu traduzi o cenário com amargura visceral. — Nós destruímos o Sentinel e apagamos o wetware no Subnível 2, mas não implodimos a estrutura física. Se essa praga religar os servidores, ela vai utilizar a velha infraestrutura da Aeterna para se espalhar por cada cabo ótico enterrado nessa cidade podre. Baía Cinzenta inteira vai virar uma estufa de carne alimentando servidores de silício.
Continuamos a descida até o fosso terminar diante das imensas portas do elevador de carga expresso que levava às profundezas. O painel original estava morto, porém o maquinário estava envolto pelas mesmas raízes grossas e avermelhadas que pulsavam como artérias doentes.
Eu não possuía sutileza em minhas mãos de ferro e cicatrizes. Avancei para o vão entre as portas metálicas. As órteses gemeram, transferindo a pressão para os meus joelhos castigados. Posicionei a mão industrial bruta e fechei o punho. Com a força bruta hidráulica forçada além da segurança mecânica, puxei a pesada porta à esquerda. O aço rasgou contra o suporte torto, e a biologia invasiva esguichou fluidos viscosos quando a trava de contenção cedeu.
Através da abertura escancarada, não se via o chão da cabine do elevador, apenas as dezenas de cabos de aço grossos mergulhando verticalmente no escuro absoluto.
— O poço de transporte. Quarenta e cinco metros de queda livre até o duto de manutenção do Arquivo, — Valéria calculou, inclinando-se ligeiramente, seu corpo projetando um silenciamento funcional. — Posso calcular os pontos de estresse nos cabos para a descida, mas sua taxa de falha com as atuais condições de órtese mecânica e prótese não calibrada ultrapassa oitenta por cento.
Senti novamente uma tênue aragem, e, com ela, o fantasma rastejante do cheiro do tabaco tentou invadir minha respiração. Sem hesitar, e com muito ódio nos olhos, cravei as garras irregulares de metal na beirada de aço do elevador quebrado. A pressão excruciante subiu pelo meu braço e estalou os ossos do ombro, expulsando o cheiro imediatamente.
— Não precisa calcular nada, Valéria. — Eu agarrei o cabo de aço espesso e revestido de óleo. — A falha não é uma opção matemática. Nós descemos. Nós queimamos essa praga antes que ela plugue o inferno na rede. E nós saímos por cima dos restos deles.
Sem esperar por uma objeção lógica que nunca viria, deixei o peso do meu corpo cair no abismo, os servos do meu braço rangendo sob a violência da ação, enquanto engolíamos as sombras.